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Pesquisa aponta ineficácia no programa de controle do dengue

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Priorizar o uso de produtos químicos em vez de desenvolver ações de manejo e de educação ambiental de caráter coletivo não surtiu efeito para a redução dos casos de dengue notificados no município pernambucano de Glória do Goitá, embora o modelo de controle do dengue adotado estivesse de acordo com as diretrizes do Governo Federal. Localizada na Zona da Mata, a cidade apresentou 352 casos notificados de 1997 a 2000, período em que ficou em vigor a estratégia de erradicação do mosquito transmissor da doença, pelo Ministério da Saúde (MS), informa a assessoria de imprensa da Fiocruz. Apesar do uso do larvicida químico (temefós) no controle do vetor, houve aumento do número de casos de dengue, com surtos epidêmicos nos quatro anos do programa. Os dados fazem parte de um estudo desenvolvido no Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CPqAM), unidade da Fiocruz no Recife, que ganhou menção honrosa no Prêmio de Incentivo em Ciência e Tecnologia para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Para a autora da pesquisa, Solange Laurentino, isso demonstra a baixa efetividade do modelo, por fazer o controle do mosquito com o uso de produtos químicos e minimizar a importância de outras ações, como controle de focos por meio mecânico, participação comunitária, educação continuada e vigilância epidemiológica.
Outra falha detectada foi de o programa ter um modelo de planejamento vertical, impondo uma receita única para os municípios em todas as situações de transmissão da doença, desconsiderando as peculiaridades de cada cidade. “Não se pode pensar um programa para uma doença para todo o país, sem haver uma discussão em nível local”, critica. Além disso, Solange apontou que o programa é paternalista e omisso quanto às responsabilidades do poder público, frente aos riscos à saúde relacionados ao uso de químicos. “Há um ocultação dos riscos à saúde provocados por esses produtos de controle de larvas e do inseto adulto. A população acredita que o pó colocado na água de consumo é remédio para tratar, por ser posto pelo órgão responsável pela saúde pública do seu município”, afirma.
No estudo, feito na sede do município – constituída por 11 setores censitários, com 2.604 domicílios, o que corresponde a 38,4% da população local – revelou-se que a dengue é uma doença conhecida por 95% dos habitantes e que eles não consideram o domicílio como o principal foco dos criadouros do Aedes aegypti, mosquito transmissor do vírus. A população disse conhecer a necessidade de tampar os reservatórios de água e de acondicionar adequadamente o lixo para a coleta. Apesar disso, o sistema de informação de Febre Amarela e Dengue (FAD), no ano de 1999, confirmou que 95% dos imóveis com focos de dengue foram residências e, nesses locais, 96% dos criadouros estavam em tambores, tanques, barris, tonéis e 5% em caixa d’água.
A grande quantidade dos criadouros do mosquito observada no município tem como causa principal a prática generalizada de armazenamento de água devido à intermitência no seu fornecimento que atinge 96% das casas. O Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que a proporção de domicílios atendidos por rede geral de abastecimento de água na sede no município é de 89,7%, havendo ainda 269 casas com abastecimento inadequado de água, sem conexão com a rede geral de abastecimento público. Para a autora, o dado não reflete a real situação do problema de falta d’água da comunidade, em relação ao fornecimento diário, que é precário na qualidade.
Sobre a coleta de lixo, constatou-se que é feita em 93% das habitações. As demais jogam os dejetos em terrenos baldios ou realizam a queima do material. Mesmo diante das condições favoráveis para o aparecimento da doença representadas pela baixa cobertura de abastecimento de água e deficiência da coleta de lixo, as ações educativas e de limpeza no município também foram esporádicas de 1997 a 2000.
Como sugestão para evitar um tratamento com baixa efetividade, Solange sugere, em seu trabalho, a reformulação do Programa de Controle do Dengue, rompendo com o modelo químico dependente e priorizando as ações de manejo ambiental. Ela também recomendou que fosse feita uma vigilância entomológica (do mosquito) integrada à vigilância ambiental com investigação dos focos de transmissão, antecedendo aos surtos. Além disso, que fossem incluídas no programa um projeto de educação popular com pedagogias próprias em cada localidade e a adoção do princípio da precaução na questão relacionada ao uso de inseticidas nos ambientes.

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