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A Medicina de Estilo de Vida e seu impacto na saúde

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Exercício. Nutrição. Gerenciamento de estresse. Sono. Cessação de tabagismo. Todos estes elementos são a base para tratamentos de doenças crônicas e outras patologias que formam um dos pilares de um conceito revolucionário na área de medicina, a “Medicina de Estilo de Vida,” desenvolvido pelo Dr. Edward M. Phillips.

O Dr. Phillips, MD, é fundador e diretor do Institute of Lifestyle Medicine (ILM) nos EUA. Dr. Phillips também é professor de Medicina e de Reabilitação na Harvard Medical School e Diretor do Ambulatório Serviços Médicos do Hospital de Reabilitação da Rede Spaulding em Boston, Massachusetts. Phillips fundou e dirige o Instituto de Medicina de Estilo de Vida que se localiza dentro do Departamento de Medicina Física e Reabilitação da Harvard Medical School.

Além disso, Phillips é um Fellow do American College of Sports Medicine (FACSM) e atua no Conselho Executivo da Exercise is Medicine ™ Global Initiative. Na entrevista a seguir, Dr. Phillips revela a revolução do “Lifestyle Medicine” no mundo da prevenção e tratamento de doenças assim como no relacionamento entre médico e paciente.

Vamos iniciar esta entrevista com uma pergunta básica: qual é a definição de “Medicina de Estilo de Vida”? 

A definição oficial foi publicada no “Journal of the American Medical Association” em Julho de 2010 da seguinte maneira: ” a prática baseada em evidências de ajudar indivíduos e famílias adotarem e manterem comportamentos saudáveis ​​que afetam a saúde e a qualidade de vida” (L. Lianov and M. Johnson, “Physician competencies for prescribing lifestyle medicine,” Journal of the American Medical Association, vol. 304, no. 2, pp. 202–203, 2010).

O primeiro elemento importante desta definição é que ele é baseado em evidências, o que significa que é um conceito bem estabelecido. Há evidências para conceitos que todo mundo reconhece como fumar faz mal, a atividade física faz bem, muito estresse faz você doente, e o “Lifestyle Medicine” reúne todos estes conceitos em uma prática com  provas de sua eficiência.

O segundo ponto importante é que estamos trabalhando com os indivíduos e famílias, o que é mais do que apenas o tratamento de uma pessoa sozinha, é o tratamento de um sistema.

Além disso, é importante entender que há uma diferença entre simplesmente adotar um comportamento e manter um comportamento, o foco da Medicina de estilo de vida, esta em “sustentar ” um comportamento saudável.

Essa definição ilumina a idéia de que ao afetar a saúde e qualidade de vida, envolvemos todo o sistema de saúde – planos médicos, academias, profissionais de saúde, faculdades, etc.

O componente final desta definição é de que a melhor maneira de combater doenças é através da mudança de comportamento.

Quais são os objetivos do Instituto de Medicina de Estilo de Vida (ILM)?

Institute of Lifestyle Medicine, (ILM) foi fundado em 2007 como uma instituição educacional com fins não lucrativos com a idéia inicial de oferecer educação para os médicos. O Instituto estabeleceu quatro metas principais:

  1. Fornecimento de conhecimento
  2. Fornecer ferramentas: quais as ferramentas que devem ser utilizadas? Essas ferramentas se referem a métodos mais tangíveis, como rastreador de fitness ou aplicativos de celular, ou até prescrições de exercícios (que falaremos mais adiante).
  3. Desenvolver habilidades: mesmo que os médicos tenham todo o conhecimento e ferramentas, eles também precisam ter as habilidades para se comunicar com os pacientes, outros médicos e com o resto da comunidade.
  4. Auto- Cuidado: transmite a idéia de que todos os profissionais de saúde precisam experimentar e servir de modelos aos pacientes dos comportamentos que estão tentando adotar; eles não necessariamente precisam ser bem sucedidos na manutenção desses comportamentos, mas eles precisam estar no caminho, tentando se tornar mais resistentes e saudáveis.

A missão da ILM é reduzir doenças e custos da saúde através da intervenção no estilo de vida. É importante perceber que não estamos competindo com “coaches” ou outros programas de promoção da saúde; pelo contrário, estamos trabalhando com eles para envolver os profissionais de saúde para ajudar os outros a se tornarem mais saudáveis e se auto ajudando para se tornar mais saudável.


Qual é a importância de “Lifestyle Medicine”, no contexto dos programas de prevenção de saúde e mudança de comportamento?

