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O Ato Médico e os médicos hospitalistas

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Minha posição sobre ato médico é semelhante a da maioria de meus colegas. Mas quero atrever-me a refletir um pouquinho fora da caixa.

Percebe-se no Brasil programas de Medicina Hospitalar – MH onde o core da atividade do hospitalista é ofuscado em demasia pelo que os norte-americanos tratam como add-on services (leia mais sobre isto aqui). É bastante comum que o principal da remuneração do hospitalista brasileiro venha destes serviços complementares, o que por si só explica em parte o fenômeno anterior.

Em programa que ajudei a modelar, havia um Time de Resposta Rápida (TRR) como add-on service. Buscou-se ser fiel a base teórica de TRR’s (o que minimiza fragmentação do cuidado e suas nefastas conseqüências – entenda melhor a importância aqui), protegendo tempo do hospitalista para mais e melhor atuar em seus pacientes próprios e co-manejos. Desta forma, foi possível produzir tanto um Time de Resposta Rápido quanto um programa de MH bastante produtivos e eficientes.

Mas em hospitais privados brasileiros, por circunstâncias diversas, estes TRR’s têm se transformado em um mix de outras coisas. Em um plantão de conveniência para o hospital (seus gestores e enfermeiros), de conveniência para médicos principalmente de subespecialidades tidas como lucrativas – visitantes especiais, e muito pouco focado nos pacientes propriamente ditos. E o trabalho do hospitalista transforma-se em roubada de carreira!

Onde entra o Ato Médico?

Umas das tantas funções pouco nobres delegadas a “médicos hospitalistas” é a transcrição inegociável de ordens de médicos assistentes à distância, não infrequentemente de medicações sintomáticas que naturalmente já deveriam constar (alguma opção ao menos – quem está num pós-operatório qualquer costuma ter dor, não?). Quando pedem para o “hospitalista” justamente o que seria sua última escolha, que grande chateação. Vivenciei recentemente um hospital onde o trabalho absolutamente importante de hospitalistas foi simplesmente engolido por tarefas desta natureza.

Quando estes sintomáticos são do tipo que as pessoas em geral compram em farmácias sem receita ou qualquer regulação, quero entender por que não podem constar em protocolo institucional e serem prescritos por enfermeiros? Alternativa seria através de tele-medicina, vista ainda como assombração pelo Conselho Federal de Medicina. Preferimos promoção de downgrades de Drs Bobos:

Em conversa recente, um gestor questionou-me porquê entre si hospitalistas ajudam uns aos outros, mas não querem fazer o mesmo “para o restante do corpo clínico”. Por não vivenciarem a prática, não enxergam a enorme diferença disto no varejo e no âmbito específico de uma equipe parceira e coesa onde permite-se questionar, divergir e até mesmo dizer não.

Houve quem insistisse com meu grupo dar alta para pacientes cujos médicos resolviam não vir “só para isto”. Argumentei, mostrei texto Parem de banalizar a alta hospitalar, sugeri como leitura complementar as referências. Percebi que não se convenceu (nem leu o texto, muito menos as referências), mas há coisas que não abro mão. Até acredito que outras situações criticadas aqui podem representar, no máximo, 15% do tempo de dedicação do hospitalista. Mais do que isto, compromete a ideia como uma carreira sustentável.

Há sim espaços onde deve ocorrer maior flexibilização no debate sobre prerrogativas profissionais. Não significa que eu acredite ser isto fácil de colocar em prática, sem riscos, já que tem sido pautado por radicais de ambos os lados, como tantos outros da atualidade. Preocupa-me mais, naturalmente, os do outro lado.

É uma questão para reflexão especialmente de médicos generalistas ou de especialidades (ainda) menos prestigiadas pelo mercado, na medida em que está altamente implicada com a epidemia de burnout que parece ser maior nestas populações, além de compor a evidente nuvem escura que tem sujado a imagem da MH entre potenciais candidatos a hospitalistas, tal como historicamente já acontece com intensivistas e emergencistas.

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