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Os Paradigmas do Acesso aos Serviços de Saúde

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O conceito de valor em saúde é relativamente simples de entender, mas é um grande desafio para colocá-lo em prática. Valor é uma fórmula que divide o benefício pelo esforço, ou seja, quanto maior o benefício e/ou menor o esforço, maior é a percepção de valor pelo cliente. Na área de saúde, o benefício é traduzido em qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) e satisfação que reflete a experiência do paciente com o cuidado que lhe é prestado. Já o esforço tem a ver com as questões de preço e acesso.
De todos estes fatores, considero o acesso como um dos principais fatores de percepção de valor pelo cliente, pois ele pode ser influenciado diretamente pelo gestor da saúde. Atrevo-me a afirmar que quanto pior for o acesso do paciente aos serviços realmente necessários, mais incompetente é o gestor de saúde.
Quanto se fala em acesso aos serviços de saúde, devemos considerar dois aspectos importantes: estrutural e geográfico. O aspecto estrutural abrange questões de dimensionamento de rede, uso de ?portas de entrada?, o processo de regulação, etc. Por outro lado, o aspecto geográfico refere-se à localização da rede comparada com a distribuição das vidas assistidas, o tempo total de espera para o atendimento, dentre outros.
Alguns paradigmas com relação ao acesso devem ser primeiramente entendidos para serem quebrados. Ainda existem gestores que utilizam de estratégias que dificultam o acesso para buscar a redução da utilização. Outros insistem em divulgar que redes amplas de atendimento é o melhor produto a ser vendido ao mercado.
O primeiro paradigma traduz a visão míope de muitos gestores, pois dificultar o acesso através de rotinas burocráticas para autorização de senhas e redes restritas não organizadas acaba por aumentar a utilização e os custos do sistema. Uma das comprovações disso está no aumento contínuo da sinistralidade que temos observado. Obviamente estes não são os únicos fatores, mas com certeza, estão dentro das causas explicáveis. A prova contrária é demonstrada no modelo da Kaiser Permanente nos EUA. O modelo ?one stop shop? tem se mostrado altamente eficiente e eficaz, a ponto desta operadora estar entre as melhores daquele país em termos de custo e qualidade. Lá não tem fila de espera nos prontos-atendimentos e prontos-socorros e praticamente a totalidade dos problemas dos clientes (desde o acesso a consultas, exames, medicamentos e autorizações) são resolvidos em um de seus 35 centros médicos próprios onde 90% dos médicos são assalariados e tem dedicação exclusiva.
O segundo paradigma trazido aqui para pensarmos, parte do princípio de que redes amplas têm maior qualidade e são mais desejáveis pelos clientes. Algo bastante questionável. Temos dois casos práticos em duas operadoras de planos de saúde onde implantamos um conceito diferente de rede restrita que batizamos de RHIAS© (Rede Hierarquizada e Integrada de Atenção à Saúde). Nestes dois casos, além dos custos de atendimento ser 35% menor que a rede aberta, a percepção de qualidade dos clientes foi tamanha a ponto destes centros atenderem hoje a mais de 40% de clientes que tem contrato para utilizar redes abertas. Ou seja, por que os pacientes que tem direito de livre escolha na rede, fizeram opção em utilizar as redes restritas organizadas? A resposta é simples: melhor acesso. Nestes Centros Médicos o acesso é facilitado e grande parte dos problemas é resolvida sem precisar enfrentar as burocracias tradicionais, além disso, a informação centralizada e integrada permite uma gestão epidemiológica mais eficiente e efetiva a ponto de reduzir todos os indicadores de desfecho clínico e os respectivos custos.
Enfim, melhorando o acesso você pode reduzir os custos, aumentar o seu nível de informação e controle, reter e aumentar os clientes através da melhoria da percepção de valor. Algo que parece um paradoxo: dando mais serviço com qualidade, a utilização e os custos com a saúde diminuem.
O modelo de remuneração é um dos componentes fundamentais do RHIAS©, pois as equipes de saúde devem ser muito bem remuneradas e ter seu desempenho avaliado continuamente com remunerações híbridas onde se associa o valor por hora, a produtividade e o pagamento por performance.
O acesso é uma das dimensões da qualidade a serem medidas num processo formal de avaliação de desempenho. No modelo GPS que defendemos, o acesso é uma dimensão transversal que deve ser avaliada. Isso está alinhado com a RN 275 publicada no ano passado pela ANS a qual institui o Programa de Monitoramento da Qualidade dos Prestadores de Serviços na Saúde Suplementar (QUALISS), onde  considera a dimensão do acesso como um dos domínios a serem avaliados.
Os indicadores de acesso, propostos pelo Comitê Gestor do QUALISS, que serão avaliados para monitorar os hospitais neste primeiro momento são os seguintes: acolhimento com classificação de risco no PA/PS e o tempo de espera os pacientes na urgência.  Estes indicadores ainda são tímidos para avaliar o acesso em termos mais abrangentes, mas já é um começo e, com certeza, influenciará o mercado.
O problema relativo ao acesso é tão grande na saúde suplementar (sem entrar em detalhes do terror que é no SUS), que recentemente a ANS precisou intervir e publicou uma normativa que obriga as Operadoras de Planos de Saúde a atender seus beneficiários num tempo máximo para determinadas especialidades.
O mercado hospitalar tem reagido muito bem aos problemas de acesso na saúde suplementar, aproveitando esta enorme oportunidade. Atualmente os hospitais estão investindo mais em serviços de pronto atendimento e consultórios do que nas unidades de internação. Ou seja, os hospitais estão assumindo a atenção de primeiro nível!
Enfim, precisamos repensar nosso modelo de atenção e analisar criticamente os paradigmas que nos são impostos. A questão do acesso aos serviços de saúde é um ponto que merece uma análise muito cuidadosa, pois, de todos os fatores que agregam valor, este é o que tem maior condição de atuação.

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