É óbvio no título do conceito “lifestyle medicine”, que há uma relação entre a “medicina” e “estilo de vida”, que se encaixa bem no contexto dos programas de prevenção de saúde e mudança de comportamento.

Medicina de Estilo de Vida é uma medicina bastante poderosa, uma maneira maravilhosa para por exemplo tratar doenças crônicas. Podemos tratar a diabetes simplesmente alterando a dieta e aumentando o exercício (exercícios específicos, tais como o treinamento de resistência e aeróbico).

Portanto, Medicina de estilo de vida, não é apenas promoção e prevenção, mas inclui o tratamento.

Muitas terapias de estilo de vida são capazes de reverter a doença cardíaca, por exemplo.

Mudança de comportamento é uma grande parte dessa forma de Medicina, mas não é o único componente.

Outra maneira de olhar é comparar a medicina de estilo de vida com a prevenção: à medida que envelhecemos, o funcionamento diminui e então você morre, o mundo da prevenção suaviza essa curva.

O mundo da medicina de estilo vida expande a curva – a idéia não é apenas sobreviver, mas prosperar, melhorar a energia, para viver mais saudável em níveis mais elevados de funcionamento.

Há um artigo recém-lançado pela Associação Médica Americana mostrando quão potente é o “remédio” de estilo de vida na prevenção de doenças cardíacas.

Quais são as principais causas de doenças?

Com base em nossos estudos, as raízes da doença estão em comportamentos como o tabagismo, a inatividade física, que mata ainda mais do que o tabaco, estresse, má alimentação (comer demais ou comer demais dos alimentos errados, a obesidade não é um comportamento, é uma conseqüência). Poderíamos ainda acrescentar sono, outras substâncias como o álcool. Portanto, podemos explicar a maioria das doenças com comportamentos simples ligados á hábitos de estilo de vida.

Como pode o conceito de “Lifestyle Medicine” ajudar a melhorar a relação profissional do profissional de  saúde/ médicos com seus pacientes?

Eu amo esta pergunta!

Uma das coisas sutis quando profissionais de saúde praticam e vivem através da medicina de estilo de vida é a transferência da responsabilidade do profissional de saúde ao paciente. O profissional  não vai dizer ao paciente o que fazer, que é uma maneira de tratar “coisas quebradas” de forma episódica.

Há uma importante citação da Margareth Moore da Wellcoaches que explica claramente essa mudança: a forma como os médicos se comportam sem medicina de estilo de vida é como lutar com os seus pacientes, quando entra no relacionamento de coaching e estilo de vida, eles dançam com seus pacientes. Na prática da medicina de estilo de vida, os médicos ou profissionais de saúde podem ter o conhecimento e compartilhar esse conhecimento com seus pacientes, e ainda agir como uma autoridade, mas transferir a responsabilidade nas decisões para seus pacientes, diminuindo o estresse e a pressão dos médicos e profissionais de saúde e concedendo uma maior autonomia para os pacientes.

Como pode o conceito de “Lifestyle Medicine” ajudar a melhorar a forma em que os pacientes ou clientes percebem a sua saúde e bem-estar?

Este é o outro lado da questão anterior: ao assumirem mais responsabilidade sobre a sua saúde, o que as pessoas apreciam é o seu próprio senso de agência, o ganho de controle e aumento da auto-eficácia. Os pacientes percebem que não precisam depender somente do consultório médico para consertar tudo quando esta doente, mas sim trabalhar para melhorar o seu próprio dia-a-dia através de mudanças saudáveis.

Os pacientes que tem experiências com médicos de estilo de vida se comportam como adolescentes, no primeiro momento eles têm medo da responsabilidade, mas ao ganhar confiança,  eles desfrutam de sua liberdade.

Os médicos não vão apenas dar uma pílula para tratar, a medicina de estilo de vida realmente melhora a forma como os pacientes podem cuidar de si e da forma como eles podem influenciar a sua própria saúde. Este conceito baseia-se na literatura do “coaching” em que a relação entre um “coach” e um “coachee” é o “coachee” que conduz seu próprio processo de mudança.

Como é que o conceito de “Lifestyle Medicine” altera a relação entre o que um profissional de  saúde faz pessoalmente e o que eles aconselham seus pacientes a fazer? Como isso afeta o tratamento e evolução dos pacientes?

Erika Frank escreveu muitos artigos sobre este tema. Seus estudos mostram que os médicos mais saudáveis tem pacientes mais saudáveis.

Há um estudo feito em Israel, em que os resultados mostraram uma forte correlação entre o médico que está seguindo as prescrições de medicina preventiva, quando combinado com um paciente, o paciente terá mais probabilidade de se envolver e adotar comportamentos saudáveis.

