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O Prontuário Eletrônico, o céu e o inferno!

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Mesmo que você seja ateu deve ter ouvido falar de céu e inferno, que no céu as coisas são perfeitas e chegar ao paraíso deve ser o objetivo de vida de todos, enquanto o inferno é o caos absoluto e ali existe “pranto e ranger de dentes”.

É a analogia que faço entre o que se deseja com o Prontuário Eletrônico e o que acontece na prática: para o hospital, quando bem implantado, é o céu … mas para o paciente, para o hospital que implanta por implantar sem levar realente a sério a implantação, e para o sistema de saúde como um todo tem sido o inferno.

Vou comentar uma experiência profissional: estive no papel de diretor comercial do primeiro hospital brasileiro a implantar prescrição médica, evolução médica e dispensação eletrônica de medicamentos. Com isso tive muita facilidade em automatizar lançamentos de faturamento, era um alívio ver o auditor externo consultando os itens mais críticos no computador, e o PEP era argumento de negociação comercial com as operadoras. Para este hospital, o PEP é o céu.

Vou comentar uma experiência pessoal: estou às vésperas de marcar uma cirurgia eletiva em um hospital que implantou prontuário eletrônico há uns 5 anos – prescrição e evolução médica e multidisciplinar – ainda não resolver a questão da dispensação de medicamentos de forma adequada. Na consulta com um médico que nunca havia visto na vida, ele consultou uma informação em um exame que fiz em 2014 quando passei pelo pronto socorro desse hospital, e o resultado do exame e a evolução estão ajudando na definição da conduta. Para este hospital o PEP está se tornando o céu.

Mas (sempre tem um mas), no primeiro exemplo até hoje convivem o prontuário eletrônico e o em papel, porque o PEP não está 100 % implantado em todas as rotinas de todos os profissionais assistenciais, portanto parte está no sistema e parte em papel.

E pegando carona no segundo exemplo, entre 2014 e hoje se vão 3 anos, e que passei por diversos médicos e serviços de saúde, mais indicados para o que eu necessitava do que o serviço que este hospital pode prestar. Você faz ideia:
Da quantidade de exames que eu levei em mãos na consulta com este médico que está prestes a definir uma cirurgia eletiva relativamente simples?

Do tempo que o médico levou para consultar laudos de diversos SADTs, “tudo sem padrão” e olhando filmes no negatoscópio?

Da quantidade de informação que não estava nem no PEP deste hospital, e nem nos laudos de exames que levei em mãos e são significativos para a definição da conduta?

Veja que para o paciente o PEP implantado nos hospitais, da forma como está sendo, não serve pra nada. Cada vez que vai em um médico ou serviço de saúde diferente é como se não tivesse passado. Se tem pressão alta, diabetes, problema renal crônico, arritmia … se já tive parada cardíaca, pneumonia … se é HIV positivo … o médico só vai saber se ele souber, ou se lembrar … e se estiver consciente e/ou em estado de consciência para dizer.
Incrível, não é?

Estamos em 2017 e, se eu soltar um cheque sem fundo de R$ 1,00 não consigo crédito nem com estelionatário, mas se eu sofrer acidente em uma estrada e cair em um hospital de luxo, santa casa, ou hospital público, nem mesmo meu tipo de sangue o serviço vai saber antes de realizar a milésima “tipagem” da minha vida. Tem coisa mais inútil do que ter que “tipar” o grupo sanguíneo de uma pessoa mil vezes durante uma vida, se ela não muda!

O inferno do Prontuário Eletrônico, infelizmente, não é só esse. Infelizmente mesmo, existem alguns aspectos da informatização do prontuário que fazem com que muitas vezes a qualidade do prontuário diminui sensivelmente quando migra do papel para o “bit-byte”:

A maior parte das pessoas está cada vez menos comprometida com a qualidade da informação dos pacientes, e usa “copy paste” para preencher formulários obrigatórios sem o menor critério. Já vi menção de próstata de tamanho aumentado em prontuário de mulher, demarcação em membro de paciente amputado … e uma série de coisas absurdas. Como o PEP é implantado sem critério em muitas situações, e determinados formulários são obrigatórios porque o sistema integra o sistema de produtividade com o preenchimento de informações, o profissional simplesmente “copia e cola” só para não deixar o formulário em branco”.

