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OPINIÃO: Amil – Uma vida que dá um filme

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A vida de Edson de Godoy Bueno, fundador e principal acionista da Amil, é um roteiro pronto para filme ou minissérie. Ele mesmo não se cansa de contá-la a interlocutores, em discursos e palestras, em filmes institucionais que apresenta para os 18 mil funcionários dos muitos empreendimentos que tem na área da saúde. Não é por bazófia, mas como testemunho de que as limitações impostas pela vida, por mais intransponíveis que pareçam, podem ser vencidas, e que o destino de cada um, em grande parte, pode ser programado. Nada de milagre, mas sonho e certeza.

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Do escritório montado em seu vasto apartamento paulista, com todo o equipamento necessário até para teleconferência, num ambiente elegante e confortável decorado por sua mulher, Solange Medina, Bueno vai contando sobre a vida e o trabalho, no seu caso praticamente uma coisa só. Do garoto muito pobre, nascido e criado em Guarantã, no interior de São Paulo, e que hoje enche salões em São Paulo e Rio com os mais importantes empresários do Brasil, todos vestidos a rigor, para festejar sua trajetória. E na fórmula que ele acredita infalível: programação de longo prazo, visão estratégica, investimento na formação de um time. E muito, mas muito trabalho.

Em 2008, a Amil comemora 30 anos de fundação e um ano de IPO. A Amil é um sucesso reconhecido e festejado. Mas e a entrada na Bolsa? Arrependido desta decisão, como parecem alguns empresários no meio desta crise? “De jeito nenhum. Eu sou coração e esses caras são razão. Eu preciso disso. Eles fazem eu andar mais depressa. Achava que iria trabalhar menos, mas estou trabalhando muito mais. Eu gosto disso”, garante o empresário, sinceramente satisfeito.

Edson de Godoy Bueno fez toda a sua fortuna no Rio. Mas, aos poucos, está ficando mais tempo em São Paulo. A sede da Amil já veio, há alguns anos, para Alphaville, onde ocupa um prédio de 9 mil metros quadrados, com 600 funcionários. Nem 10% de todos os funcionários da Amilpar. E Edson, dono também de vários hospitais na capital paulista, todos adquiridos nos últimos anos, passa agora de três a quatro dias úteis por aqui. “Antes era tudo um grupo só. Agora, com o IPO, fica separado o que é Amil dos demais empreendimentos. Que também não estão reunidos num grupo. Cada hospital é uma empresa”, conta Bueno. Dois destes hospitais estão sendo construídos agora, com todas as bacanezas contemporâneas. Os demais estão sendo reformados aos poucos. O escritório de Solange Medina é responsável pelos interiores de todos eles. “Tenho, no momento, 200 mil metros quadrados de obras”, diz o empresário.

Esse ritmo frenético parece estar no DNA do grupo. Desde o começo: “Comprei o primeiro hospital em 1971, em Duque de Caxias, no Grande Rio, onde o grupo nasceu. Eu trabalhava no hospital como residente. Via que o hospital estava quebrado porque a gestão era toda errada. Assinei um monte de promissórias e o comprei, com um grupo de médicos jovens. Eu era tão pobre que você nem acredita”, diz Bueno. É claro que foi preciso coragem para dar um passo deste tamanho: “É coragem, mas é relativa. Eu tinha um sonho, e a certeza de que ia dar certo. Sabia tudo o que estava errado e o que tinha de ser arrumado. Era uma questão de gestão”, explica ele. Deu tão certo que no ano seguinte o grupo comprou outro hospital e, em 1974, mais um. “Depois de cinco anos tínhamos 70% do mercado de Caxias. Uma das razões do nosso sucesso é que resolvemos segmentar para poder oferecer mais qualidade. Um hospital era maternidade, outro era de pediatria, outro atendia adultos”, conta Bueno.