Em 1960 houve um acontecimento muito interessante pois vários pararam de fumar influenciando seus pacientes a tomarem a mesma decisão.

A idéia é que o médico dê o exemplo. É uma ferramenta realmente potente quando o médico faz e diz para influenciar o que um paciente faz e diz.

Este é um argumento muito forte para incentivar a ter uma força de trabalho saudável em hospitais, clínicas, etc, pois médicos e enfermeiros saudáveis terão pacientes saudáveis.

Quais são algumas das teorias de mudança de comportamento que são a base de “Lifestyle Medicine?”

As principais teorias por trás de “lifestyle medicine” vem da psicologia de coaching, como entrevista motivacional. A entrevista motivacional tem uma vasta literatura que os médicos em sua maioria conhecem. Outras ferramentas de coaching incluem perguntas abertas, escuta reflexiva, balança de decisão – os aspectos positivos e negativos de mudar e não mudar, etc.

Todas essas teorias ajudam a mudar o tom das conversas. Nós geralmente somos ensinados a pedir sim ou não e com o treinamento em coaching, especialmente de Margareth Moore e Wellcoaches, nós aprendemos a fazer perguntas abertas. Também baseamos muito de nossos conceitos no Modelo Transteorico de Jim Prochaska.

É importante saber qual ferramenta utilizar em diferentes momentos com diferentes pacientes. A entrevista motivacional, por exemplo, não é utilizada com pacientes que em estágios de mudança avançado.

Como podem as instituições de saúde (hospitais, planos de saúde, etc) incluir o “Lifestyle Medicine”, como parte de seus programas de saúde?

Uma grande parte do dinheiro que é utilizada para tratar doenças causado por estilo de vida pode ser economizada. Se as empresas tiverem funcionários mais saudáveis, muito dinheiro será salvo. A empresa CUMMINS por exemplo, está exigindo que seus médicos obtenham a certificação em Lifestyle Medicine. A lógica financeira é que se a empresa esta gastando milhões de dólares em saúde, e uma grande parte deste valor é utilizado para tratar doenças evitáveis, por que não treinar que os seus médicos em medicina de estilo de vida?

Um dos maiores empregadores nos EUA é o Departamento de Defesa (Marinha, Exército, etc)  que gasta  50 bilhões de dólares em cuidados de saúde e agora eles estão cortando seus orçamentos para investir nos princípios de  medicina de estilo de vida. Por exemplo, se eles estão alimentando as tropas, eles podem decidir o que oferecer, e esta escolha poderia incluir uma alimentar saudável. A população americana é tão acima do peso e sedentária que hoje faz parte da agenda nacional para desenvolver uma população mais saudável que poderia servir o país. Este programa é pago pelo governo pois se trata de um investimento “nacional” em estilo de vida.

Há também leis que estão empurrando e financiando a prevenção, porque muito dinheiro pode ser economizado e doenças evitadas.

Como o “Lifestyle Medicine” transforma a maneira como os médicos e profissionais de saúde percebem os conceitos de saúde versus doença? E como isso afeta o tratamento?

A primeira mudança de percepção é que nós precisamos olhar para o atendimento de pacientes e as relações com os pacientes como um processo de longo prazo. Quando as pessoas pensam que estão doentes, mesmo quando se fala de doenças crônicas, os médicos e profissionais de saúde tratam a doença como se fosse de curto prazo. Em outras palavras, a doença é tratada quando ocorre exacerbação de doenças crónicas.

A primeira percepção logo é temporal, como fazer um paciente saudável manter comportamentos saudáveis diários.

A segunda mudança é a forma como os médicos são remunerados. Até que o sistema mude, os médicos são pagos pela rapidez com que tratam o paciente, visitar os doentes, realizar os procedimentos, etc e seu interesse em conversar com o paciente é diminuído.

Os EUA esta tentando iniciar um programa de remuneração de médicos com base em métricas de saúde, ou seja, os médicos vão receber o pagamento se os pacientes melhorarem e tornarem-se mais saudáveis. Essas métricas de saúde podem ser baseadas em comportamentos saudáveis , portanto, não apenas com base nos resultados, mas no processo de tornar-se saudável.

Esse tipo de foco muda a mentalidade de ajudar os pacientes a melhorar e sustentar comportamentos saudáveis. Por exemplo, para uma companhia de seguros que possui hospitais e emprega médicos, se eles podem prevenir ataques cardíacos, diabetes, etc eles vão economizar recursos, tornar os pacientes mais saudáveis e pagar médicos.