Quando trabalhamos a base de dados do sistema para apurar produção, gerar estatísticas e tabular informações para padronização de procedimentos, aumentar o faturamento e reduzir custos nos deparamos com situações sinistras: o mesmo médico atendendo simultaneamente em unidades muito distantes uma da outra – as vezes todos os registros de uma unidade feitas sempre pela mesma enfermeira – o mesmo anestesista assinando cirurgias em 3, 4 … 10 cirurgias simultâneas – um médico que está em um congresso apontado como responsável por uma cirurgia – um mesmo médico aparecendo na estatística com vários nomes e o mesmo CRM. Quando se implanta o sistema na base do “boi bumbá”, login e senha é mais público que o “banquinho da praça central” … todo mundo usa o mesmo!

Não é muito raro o hospital trocar um sistema por outro, e não tem nada de mal nisso: se existe uma oportunidade de mercado para melhorar a tecnologia, agilizar os processos e reduzir custos é obvio que o hospital não deve ficar casado, torcendo para o fornecedor melhorar o sistema. Mas trocar o sistema sem migrar os dados hoje em dia é algo absolutamente inaceitável … é de pasmar, mas em um hospital que tem prontuário eletrônico há mais de 10 anos pode ser que a informação eletrônica só esteja disponível relativa aos últimos 3. Foi-se a época que existiam linguagens e bancos de dados que eram impossíveis de serem integrados … isso é coisa da época da minha adolescência. Trocar o sistema e “começar do zero” só é justificável se o hospital quer “apagar seu passado” – se tem algo a esconder!

Poderia ficar horas aqui escrevendo sobre como o Prontuário Eletrônico, tão evoluído conceitualmente, continua sendo uma aplicação absolutamente rudimentar no sistema da saúde brasileiro.

Apesar da oferta de excelentes sistemas PEP, que são o céu, vivemos em um país em que não existe sistema de saúde – existem apenas sistemas de financiamento para a saúde: SUS e saúde suplementar na prática são essencialmente um monte de regras para remunerar os prestadores pelos seus serviços de saúde, ou seja, o inferno.
Nas aulas e oficinas do modelo GFACH e GCST quando afirmo isso os alunos divergem, mas ao desenvolver o tema todos acabam entendendo. Vamos pegar o exemplo do corujão da saúde, esquecer os demais aspectos e analisar apenas a questão do PEP:

Se notou a exposição da mídia, uma boa parte dos exames foram realizados em hospitais que têm PEP e PACS implantado – não dá pra discutir isso;

Então o paciente tem a informação do seu exame na Internet … claro que não … não tem;

Então pelo menos os médicos da prefeitura, que foram os provedores junto aos hospitais, podem consultar os exames no PEP do hospital que realizou … não … não podem;

Então pelo menos o SUS, que na teoria pagou pelos exames, pode consultar os resultados dos exames … não … não pode.

Este é o ponto central da discussão do PEP: este exemplo demonstra que na prática, mesmo com o PEP nos serviços de saúde que prestam o serviço, o principal que é a informação que o médico necessita se resume ao paciente levar um pedaço de papel e um filme. Olha que loucura – há décadas a máquina fotográfica que revelava filmes passou a ser objeto de museu, mas para consultar imagem de uma tomo o filme continua soberano – para a brincadeira da foto a evolução baniu o filme, e para o que é mais importante (a saúde) o filme continua sendo o meio de armazenamento real.

Num país em que a saúde é tratada com a mesma, ou menor, prioridade que a duplicação de uma rodovia, o PEP que deveria ser o céu, continua sendo o inferno!

       
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