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O segredo do sucesso da superbactéria KPC

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É interessante notar como dentro do comportamento humano as coisas se repetem de forma absolutamente previsível. No caso desta nova “onda” midiática da superbactéria KPC (na verdade um germe da família dos gram negativos chamada Klebsiella Pneumoniae. O “C” vem de carbapenemase, que significa que ela é produtora de uma substância – a carbapenemase – que a torna resistente a uma classe de antibióticos muito potente chamada carbapenêmicos), não existe nada de surpresa. Bactérias multi-resistente, ou, mais modernamente falando, “super-bactérias”; são companheiras inseparáveis de hospitais, clínicas e também de domicílios, com o advento do fenômeno da internação domiciliar (“home-care”), sendo observados surtos mais ou menos divulgados na imprensa de acordo com o veículo utilizado. O que envolve de anacronismo da notícia é a cortina de fumaça que o Ministério da Saúde criou em torno da situação, através de pronunciamento do ministro e da ANVISA a respeito de medidas urgentes que serão adotadas na compra e venda de antibióticos pelas farmácias, para o público leigo passando a impressão de que essa é uma das estratégias mais importantes no combate a surtos futuros. A assertiva está correta, aliás há muito tempo especialistas e profissionais vem requerendo uma atitude de decência por parte dos governantes para acabar com a farra da venda de antibióticos (muitos deles sem eficácia, ultrapassados ou não recomendados em outros países) sem controle adequado. Mas a eficiência de uma medida desta natureza no controle de um germe hospitalar com este potencial de resistência é nula, por um motivo singelo: nenhum antibiótico à venda nas farmácias tem ação sobre este tipo de bactéria. A medida tem valor enquanto política de controle de disseminação de germes resistentes na população em geral, na prevenção de super-infecções e na redução de efeitos adversos causados por estas drogas. Mas já deveria ter sido implantada há muito tempo. O mais engraçado da história é ver como as Secretarias de Saúde de diversos estados da federação, tais como São Paulo, Ceará, Paraíba, Espírito Santo, Mato Grosso, Minas Gerais, além do próprio Distrito Federal, vêm divulgando suas taxas de infecção pela “super-bactéria KPC” como se fossem um fato trivial, mas ao mesmo tempo passando a impressão de uma disputa para ver quem ganha em casos.  O fato é trivial, sim. Mas não menos grave por isso. Episódios como essa KPC são frequentes e ocorre a todo momento no Brasil e no mundo, envolvendo bactérias diversas, e são de conhecimento das respectivas Secretarias Estaduais de Saúde, responsáveis pelas políticas relacionadas a resistência bacteriana nos hospitais, mas nem sempre são de conhecimento da imprensa. Muitas vezes sequer são divulgadas além dos muros do hospital. Mas quase sempre o surto se extingue ou se mantém sob controle através da adoção de medidas locais mais eficientes de adequação de tráfego, de melhor aplicabilidade de testes de sensibilidade antibiótica nas infecções, no aprimoramento de medidas de higiene, no “mix” mais eficiente de drogas, ou na combinação destas medidas. Ainda bem. Quem não está muito “bem na fita” são os profissionais de saúde, principalmente os médicos, que em última análise são os principais responsáveis pelo aparecimento destes micro-organismos por serem aqueles que prescreverão os antibióticos, neste caso de forma inadequada, e gerarão todo um ciclo de eventos que culmina na eleição dentro daquele meio de germes multi-resistentes, assim alçando essa condição geralmente por mutação. Venho observando o trabalho de alguns profissionais ligados diretamente às Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH’s) de alguns hospitais que não parecem ter a clareza necessária no ato de indicar este ou aquele cuidado, ou este ou aquele antibiótico para uma determinada situação particular. Médicos que atuam nas Unidades de Tratamento Intensivo são propensos também a fazerem escolhas infelizes quando se trata de antibióticos. E, via de regra, toda a comunidade que frequenta o hospital não adota as medidas para evitar a disseminação das infecções hospitalares de forma certa, tais como uma simples lavagem das mãos de forma correta. Está pronto o caldo aonde as KPC’s da vida vão se desenvolver e aparecer no Jornal Nacional. Quanto aos antibióticos em si, não mais estão disponíveis na quantidade que se tinha a dez ou quinze anos atrás, pois a indústria farmacêutica percebeu que a pesquisa, fabricação e comercialização de novos agentes que superem essa resistência não compensava o custo no investimento aplicado. Tanto é que nos últimos anos quem tem acompanhado o assunto vai perceber que pouquíssimos lançamentos surgiram, com indicações cada vez mais específicas e preços cada vez mais salgados. Mesmo nessas situações, o que fazem nossos profissionais? Na falta de perspectiva para se obter a melhora dos nossos pacientes internados, graves, muitas das vezes moribundos e com indicação técnica apenas para cuidados paliativos, prescrevem essas mesmas drogas, específicas para uma determinada condição, de forma empírica e irracional para um paciente com este perfil, não respeitando anos de testes clínicos que não a indicam para aquela finalidade. Em suma, o problema não é novo, as estratégias oficiais divulgadas para o combate são boas (vem atrasadas) porém inócuas, e fique atento sim, leitor, pois você ou alguém de seu círculo de relacionamento pode estar em contato com essas super-bactérias e nem sequer desconfiar. A KPC é apenas, eu disse apenas, uma delas.

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