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Tratamento do mal de Chagas abre novas perspectivas para o uso de células-tronco

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Acaba de ser publicada, na edição de fevereiro da revista American Journal of Patology, a pesquisa que deu origem ao tratamento inédito com células-tronco que já recuperou 14 pacientes em fase avançada de comprometimento cardíaco devido ao mal de Chagas, informa a assessoria de imprensa da Fiocruz. A pesquisa, que em dezembro de 2003 recebeu o Prêmio Zerbini de Cardiologia concedido pelo Instituto do Coração (Incor), foi coordenada pelo imunologista Ricardo Ribeiro dos Santos, pesquisador do Centro de Pesquisas Gonçalo Muniz (CPqGM), unidade da Fiocruz na Bahia, e coordenador do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual, que reúne centenas de cientistas brasileiros para o estudo das células-tronco. A pesquisa não só originou o tratamento pioneiro desta doença endêmica no País como ampliou o debate sobre o conceito das células-tronco, que além de capazes de se transformar em qualquer tipo de célula, como é tradicionalmente aceito, poderiam também se fundir a células doentes, contribuindo para a cura de enfermidades.
O mal de Chagas, causado pelo protozoário Tripanosoma cruzi e transmitido pelo inseto conhecido como barbeiro, atinge 6 milhões de brasileiros e mais de 16 milhões de pessoas na América Latina. Em 30% dos casos a doença evolui para um quadro de fibrose e inflamação do coração, processo que uma vez iniciado geralmente evolui para óbito em até dez anos. O tratamento com células-tronco desenvolvido pela equipe de Santos foi capaz de reverter a inflamação cardíaca e aumentar de forma substancial a qualidade de vida dos pacientes, que até o desenvolvimento do novo método terapêutico tinham no transplante a única esperança de melhora.
A pesquisa recém-publicada testou em camundongos o seguinte procedimento: as células-tronco da medula óssea dos animais foram recolhidas, purificadas em laboratório e injetadas em animais geneticamente idênticos e que tinham a forma crônica da doença de Chagas. Os animais submetidos ao tratamento tiveram redução significativa no número de células inflamatórias no coração e da fibrose do órgão já nos dois primeiros meses após o transplante. Mesmo os cobaias com danos significativos ao coração apresentaram melhora de 80% em relação aos que não receberam o tratamento. A melhora em estágios avançados da doença se repetiu nos transplantes realizados em humanos.
Na maior parte das pessoas infectadas pelo T. cruzi o mal de Chagas permanece na fase indeterminada, o que significa que a doença não se manifesta porque o próprio organismo promove a morte natural das células inflamatórias em um processo chamado apoptose. Para manter a inflamação das células cardíacas controlada após o transplante de células-tronco, os pacientes recebem sete aplicações do hormônio GCSF, que estimula a migração natural de células-tronco da medula óssea para o coração.
O tratamento com células-tronco tem custo de dez a 20 vezes menor que um transplante e não recorre a imunossupressores, medicamentos usados para evitar a rejeição do órgão transplantado e que, em um paciente chagásico, podem tornar a doença mais aguda. Além disso, a cirurgia de transplante ocorre em poucos hospitais brasileiros – a maioria nos grandes centros urbanos -, aos quais a população chagásica, predominantemente de baixa renda, não tem acesso.

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