Edson de Godoy Bueno vai contando a vida, e a gente vai vendo que, desde o começo, há uma visão empresarial. “Meu padrasto tinha um caminhão, que ele pagava a prestação. Eu o ajudava a carregar tijolo, a pior mercadoria que tem para se trabalhar, porque aquele pó vai entrando na gente por todos os poros. Era um trabalho duro. Mas quando ele conseguiu pagar o caminhão, relaxou. E eu achava que ele tinha de comprar logo o segundo, e depois o terceiro, porque em escala fica melhor de trabalhar, mas ele não via assim.” Antes disso, bem mais jovem, para ajudar em casa, ele engraxava sapatos. Tem a caixa de engraxate guardada até hoje, e até a mostra num de seus filmes institucionais. Mas percebeu que, se usasse um pouco da influência das relações familiares, conseguiria um nicho de mercado. Apresentou-se nas casas de algumas pessoas, e passou a fazer o serviço em domicílio, em vez de disputar o passante na praça, com os demais engraxates. E já era bom de números. Nas férias, dava aulas de matemática para os que tinham ficado de segunda época.

Uma conversa com Bueno é cheia destas histórias. Sendo que, hoje, ele fala de um confortável sofá, num 31º andar com a melhor vista de São Paulo, ou numa mesa de almoço impecável, servida por copeiro. Por exemplo: “Em casa nunca teve refrigerante. Quando eu conseguia uma Coca-Cola, eu fazia um furinho na tampinha, chacoalhava e ia tomando devagar. No começo era só espuma. Aquilo podia durar uma semana. Por isso, quando abrimos a primeira maternidade, eu coloquei lá uma máquina de Coca- Cola, e dava uma para quem vinha fazer exame pré-natal. Tinha fila para fazer o exame, só por causa da Coca-Cola”, conta ele, divertido.

Mas a melhor das histórias é aquela que o fez escolher a profissão de médico. No começo da adolescência, ele teve um desmaio. E foi levado para a casa do dr. Moacir, o médico da cidade, que tinha uma bela casa na praça. Quando acordou, estava nos braços deste salvador, um homem de jaleco branco mostrando segurança no que fazia. “Eu quero ser como esse cara aí”, decidiu Bueno naquele momento. Para isso, voltou a se dedicar aos estudos, que estavam atrasados quatro anos, e depois se mudou para o Rio, sem praticamente dinheiro nenhum, para fazer o vestibular na UFRJ, naquele tempo ainda na Praia Vermelha, porque era lá que o dr. Moacir tinha estudado. Deu certo.

Ao falar de sua formação, ele sempre lembra o esforço de sua mãe, semi-analfabeta, mas que não desistiu dele, mesmo quando ele empacou nos estudos. Queria o filho estudado e insistiu. Talvez venha daí o empenho que Bueno e sua empresa têm na formação de equipes. “Esse é o diferencial da Amil. Os headhunters vêm procurar nossos funcionários, oferecem o dobro, mas ninguém quer sair. Ninguém faz nada sozinho. Uma estrela não faz uma constelação. Eu só acredito em time. É preciso reconhecer os talentos e desenvolvê-los. É como um toque de magia. Cada pessoa que passa pela minha vida tem de ficar melhor”, garante Bueno. “E é preciso também reconhecer logo aquilo em que a gente não é bom, e delegar. Eu, por exemplo, não sei me vestir. A Solange é que pensa nisso. E quando ela não está, eu pergunto para a empregada se estou bem ou não. Ela é esperta e eu confio nela”, continua ele. Ou, então, é preciso se esforçar muito. “Eu fui para Harvard sem saber uma palavra de inglês. Estudei seis meses, 18 horas por dia. Meu professor brincou que ia virar alcoólatra, tanta a dificuldade que eu tinha. Mas o esforço valeu. Na hora do IPO, fui eu que falei para os empresários americanos”, acrescenta. O recado: saber extrair o melhor de cada um.

Edson de Godoy Bueno acredita em ética e em cordialidade com os competidores. “Eu sou amigo de todos: do Bradesco, da Sul-América, da Golden Cross, da Medial. Ontem estava reunido com o Einstein. Acredito em ética nos negócios. Mas, é claro, se você vai pescar, tem de pegar peixe”, exemplifica.

E a crise, dr. Edson? “Nas horas de crise, não adianta chorar ou desistir. É preciso atitude. Em 2001, quando em nosso ramo parecia que todo mundo ia quebrar, eu saí da defesa para o ataque. Peguei aquele lema dos 30 anos em 5, estabeleci metas, e antes dos cinco anos todas as metas estavam atingidas. Agora é a mesma coisa”, garante ele, seguro e otimista.

As opiniões dos artigos/colunistas aqui publicadas refletem unicamente a posição de seu autor, não caracterizando endosso, recomendação ou favorecimento por parte da IT Mídia ou quaisquer outros envolvidos nesta publicação.

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