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O Titanic e a saúde

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Eu costumo visualizar os avanços em medicina como um grande transatlântico, em velocidade de cruzeiro, em alto mar. Impressiona pela tecnologia. Já os custos em medicina são facilmente representados como um iceberg. Dá para ver a ponta, mas a maioria dos gastos são uma incógnita. Seja porque são custos indiretos (como, por exemplo, do absenteísmo) ou porque são resultados de desvios e desperdícios. Não precisa ser muito criativo para ver onde isso vai dar. Transatlântico e iceberg: inevitável lembrar do Titanic ? possivelmente a maior fonte de metáforas do mundo.

Em 1995, foi publicado interessante ensaio sobre os dados estatísticos do desastre marítimo no Journal of Statistics Education. A taxa de mortalidade em passageiros de classes econômicas menores foi quase o dobro comparados as classes mais abastadas. Outro paralelo fácil de traçar com saúde. Há alguns dias a Organização Mundial de Saúde publicou dados que mostram que, apesar de ter aumentado em uma década, o Brasil gasta pouco com o setor em comparação com a média mundial. Enquanto o mundo gasta em média 14,5% do produto interno bruto (PIB) em saúde, o Brasil não chega a 6%. Países ricos chegam a 17% e países africanos 9,6%. Cabe mencionar que aproximadamente 50% gastos em saúde no país são concentrados nos 20% de brasileiros que tem planos de saúde. Os outros 80% que só tem acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) utilizam a outra metade. A iniqüidade impressiona. O número de leitos merece um capítulo. Enquanto os europeus tem 68 leitos para cada 10 mil habitantes, o Brasil tem 26. É certo que a população européia é mais velha e pode demandar mais utilização… mas a saúde no velho continente é praticamente socializada.

No Brasil, a dificuldade de leitos é sistêmica mas muito mais grave no sistema público. Bom… feito o diagnóstico, o que pode ser feito? Definitivamente não podemos nos dar ao luxo de usar energia e tempo arrumando as cadeiras no convés. A meta deve ser modificar curvas de aumento de custo e as diferenças entre o sistema público e privado, para que não tomem proporções oceânicas. Análise de custo-efetividade e políticas de saúde devem refutar tecnologias que não agregam valor relevante. Reengenharia tributária a fim de desonerar a área médica deve ser considerada. Sofisticação e criatividade ? feita por profissionais e não apadrinhados políticos – no controle de fluxos gerenciais são importante. E, principalmente ? não só pelos recursos que se perdem, mas também pela indignação que gera – crimes e desvios devem ser punidos rigorosamente. Lutamos para evitar catástrofes e perdas de vidas mas, sem mudanças de rumo, a colisão é uma questão de tempo.

 

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