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Opinião: Greve, responsabilidade e cidadania

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É pública e notória a necessidade de investimentos nas áreas sociais do Brasil. Precisamos de mais recursos para a educação, saúde, segurança e habitação. É fundamental ter verbas para reverter imediatamente o nosso pífio índice de desenvolvimento humano e as graves diferenças sociais – uma das maiores do mundo, o que muito nos envergonha e entristece.
São incontáveis os problemas do país. Daí a importância de fazer prevalecer a cidadania, de exercer o direito do voto escolhendo candidatos comprometidos com as necessidades da população, com a inclusão social, a saúde e a educação.
O problema é que está difícil garantir serviços sociais de qualidade à população com as limitações econômicas amplamente divulgadas, apesar dos impostos exorbitantes e do engodo da CPMF. É preciso inverter prioridades e colocar dinheiro no que realmente importa: em políticas que garantam dias melhores para os cidadãos. É imperioso valorizar e qualificar os recursos humanos.
Professores, médicos, demais categorias de profissionais de saúde, policiais e suas instituições necessitam de atenção e estímulo. Como pode, por exemplo, um homem deixar seus filhos e família em casa para nos defender do crime, ganhando um salário insuficiente para pagar as contas mais básicas a cada mês? E, da mesma forma, nós, profissionais que cuidamos da saúde das pessoas.
O descaso das autoridades com os recursos humanos gera resultados já conhecidos: na educação, má formação e alunos desmotivados, que não aprendem; a saúde é pouco resolutiva, com desperdícios e assim por diante.
Está mais do que na hora de entender que valorizar o cidadão é o primeiro grande passo para transformar o Brasil numa nação de verdade. É até uma questão de ética investir no social para mudar a atual situação.
Sofremos na pele, como médicos, a incompetência gerencial. A visão de vários gestores, particularmente nas áreas de comando, é curta e pobre, pois optam pela não valoração adequada do médico e outros profissionais de saúde. Mas, felizmente, existem exceções no nosso meio.
Resta-nos, freqüentemente, recorrer a múltiplos empregos e assim acabarmos desgastados, cansados, sem a necessária atualização e, obviamente, com pouca resolutividade. Essa insatisfação, tanto dos profissionais como da população, forma um ciclo vicioso e trágico.
Recentemente, observamos a greve dos médicos na região nordeste. Eles denunciaram os honorários vis na saúde pública e a incrível falta de recursos adequados para o atendimento. Não tendo retorno às suas incessantes reclamações, viram-se obrigados, em última instância, a se demitirem dos cargos públicos. Levantou-se todo o tipo de questão em relação à coerência do movimento.
Não queremos, da mesma maneira que os médicos do nordeste não querem, trazer prejuízo algum à população. Infelizmente, as filas só aumentam, em que pese o SUS ser uma excelente proposta que deve ser respaldada com financiamento coerente às suas intenções de eqüidade, universalidade, integralidade e controle social. 
Greve é recurso para a última instância, mas, às vezes, tem de ser usada para que o país acorde para a necessidade de priorizar a saúde e, portanto, qualificar e valorizar os profissionais das áreas sociais. A polêmica de cooperativa ou qualquer tipo de vínculo associativo entre os profissionais só existe porque o atual contexto não funciona e acaba por prejudicar a nós, e também aos pacientes.
Nos últimos tempos, falou-se bastante sobre a forma de organização dos médicos brasileiros. Talvez, querendo imputar às cooperativas a responsabilidade pelas greves. Um absurdo. Temos de deixar de tapar o sol com a peneira e aprofundar o debate de pontos-chave para reflexão sobre os problemas do sistema e como solucioná-los. É importante ressaltar que muitos médicos optaram por se organizar em cooperativas, pressionados a adotar o papel de pessoa jurídica por planos de saúde que pretendem reduzir custos com tributação e eventuais vínculos empregatícios. Também se deve frisar que esse tipo de mudança organizacional é reflexo do “Apagão da Saúde” que vivemos no Brasil. Existe carência de financiamento, má gestão, má remuneração e falta de adequada sustentação aos recursos humanos, sejam para médicos ou outros profissionais de saúde. Além disso, não há uma política de capacitação profissional, nem reciclagem de tecnologia. Por outro lado, abrem-se faculdades de medicina sem necessidade social ou critérios mínimos para tal. Não podemos analisar um aspecto do sistema sem o interligar com os demais.
Só teremos uma saúde digna quando toda a engrenagem tiver recursos e os investimentos necessários. Absolutamente, não podemos aceitar dois tipos de medicina, uma para os ricos e outra para os pobres. Não podemos jamais permitir o conceito de que trabalhar no serviço público seja inferior e, portanto, urge um Plano de Carreira, Cargos e Salários (PCCS) coerente para o médico e a saúde. Afinal de contas, quanto vale socialmente um médico e o seu trabalho em prol dos pacientes? Ou podemos achar que atualmente algum profissional de saúde pode trabalhar apenas como filantropo?  É lógico que devemos ter muita sensibilidade social, e temos porque, caso contrário, não estaríamos trabalhando em área tão desgastante.
Indiscutivelmente, a engrenagem da saúde pode e deve ser revista. Para tanto, é necessário coragem dos governantes e de nossos pares. Se assim agirmos, com certeza, como já vimos outras vezes, caminharemos com eficácia para reverter esse quadro sombrio. Será um incrível exercício de cidadania, evitando, assim, o apagão da saúde.
*Jorge Carlos Machado Curi, presidente da Associação Paulista de Medicina

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