Que tipo de prescrições que “Lifestyle Médicos” prescrevem?

Os médicos de estilo de vida prescrevem mudanças comportamentais. O mais fácil é a prescrição de exercício, que é um grande exemplo, mas você pode prescrever qualquer comportamento.

A receita de atividade física inclui parâmetros de atividade física como por exemplo determinar a freqüência do comportamento semanal e a duração (pelo menos 150 minutos por semana de exercício).

O profissional de saúde irá negociar a prescrição com seu paciente.

Há muitos exemplos de mudanças estilo de vida, tais como a prescrição para o paciente ir ao supermercado e comprar frutas e legumes; outro pode incluir uma receita para parar de fumar.

A idéia de prescrição é que o profissional de saúde ainda tem autoridade para “prescrever”, mas é o paciente que irá cumprir. Os pacientes podem fazer o que quiserem, mas se uma autoridade, como um médico ou profissional de saúde endossar e acompanhar o comportamento a chance de manter o comportamento é muito maior.

Qual é o papel da educação em programas de estilo de vida?

Nosso instituto foi fundado e mantido com a idéia de que é preciso educar os médicos. Focamos na idéia de que todos os programas de educação de saúde devem mudar no mundo todo, incluindo os conceitos de tratamento via estilo de vida, Todos os profissionais de saúde devem aprender sobre a importância da alimentação saudável, gerenciamento de estresse, etc.

Estamos ajudando a reformar o sistema de educação de medicina para incluir temas sobre alimentação, auto-cuidado, etc.  Nós já temos programas de bolsas de estudo, programas de residência, educação médica contínuada, etc.

A educação é necessária, sem ela, o mercado de saúde não tem profissionais que podem ajudar as pessoas a adotarem e manterem comportamentos, reduzindo os custos de doença e de saúde, e educação é fundamental para que isso aconteça.

Você poderia citar alguns estudos de “Lifestyle Medicine?” Quais são os achados importantes desses estudos?

Realizamos e publicamos um estudo sobre educação dos profissionais de saúde. Analisamos os enfermeiros e médicos que vieram para nossos cursos de formação. Este estudo foi baseado em pesquisas realizadas durante 90 dias.

O estudo mostrou que é possível  “ensinar novos truques para médicos tradicionais”, – médicos e enfermeiros que vieram para o curso foram capazes de aprender novos comportamentos, modificar comportamentos pessoais, e incluírem mudanças de estilo de vida no tratamento de seus pacientes.

Um segundo exemplo de um estudo que na verdade estamos realizando atualmente é focado na analise do que é necessário para educar os residentes de medicina. Estamos escrevendo sobre educação na escola de medicina e por isso precisamos ensinar sobre o exercício, sono, etc, para estudantes de medicina. Há também muitos artigos que mostram como é prejudicial fumar, beber exageradamente, dormir pouco , etc.

O que os profissionais de saúde interessados em participar no seu “Treinamento em Medicina de Estilo de Vida” no Brasil devem esperar?

O que é único e divertido sobre este workshop é para aprender algo novo e uma abordagem diferente para a saúde.

Também é ótimo porque pode aplicar imediatamente para si mesmos e em suas práticas profissionais. A oficina é um início de uma grande transformação – estes profissionais de saúde serão motivados a caminhar, comer saudável, dormir mais cedo, etc.

As pessoas que freqüentam o treinamento vão começar uma transformação através de um “compromisso de mudança.”

Nós fizemos essa mesma atividade no ano passado e pedimos para que nossos alunos nos escrevessem sobre suas experiências depois de um ano aplicando os conceitos que aprenderam. Por exemplo, tivemos um médico do Rio de Janeiro que veio a Harvard e escreveu-nos que a Medicina de Estilo de Vida está transformando sua prática para incluir mudanças de estilo de vida como forma de tratamento, bem como em suas decisões pessoais.

Uma outra enfermeira nos disse sobre as dificuldades que encontrou em seu processo de mudança. Essa dificuldade mostra exatamente o que queremos – ela está empenhada em mudar seus hábitos de vida.

As pessoas que vêm para o curso, irão adquirir conhecimento, desenvolver habilidades, mudar atitudes, e ter as ferramentas para mudarem imediatamente. Estas podem ser pequenas mudanças, mas vai começar a traçar um caminho diferente. Encorajamos as pessoas que estão em busca de transformação em suas vidas profissionais e pessoais para vir para o workshop. Para mim, a viagem vai valer a pena se tivermos pessoas dispostas para mudar e encontrar formas de fazer essas mudanças acontecerem.

Para maiores informações, clique aqui.

       
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