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Mudanças na assistência em Minas Gerais

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Em entrevista ao portal Saúde Business Web, o presidente da Federação das Unimeds de Minas Gerais, Emerson Fidelis, fala sobre um modelo de atenção integrado e a evolução da prática médica para o foco na promoção da saúde, não só para a cura, o que inclui também mudanças na forma de remuneração de profissionais e serviços.

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Saúde Business Web: Como tem sido a implantação de um modelo de atenção com foco em prevenção de doenças nas Unimeds de Minas Gerais?

Emerson Fidelis: Minas Gerais hoje é vanguarda, está na frente no que diz respeito à mudança do modelo de atenção. A mudança de cultura, que muitos consideram complicada, não nos assusta. Sabemos que ela ocorrerá devagar, porque ainda há uma estrutura de saúde conservadora, mas a mudança no modelo de pagamento estimula. Todos vão precisa mudar a forma de atuação, porque a atual está prestes a inviabilizar o modelo do sistema de saúde.

SBW: E como será esta mudança na forma de pagamento? As Unimeds de Minas Gerais deixarão de usar o fee for service para remunerar os serviços? Qual tem sido a reação dos médicos e prestadores de serviços a esta mudança?

Fidelis: Quando se propõe uma mudança estrutural no fundamento do modelo de remuneração, há sempre resistência, mas aos poucos os médicos e hospitais percebem que o pay for performance paga melhor que o fee for service. Antes, falar desta nova forma de pagamento e dizer que os hospitais precisavam focar na promoção da saúde e prevenção de doenças, não só no cuidado de doentes graves, pareceria heresia. Hoje, a mudança já teve inicio. Vejo os centros de promoção à saúde se expandindo até mesmo pelo interior de Minas Gerais.

SBW: Por outro lado, o foco em promoção da saúde, do ponto de vista do negócio, não é tão interessante, já que tira os pacientes do hospital. Como, então, engajar os prestadores de serviços neste novo modelo de atenção? O que os hospitais precisarão fazer para serem sustentáveis neste cenário?

Fidelis: É preciso entender que não existe a possibilidade de as pessoas nunca mais ficarem doentes, a doença não vai desaparecer. O que deve acontecer é uma retração de leitos e uma mudança no hospital. Ficarão apenas os que tiverem boa resolubilidade, será preciso entender que as complicações decorrentes de uma doença são diferentes das decorrentes de problemas estruturais. É inadmissível pagar para o hospital tratar escaras, infecções hospitalares decorrentes de falhas no atendimento ou longos períodos de entubação. O correto é ter estímulo financeiro para o hospital que é eficaz, porque, no fim das contas, quem paga por estas falhas não é nem a operadora, mas o cliente.

SBW: Os hospitais serão remunerados pelo pay-for-performance. E os médicos, como serão estimulados a adotar programas preventivos e de promoção da saúde para seus pacientes?

Fidelis: Os médicos, por exemplo, terão seu desempenho medido por indicadores como as taxas de glicemia, colesterol e pressão arterial. Se o paciente tiver evolução no quadro clínico, for constantemente monitorado e mantiver seus índices sob controle, o risco de complicações será praticamente eliminado e, na Unimed, este profissional terá um prêmio de boa conduta, com um pagamento melhor.

SBW: E como será a relação entre operadora, rede credenciada e médicos? Como eles deverão trabalhar para garantir melhor qualidade de vida aos pacientes?

Fidelis: O cuidado integrado é fundamental para atingir este objetivo de promoção da saúde. Dificilmente o médico ou o hospital vai conseguir fazer o acompanhamento e controle do paciente se não estiver integrado à cadeia de saúde. Para isso, é importante ter uma TI avançada, para transformar a informação em conhecimento. Na Unimed, caminhamos para o prontuário eletrônico. O sistema ainda não está estabelecido, mas está em andamento.

SBW: A verticalização é necessária para viabilizar este novo modelo de atenção?

Fidelis: Não necessariamente. A verticalização tem momentos e indicações. Deve ser usada quando a rede disponível não atende os serviços que queremos oferecer aos clientes ou quando não corresponde aos nossos padrões de qualidade. É preciso deixar claro que a verticalização não resolve todos os problemas, ao contrário, cria outros. Não é uma panacéia universal. Cada caso precisa ser estudado e avaliado, para que não se torne uma solução genérica.

SBW: E qual será o papel do paciente neste novo modelo de atenção?

Fidelis: Neste modelo, não há a possibilidade de ser vencedor sem o envolvimento do cliente. Não dá para o paciente chegar com a doença estabelecida e o médico só passar a prescrição. O sucesso da promoção da saúde passa pelo auto-conhecimento, por isso é fundamental que o paciente esteja inteiramente envolvido com seu tratamento. Mesmo se considerarmos o modelo curador que temos hoje, a verdade é que ele não trata o paciente de forma eficaz, porque o médico só consegue manter o paciente estável no momento de uma complicação, mas não conquista a evolução do quadro clínico. E isso gera cada vez mais gastos para o sistema.

SBW: E quais são as expectativas com a adoção do modelo, tanto do ponto de vista financeiro, quanto da qualidade de vida?

Fidelis: Na verdade, a expectativa já aconteceu. O modelo não é teórico, é prático. Já foi testado na Unimed Belo Horizonte e é saudável, tanto do ponto de vista financeiro como o da qualidade de vida. É por isso que insistimos em sua adoção, porque é altamente eficaz e reduz custos, então, precisa ser estendido. Até mesmo do ponto de vista ético e humano, essa mudança é essencial.

SBW: O senhor acredita que este modelo de atenção será expandido para as demais operadoras de planos de saúde, como seguradoras e medicinas de grupo?

Fidelis: É o que tem que ser, vai acontecer. Ou adotamos um modelo mais adequado, ou caminhamos para a insolvência. O custo está aumentando gradualmente e a fonte pagadora, que é o cliente, está se exaurindo. Quem busca renda vendendo plano de saúde, com este ritmo de aumento de gastos, sabe que está caminhando para um modelo de negócios inviável. O sistema de saúde fica sem perspectiva e entramos em um debate estéril.

SBW: Qual é sua opinião sobre a interferência do Judiciário nas questões relativas à oferta de medicamentos e assistência médica?

Fidelis: Temos juízes entrando na medicina e prescrevendo, porque é isso que eles fazem quando dão uma ordem judicial liberando um medicamento. É um paradoxo ter que atender com ordem judicial. Do ponto de vista médico é um desastre. Não acho que o direito do paciente de recorrer à Justiça deva ser negado, mas quando a judicialização se torna uma atividade geral, não temos como manter a estrutura do sistema, porque estes atendimentos não constam do orçamento.

SBW: De que forma os sistema privado pode ajudar o sistema público. Como o senhor vê o futuro da relação entre estas duas modalidades de assistência?

Fidelis: Precisamos caminhar para a integração do sistema público com o sistema privado. O cliente do plano privado traz economia ao sistema público, mas acaba financiando a assistência médica duas vezes: paga ao governo, por meio dos impostos, e ao plano privado. Um desconto nos impostos de quem paga pelo plano de saúde seria uma boa alternativa.

* Cylene Souza viajou a convite da organização do Curso Internacional por Imersão da Federação das Unimeds de Minas Gerais

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