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O sistema está doente

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No dia que devíamos comemorar avanços na saúde ? e estimular medidas preventivas e terapêuticas que aumentam tempo e qualidade de vida ? não quero ser estraga prazeres, mas me sinto no compromisso de assinalar alguns pontos importantes que eventualmente são subdimencionados.

O modelo atual ? e o caminho que estamos trilhando ? aponta para um futuro no qual o sistema pode se tornar muito pouco saudável. Cada passo e avanço técnico que festejamos é acompanhado de alguns efeitos colaterais inevitáveis: estamos empilhando custos sem o incremento orçamentário necessário.

Estudo realizado pela Massachusetts Attorney General?s Office aponta uma série de dados sobre o incremento de custos, entre eles um é salientado: preços aumentam. Não é só a utilização maior que causa aumento em despesas médicas. Cada novo medicamento, que acrescenta alternativas (raramente substitui definidamente as já existentes) entram no mercado com preços que tentam compensar alegado $ 1 bilhão de dólares que se gastou para seu desenvolvimento e disponibilização comercial, em um modelo chamado ?Blockbuster? onde 1 remédio de sucesso deve ser precificado de forma a retornar investimento feito para si próprio, mas também de algumas dezenas que naufragaram no processo de desenvolvimento científico. Parece simples e lógico. O que não se menciona muito é que regras comerciais internacionais, movidas pelas metas agressivas de retorno financeiro não permitem que os preços sejam reduzidos quando este investimento atinge seu cálculo de retorno (o que até acontece antes do esperado em alguns cenários quando o mesmo remédio acaba se mostrando eficaz em outras situações não originariamente conhecidas, por exemplo). Salvo entrada de genéricos ou outros concorrentes no mercado, é muito improvável que preços de remédios caiam.

Menciono, também, que muito frequentememte, os ganhos prognósticos assinalados pelas novas tecnologias são, no máximo, marginais e suas expectativas são superestimadas pelos profissionais e pacientes. Publicação sobre custos em câncer na New England Journal of Medicine recomenda uma série de estratégias para modificar esta curva ascendente que ? em um país no qual pacientes participam diretamente com parte cada dólar gasto na sua saúde, através da co-participação ? tem inviabilizado alguns tratamentos. O item que saliento é justamente este: deve haver debate franco e claro com pacientes e familiares sobre o real impacto de cada estratégia terapêutica.

Sobre o mesmo tema, vários especialistas em saúde (e em dinheiro) também assinalam seus diagnósticos. Warren Buffet, maior fortuna do planeta, é direto: ?O problema é o incentivo. Pagamos pelo serviço e não pelo resultado?, disparou em entrevista para CNBC.

É fato. Mesmo em provedores que oferecem mesmo nível de complexidade de atendimento na mesma região geográfica, os preços variam muito. Variação esta que não é claramente explicada. Vários pensadores da área tem tentado montar modelos mais adequados do que o vigente. A lógica de pagamento no mesmo formato de restaurantes (pagar o que se consume) não estimula busca de qualidade e otimização de recursos. Este formato é fortemente sustentado em terapia, com medidas preventivas proporcionalmente tímidas. Não imagine, entretanto, que investimentos em medicina preventiva sejam solução para tudo. Até programas preventivos, que tem uma lógica intuitiva simples (?melhor prevenir do que remediar?), devem ser vistos com responsabilidade gerencial e orçamentária, que equacione o quanto se investe para cada mudança de desfecho. Em resumo: achar que aplicar todo recurso em prevenção é simplificar o problema e desconsiderar a dinâmica e complexidade da saúde. Prevenção é importantíssima, mas deve ser feito de forma profissional e científica.

O mais triste, sem dúvida, é o mal uso do recurso. Não bastasse termos números insuficientes para suprir necessidades adequadas, parte do dinheiro e mal utilizado ou desviado. Pode levar muito tempo ? e talvez o prognóstico seja pior do que se imagina e nunca chegaremos lá ? para se agregar uma consciência de bem coletivo. Saúde é um direito de todos?. e os recursos para tal são de todos e não de uma minoria que, com sua bússola moral danificada, tratam propinas e desvios com uma naturalidade patológica.

Não é razoável, então, que o modelo de investigação científica, que o modelo de relacionamento entre provedores e pagadores e o modelo assistencial e gestão sigam sendo usados sem reflexão e correções de rumo.

Ou nos preparamos, ou morremos da cura.

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