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O Médico Cansado

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Neste ano fiz 25 anos de formado. Na festa da turma, menos de 40% dos colegas estavam presentes. Todos ao redor dos 50 anos de idade. Além da euforia de rever os amigos de estudo, festa, alegrias e tristezas, me chamou atenção o grau de desgaste que se encontravam os colegas médicos. Não foi nem um nem dois, mas a maioria estava cansada da profissão. E muitos já nem mais faziam plantão. Boa parte já estava com as atividades mais ?elitizadas?: só no consultório ou no hospital, nos horários definidos por eles e ganhando razoavelmente bem. Quase todos estáveis financeiramente, filhos em Universidades particulares, duas ou três casas, carros do ano, pelo menos duas viagens internacionais ao ano… e aí por diante. Olhando para trás este era o sonho de qualquer acadêmico de medicina.

Mas por que profissionais de sucesso com 25 anos de formados, muitos ainda nem atingiram os 50 anos de idade, já estavam cansados da profissão?

Nas muitas viagens que faço, participo de reuniões com médicos nos mais diversos estabelecimentos. Percebi que a realidade descrita não era somente da minha turma de 86.

Atrevo a dizer que este fato mereceria uma análise mais aprofundada, quem sabe até um estudo acadêmico feito por profissionais que entendam de psicologia, antropologia, ou outras áreas correlatas.

Trazendo à realidade do trabalho que tenho desenvolvido nos últimos anos, que é avaliação de desempenho em saúde e implantação de programas de pagamento por performance, ousaria a dizer que o sistema que criamos é um dos grandes, se não o principal, responsável por isso. Um sistema massacrante que estimula a superprodução de serviços. No modelo de remuneração por procedimento, quanto maior a produção maior é o ganho. Independente do grau de altruísmo do profissional, em um sistema deste, há o inevitável estímulo a superprodução e ao trabalho excessivo o qual, muitas vezes, ultrapassa as 14 horas diárias! Nós dizemos para nós mesmo: ?o meu ganho está diretamente ligado ao volume de trabalho que faço, portanto vamos trabalhar o máximo que der?. Por outro lado, os médicos assalariados também buscam volume, não de consultas, mas de empregos. Não conseguem ficar com um emprego só, até por que o contrato de trabalho do médico é de 4 horas e se paga muito pouco. Tanto um modelo como outro, invariavelmente, leva ao desgaste físico e emocional, embora o modelo de remuneração por procedimento seja muito mais desgastante apesar de compensador em termos financeiros.

E é este desgaste que tenho visto nos olhos e nas atitudes de muitos colegas.

O ganho do médico atualmente está vergonhoso, sequer acompanha a inflação. Mas já é sabido o efeito perverso disso para todos: médicos, pacientes e sistema de saúde. Vários estudos comprovaram que o
congelamento de honorários médicos num sistema de remuneração fee-for-service levaram a um aumento da produção e da complexidade dos serviços e isso compromete sobremaneira a qualidade e o custo da assistência (HOLAHAN, 1979; LABELLE, 1990; KRISTIANSEN, 1993;
ROBINSON, 2001; RICE, 2006; dentre muitos outros).

No entanto, o que mais me preocupa é que o centro das discussões dos movimentos médicos está na melhoria do valor da consulta ou dos procedimentos, de poder receber a reconsulta em menos de 30 dias, etc. Não se discute uma reforma radical no sistema de remuneração levando em conta a qualidade (resultados) e a adequação (eficiência) do sistema de saúde. O maior desafio para uma reforma desta envergadura está na quebra do paradigma atual. Ninguém quer sair do falso conforto do status quo. Outros desafios para uma mudança radical foi abordado no artigo anterior deste Blog.

Não defendo que o Pagamento por Performance seja a panacéia, mas é um primeiro passo. O problema é maior do que isso. Defendo uma mudança radical da remuneração do médico levando em conta múltiplos fatores, mas tendo como centro a melhoria da qualidade da assistência ao paciente, que é a razão de nossa existência. Somente o aumento do valor da consulta ou do procedimento não resolve o problema. Existem inúmeros exemplos práticos no mundo todo que isso apenas agravou o problema.

Novamente ousaria a afirmar que sem reformar o sistema de remuneração médica, veremos, a cada dia, mais excelentes médicos cansados e desgastados, deixando de lado a profissão que um dia foi o seu ideal.

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