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Novo medicamento contra hepatite C aumenta taxa de cura

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A hepatite C é uma doença inflamatória do fígado que atinge cerca de 170 milhões de pessoas no mundo. São 2 milhões apenas no Brasil, onde a maioria dos casos está associada ao genótipo do tipo 1 do vírus, considerado o mais difícil de tratar. Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) investigaram os mecanismos de resistência viral aos medicamentos atualmente disponíveis e a um novo fármaco, em fase de testes nos Estados Unidos, tendo em vista o perfil molecular do vírus predominante no país. Os resultados animam: apontam que apenas uma pequena percentagem dos isolados do vírus da hepatite C no Brasil está associada a resistência de fraca intensidade a medicamentos.
As formas mais comuns de transmissão do vírus da hepatite C (HCV) incluem o uso de agulhas e seringas compartilhadas e a manipulação de materiais contaminados com sangue de indivíduos infectados, que cortem ou perfurem a pele, o que inclui lâminas, bisturis e alicates.
Se não for tratada adequadamente, a hepatite C pode evoluir para um quadro de cirrose e câncer de fígado. Até o momento, não existe vacina para prevenir a infecção e com a terapia disponível atualmente no mercado, resultado da combinação dos medicamentos interferon e ribavirina, menos de 50% dos pacientes com o genótipo 1 do vírus respondem de forma positiva ao tratamento.
Uma nova droga para o tratamento da infecção crônica por genótipo 1 do vírus da hepatite C está em estágio avançado de desenvolvimento clínico nos Estados Unidos. Em testes realizados entre pacientes que não responderam a tratamentos anteriores ou pacientes que nunca foram submetidos à terapia padrão, o novo medicamento ? da classe de antivirais chamada ?inibidores de protease?, que atua em uma fase específica da replicação dos vírus ? aumentou significativamente as taxas de cura quando adicionado ao tratamento regular com interferon e ribavirina.
Os dados mostram que, para o grupo de pacientes medicados com as três drogas, o índice de cura chegou a 75%, enquanto o grupo controle, que recebeu apenas os dois remédios tradicionais, apresentou taxa de 38%.

Olhos para o Brasil
Tendo em vista a especificidade dos casos de hepatite C no país, mais associados ao genótipo 1 do vírus, um estudo pioneiro foi desenvolvido pelo Laboratório de Hepatites Virais do IOC com o objetivo de verificar a presença de mutações de resistência aos novos medicamentos no vírus da hepatite C circulante no Brasil.
Os mecanismos de resistência podem estar relacionados a variações muito sutis que ocorrem naturalmente no decorrer do processo de replicação viral, resultando em pequenas diferenças em trechos do material genético do vírus. A pesquisa analisou, em amostras de pacientes brasileiros, a variabilidade genética de um trecho muito específico do vírus da hepatite C: o domínio da proteína NS3-4A serina.
Os pesquisadores escolheram justamente este trecho do vírus por ser o alvo principal de atuação da droga e mutações específicas nessa região podem estar associadas à redução da sensibilidade aos medicamentos da classe dos inibidores de protease.
De acordo com Elisabeth Lampe, chefe do Laboratório de Hepatites Virais do IOC, analisar a variabilidade natural da região NS3-4 A é extremamente importante para avaliar a presença de variantes com mutações associadas à resistência aos inibidiores de protease, em amostras circulantes no Brasil. O potencial de surgimento de alterações resistentes aos medicamentos. ?O domínio da protease NS3-A desempenha uma função essencial na replicação viral e representa um forte alvo para o desenvolvimento de novos medicamentos contra a infecção pelo vírus da hepatite C?, explicou.
Em busca de mutações
Um total de 114 amostras foi coletado de pacientes com infecção crônica de HCV infectados pelo subtipo 1a (48 amostras), 1b (53 amostras) ou 3a (13 amostras), diagnosticados no Laboratório de Hepatites Virais do IOC. O estudo incluiu pacientes entre 18 e 65 anos, de ambos os sexos e de qualquer etnia. O RNA do vírus foi sequenciado em cada amostra e analisado a fim de observar mutações na região NS3 do genoma do HCV.
?Existem diversos graus de resistência, variando entre forte, moderada e fraca. A posição V36L no trecho NS3 do vírus está vinculada à resistência a inibidores de protease. Os resultados indicam que as mutações encontradas nas amostras analisadas conferem resistência de grau fraco a estes medicamentos e que foram observadas em 5,6% dos pacientes infectados com o genótipo 1b, e a mutação T54S foi detectada em 4,1% dos isolados do genótipo 1a, sintetiza o doutorando do Laboratório de Hepatites Virais Allan Peres, que desenvolve o projeto no Programa de Pós-Graduação em Biologia Parasitária do IOC orientado pela pesquisadora Elisabeth Lampe. Outra notícia positiva: no estudo, não foi observada em nenhuma amostra a variação genética de substituição de resíduos R155 e A156, que conferem níveis de resistência de moderados a alto a drogas inibidoras de protease.
O virologista lembra que os resultados podem ser importantes para auxiliar na definição da melhor estratégia de tratamento da hepatite C em pacientes brasileiros. ?Os resultados indicam que as amostras estudadas são perfeitamente susceptíveis à ação dos novos medicamentos, o que não comprometeria o sucesso da combinação terapêutica em pacientes brasileiros. Algumas dessas drogas (Telaprevir ou Boceprevir, por exemplo) encontram-se em avançado estágio de desenvolvimento clínico. Em um futuro próximo, esses antivirais de atuação direta (DAAs) deverão ser incluídos na terapia antiviral padrão para a hepatite C. No Brasil, essas duas drogas citadas já possuem o pedido de registro na Anvisa?, acrescenta.

As próximas etapas do estudo incluem a análise de pacientes que já foram submetidos ao tratamento tradicional para checar a presença de mutações genéticas no vírus. ?Caso sejam encontradas mutações nos pacientes que já são tratados com a terapia tradicional, será possível desenvolver esquemas terapêuticos diferentes para contornar o problema de um eventual aparecimento de vírus mutante resistente, e então tratar o paciente de forma mais adequada?, conclui Peres.

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