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Saúde Pública e Privada: vitimizando um dos culpados

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A sinistralidade média das operadoras de Planos de Saúde já é superior a 87%. Perto de 100% dos provedores de atendimento hospitalar trabalha quase 6 meses do ano só para pagar dividas. A margem líquida dos Centros Médicos vem caindo desde 1998, segundo a USP. O Sistema de Saúde Público Nacional, com raras exceções, é uma massa orgânica de “inválidos” mendigando recursos à beira dos órgãos responsáveis. Até a Fundação Zerbini, um marco de consagrada competência profissional, possui um prejuízo liquido superior a R$ 50 milhões com um patrimônio social negativo já beirando os R$ 80 milhões.
As razões, explicações e “álibis” para esse cenário falimentar vem de todos os lados. Cada membro da Cadeia de Atendimento tem um argumento sólido e, invariavelmente correto, para explicar o caos.
Os agentes de comunicação da sociedade, seja a imprensa, as associações de classe, os consultores, economistas e estudiosos quase que em unanimidade elegeram uma vitima inequívoca: o usuário do sistema de saúde.
Pobre usuário. Isolado, indefeso, oprimido e vulnerável, ele é um alvo ideal. Vitimizado, rende votos, manchetes, vende jornal e justifica de certa forma o caos só pelas suas dimensões (34 milhões só no Sistema Privado).
Mas será que o usuário também não faz parte da “cesta” de culpados desse caos? Será que o problema é de Saúde ou Educação? Será que existe alguma consciência coletiva de que o problema da “minha saúde é meu”?
Será que já informaram à população esclarecida, de forma inequívoca, que a Saúde antes de ser um problema do Estado, ou do Plano de Saúde, ou da Cooperativa … é um problema de cada cidadão?
Certamente que não ouso incluir nessa legião de “vitimas” os milhões de oprimidos que o país tem e terá pelas próximas décadas. Estes não precisam de argumentos, mas de comida, água e proteção.
Todavia, há um vício “embutido” na mente da maioria da classe média, principalmente nos grandes centros, de que basta ter a proteção de um Plano de Saúde e o problema da Saúde está “resolvido”.
Pessoas com declarada formação superior ou com grau de escolaridade médio ignoram o que seja a palavra Prevenção, e transferem para o Estado ou para a Medicina Suplementar os cuidados básicos com a sua saúde.
Basta ter um contrato como garantia e a obesidade, a hipertensão, o sedentarismo, o stress, o fumo, a droga, a má alimentação, a insalubridade ou qualquer outro vetor conectado à doença, passa a ser um problema da… “carteirinha”.
É justo pensar que alguém semi-analfabeto ignore os mais elementares conceitos sobre cuidados sanitários. Também é legitimo pensar que grande parte da população que vive com menos de um salário mínimo desconheça que 60% das crianças obesas, entre 5 e 10 anos, têm pelo menos um fator de risco adicional de doença cardiovascular, como hipertensão, níveis elevados de insulina ou glicose, ou níveis elevados de lipídio.
Mas num mundo em que a informação é barata e acessível, é intolerável imaginar que um pai de família, com carro do ano, 5 refeições/dia e 2 dois belos filhos desconheça que a obesidade de seu filho provavelmente persistirá na vida adulta, com grandes chances de ser um passaporte para a diabete.
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), mostram que o mercado infantil movimentou perto de R$ 400 milhões em 2004 e vem crescendo numa média de 19% ao ano. Segundo os médicos, o uso de cosméticos por crianças está fazendo crescer consideravelmente o surgimento de alergias, que em casos muito extremos podem ser fatais.
De cada três estudantes matriculados no ensino básico da capital de SP, um tem níveis altos de colesterol no sangue, correndo risco entre moderado e grave de desenvolver a aterosclerose ao crescer. Os grupos que apresentam os piores resultados são: as meninas, criança de pele clara e os estudantes da rede particular de ensino. Dá-lhe carteirinha!
Porque a “Cadeia de Formação”, que começa na família, passa pela escola e vai até a mídia (TV, Internet, etc.) ignora que não há um Sistema de Saúde que suporte tal desleixo educacional?
Os principais países do primeiro mundo já entenderam isso e estão cada vez mais incluindo disciplinas voltadas ao controle alimentar, a prevenção de doenças crônicas e as mínimas condições de higiene desde o primeiro grau escolar.
Existe uma indústria que “fabrica doentes” todos os dias, em larga escala. Os principais responsáveis pela “cadeia de formação”, normalmente os pais, assistem sentados (alguns fumando) a essa catarse, sustentando uma visão míope de que uma “carteirinha” pode aliviar a sua consciência.
Não existe Modelo de Saúde que suporte essa avalanche de ignorância. Ou a sociedade entende definitivamente que Saúde Pública passa necessariamente por Educação Pública, ou vamos continuar inventando “moinhos de vento” para lutar e aliviar nossa ignorância.

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