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O médico estrangeiro que prescreveu na dose errada e a segurança do paciente brasileiro

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Houve um erro de medicação na longínqua e de difícil acesso Tramandaí. Leia mais aqui (desculpem mais não pude perder a piada. Justificaram o Programa Mais Médicos como saída temporária para os rincões deste país. Mas Tramandaí, para quem não sabe, está localizada a pouco mais de 100km de Porto Alegre, possui população de 41.655 mil habitantes (Censo 2010-IBGE) e é ponto de referência turística no Rio Grande do Sul. Mas voltemos ao caso da prescrição em dose errada). Minha primeira sensação ao ver dezenas de colegas esculhambando com o médico argentino foi de que estávamos pisando na bola, indo contra princípios e diretrizes elementares do moderno movimento de segurança do paciente. ?Chega desta cultura profissional que premia a aparência de certeza e de perfeição?, pensei. ?Ainda por cima, é o tipo de erro que eu poderia cometer?.

O fato é que dificilmente prescreveria Azitromicina 500mg de 8/8h (sei bem a dosagem desta medicação). Mas na vida real, tendo que atender pressionado pelo tempo ou longas filas, eventualmente em momento de distração determinado por mais uma interrupção de enfermeiro preocupado com outros pacientes, poderia receitar Azitromicina exatamente assim, pensando na dose da Amoxicilina, por exemplo. E, se por um lado precisamos mostrar as fragilidades desse programa eleitoreiro do MS, não será tratando os erros associados aos cuidados em saúde desta forma que ajudaremos a consolidar uma nova e necessária cultura, onde atmosfera que reprima os erros humanos mais assertivamente deve prevalecer, para avanços reais no campo da segurança do paciente.

Não precisamos do argentino, ou de médico cubano, para saber que quase 1 em cada 20 hospitalizações pode ser atribuída a problemas com medicamentos, muitos deles evitáveis. Basta ir ao Pubmed: Winterstein AG, Sauer BC, Hepler CD, et al. Preventable drug-related hospital admissions. Ann Pharmacother 2002;36:1238?1248.

Quando um grande grupo de pacientes ambulatoriais que tomava uma variedade de medicamentos foi acompanhado por três meses, cerca de 1 em 4 sofreu um evento adverso relacionado a medicamento, muitos deles graves. Gandhi TK, Weingart SN, Borus J, et al. Adverse drug events in ambulatory care. N Engl J Med 2003;348:1556?1564.

O custo anual dos erros de medicação nos EUA é de bilhões de dólares: Preventing Medication Errors: A $21 Billion Opportunity. Washington, DC: National Priorities Partnership and National Quality Forum; December 2010.

Apesar de muitas discussões sobre este tipo de erro focarem na famosa ilegibilidade da caligrafia dos médicos, estudos têm mostrado que nossa escrita não é pior do que a de muitos outros profissionais, e que a caligrafia ruim não é a causa mais comum de erros de medicação. Na verdade, muitas etapas ao longo da prescrição e da administração do medicamento são vulneráveis a erros. Não precisamos de médico estrangeiro para saber que há um desafio lançado!

Corre ainda a informação de que o paciente sequer precisaria de antibiótico. Seu diagnóstico seria embolia pulmonar, e não pneumonia, cujo tratamento é outro. Alegado ?erro diagnóstico?!

Como já escreveu Bob Wachter, à primeira vista, os erros de diagnóstico parecem representar imperícia pura. E é verdade que, talvez mais do que em qualquer outra área da segurança do paciente, a formação e as competências são de fundamental importância. Mas sequer neste capítulo a coisa é tão simples. De acordo com a compreensão moderna, existem correções do sistema que podem diminuir a frequência e as consequências destes erros que, infelizmente, acometem também bons e zelosos profissionais, que podem pegar atalhos cognitivos, estimulados por esta cultura que previamente critiquei e que premia a aparência de certeza, quando não a arrogância e a prepotência. Para quem tiver interesse adicional no tema, deixo aqui sugestão de leitura complementar bastante atual:

Diagnostic Errors: Central to Patient Safety, Yet Still In the Periphery of Safety?s Radar Screen

Mas para me deixar em situação de total ambiguidade, justificando toda e qualquer reação do coletivo médico brasileiro, o colega do Mais Médicos respondeu assim: ?era um paciente complicado, que aparentava não tomar medicação. Me excedi na dose, mas foi pelas características do paciente. Era a única opção que tinha?. Leia aqui.

Onde esta história toda vai parar???

É simplória, quando não sectária, a defesa das partes nestes debate. Entretanto, difícil todos não agirem assim quando um grupo larga tão mal. E se segurança do paciente (a verdadeira ciência por traz desta expressão, não o discurso ou o jogo para as massas apenas) deve ser o requinte da boa assistência, e há um lado maquiando o que no extremo aposto acontece, quando não atrapalhando, talvez realmente esta nova cultura precise aguardar um tempo para chegar, enquanto asseguramos necessidades básicas aos usuários de nosso sistema de saúde.

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