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Paul Krugman: Por quê o Medicare americano deve ser defendido ?

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Paul Krugman, um dos mais respeitados economistas americanos, faz uma interessante ponderação neste artigo sobre as economias representadas pelo Medicare, programa que beneficia os americanos acima de 65 anos nos Estados Unidos. Tendo seus custos com menor elevação do que aos seguros tradicionais, o Medicare é um arremedo do que deveria ser um Sistema Universal de Saúde para os americanos, sistema este que por interesses político-econômicos não consegue aprovação. Para muitos americanos, o conceito de um sistema universal de saúde soa como uma heresia, enquanto outros sofrem sem assistência médica alguma.

Atenciosamente,

Fernando Cembranelli

Equipe EmpreenderSaúde

Medicare permite economizar dinheiro

DE SÃO PAULO

Com alguma frequência, um político aparece com uma ideia tão ruim, tão errada, que é quase preciso agradecer. Pois ideias realmente ruins podem ajudar a ilustrar até que ponto o debate político saiu dos trilhos.

E foi isso que aconteceu com a proposta divulgada pelo senador norte-americano Joseph Lieberman na semana passada, para elevar de 65 para 67 anos a elegibilidade para o programa de saúde federal Medicare.

Como os republicanos que desejam acabar com o Medicare em sua forma atual e substitui-lo por vales-saúde (de valor grotescamente inadequado), Lieberman descreveu sua proposta como forma de salvar o Medicare. Mas a ideia na verdade não teria esse efeito. E o que realmente importa, de qualquer forma, é que “salvar o Medicare”, o que quer que isso signifique, não deveria ser o nosso objetivo. Na verdade, a meta é garantir que os norte-americanos recebam os cuidados de saúde de que precisam, a um custo que o país possa bancar.

Eis o que é preciso saber: o Medicare na verdade economiza dinheiro -e muito dinheiro- se comparado ao custo das operadoras privadas de planos de saúde. E isso por sua vez significa que excluir pessoas do Medicare, além de privar muitos norte-americanos dos cuidados de saúde de que necessitam, quase certamente resultaria em elevação dos custos de saúde.

A ideia do Medicare como programa que economiza dinheiro pode ser difícil de aceitar. Afinal, os gastos com o Medicare não subiram dramaticamente ao longo do tempo? Sim, subiram: considerada a inflação do período, os gastos do Medicare por beneficiário subiram em mais de 400% entre 1969 e 2009.

Mas os custos dos planos de saúde privados, também considerada a inflação, subiram em mais de 700% no mesmo período. Portanto, embora seja verdade que o Medicare não realizou o trabalho necessário de controle de custos, o setor privado se saiu muito pior. E caso neguemos o Medicare às pessoas de 65 e 66 anos de idade, as forçaremos a bancar planos privados de saúde -se puderem-, e eles custarão muito mais do que se os serviços equivalentes fossem fornecidos pelo Medicare.

Aliás, dispomos de provas diretas dos custos mais elevados dos planos privados de saúde, por meio do programa Medicare Advantage, que permite que beneficiários do Medicare obtenham cobertura junto ao setor privado. A ideia era que isso propiciasse economia de custos; na verdade, o programa custa aos contribuintes substancialmente mais por beneficiário que o Medicare tradicional.

E dispomos também de indícios internacionais. Os Estados Unidos têm o sistema de saúde mais privatizado entre os países avançados. Também oferecem, de longe, a saúde mais cara, sem que isso represente vantagem clara de qualidade, apesar de todos esses gastos. A saúde é uma área na qual o setor público consistentemente faz um trabalho melhor que o privado, no controle de custos.

De fato, como aponta o economista Bruce Bartlett, que foi assessor do presidente Reagan, os elevados gastos privados de saúde dos Estados Unidos, comparados aos dos demais países avançados, praticamente cancelam quaisquer benefícios que pudéssemos auferir de nossa carga tributária relativamente baixa. Assim, qual é a vantagem de excluir os idosos de um sistema admitidamente caro, o Medicare, e forçá-los a recorrer a planos privados de saúde ainda mais caros?

Espere: as coisas ficam ainda piores. Nem todos os norte-americanos de 65 e 66 anos que perderiam acesso ao Medicare seriam capazes de bancar planos privados de saúde. O que esses idosos poderiam fazer?

Bem, como documentam os economistas Austin Frakt e Aaron Carroll, especialistas em saúde, no momento os norte-americanos de pouco mais de 60 anos e desprovidos de planos de saúde costumam adiar os tratamentos necessários, e com isso se tornam beneficiários de custo muito elevado para o Medicare quando chegam aos 65 anos. O padrão seria ainda mais forte e destrutivo se a idade para acesso ao Medicare fosse elevada. Como resultado, sugerem Frakt e Carroll, os gastos do Medicare poderiam subir, e não cair, se a proposta de Lieberman for adotada.

Bem, e quanto à pergunta óbvia: se o Medicare é tão bom, porque o pacote de reforma da saúde simplesmente não expandiu sua cobertura a todos os norte-americanos? A resposta, claro, está na ação dos grupos de interesses políticos. Em termos realistas, dado o poder do setor de planos de saúde, estender o Medicare a todos os cidadãos seria uma ideia impossível de aprovar, e por isso os defensores de um sistema de saúde universal, entre os quais me incluo, se dispuseram a aceitar menos que o ideal. Mas a verdade é que, se parecia necessário politicamente aceitar uma solução menos que ideal para os norte-americanos mais jovens, isso não significa que tenhamos de desmantelar o sistema muito mais eficiente de que já dispomos para as pessoas com mais de 65 anos.

Nada do estou afirmando, é claro, deveria ser tomado como razão para complacência sobre a alta nos custos da saúde. Tanto o Medicare quanto os planos privados de saúde serão insustentáveis a menos que haja esforços sérios de controle de custos -do tipo prescrito no pacote de reformas da saúde e descrito pelos republicanos demagogos como “painéis da morte”.

O ponto, porém, é que privatizar os cuidados de saúde dos idosos -e é isso que Lieberman propõe na prática, e que também serve de peça central ao plano republicano para o Medicare- na verdade prejudica e não beneficia a causa do controle de custos. Se realmente desejamos controlar os custos, deveríamos oferecer o Medicare ao maior número possível de norte-americanos.

TRADUÇÃO DE PAULO MIGLIACCI

Paul KrugmanPaul Krugman, 57 anos, é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do “The New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos publicados em jornais especializados.Fonte: Folha On-Line, 14/06/11
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