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M&A: Perdas de Bem-Estar-Social?

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Texto originalmente produzido por:

José Teruo Watari é Gerente de Planejamento & Controle do Grupo Nefrocare (Endeavor), a maior rede de clínicas de diálise independente do país. Ele é formado em Economia e Finanças pela Escola de Pós Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas (EPGE-FGV).

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Faz parte dos estudos econômicos avaliar uma ampla gama de mercados e explicar de que forma as decisões de preço, investimento e nível de produção das empresas dependem da estrutura de mercado e do comportamento dos concorrentes. Um dos princípios que distingue as várias estruturas de mercado é o grau de controle que uma empresa tem sobre o preço que ela cobra aos seus consumidores. Considerando-se os extremos, mesmo que ambos raramente existem no mundo real, destaca primeiramente o modelo de concorrência perfeita.

Neste modelo, nenhum agente, isoladamente, possui poder sobre o preço, uma vez que existe um número suficiente de compradores e vendedores de um bem. Não somente, a informação neste mercado é perfeita, ou seja, todos os compradores e vendedores sabem todas as variáveis relevantes sobre o produto, como a qualidade e o seu preço. Por fim, neste mercado inexistem barreiras de entrada e/ou saída no mercado. Basicamente, qualquer produtor ou prestador entra em condições exatamente iguais aos que já existem no setor. Pretendo abordar modelo de concorrência perfeita em outros tópicos, mas basicamente este é a estrutura mais eficiente, pois consegue maximizar o bem estar da sociedade na medida em que o seu ponto de equilíbrio está no nível em que a curva de oferta e demanda se interceptam, e o preço de mercado é igual ao custo marginal do produto e/ou serviço.

Outro modelo de mercado que está no extremo oposto do mercado de concorrência perfeita é o monopólio. Neste, as empresas têm a capacidade de afetar o preço e/ou quantidade de seus produtos e/ou serviços. Diferentemente do modelo anterior, no monopólio, o monopolista não perderá todos os seus clientes caso eleve marginalmente o seu preço.

Nos setores de saúde, empresas farmacêuticas que controlam patentes de determinados medicamentos podem ser monopolistas. Ainda que monopólio seja também raro de ser encontrado no mundo real, outros modelos na qual as empresas possuem influência nos preços, como por exemplo o oligopólio, tem surgido cada vez mais com frequências em nossas vidas.

É uma das premissas da teoria do consumidor de que a curva de demanda é descendente, i.e., a quantidade consumida e o seu preço são inversamente proporcionais. Dentro deste contexto, para vender uma unidade a mais de um bem e/ou serviço, o monopolista teria de cooptar mais consumidores a comprar, mas sendo obrigado a baixar o seu preço. Considerando-se que a informação é perfeita, dificilmente o monopolista conseguirá baixar o preço do bem e/ou serviço marginal sem baixar também o preço a todos os consumidores anteriores, o que poderia gerar um lucro menor para o monopolista. Assim, a quantidade produzida no monopólio pode ser menor que a da concorrência perfeita, deixando parte dos consumidores sem o bem e/ou serviço, pois a escassez induzida fez com que o monopolista aumentasse o seu preço, maximizando o seu lucro.

Ao analisar as duas situações econômicas acima situadas a partir da eficiência alocativa de recusos, podemos concluir que há perdas de bem-estar social no modelo de monopólio quando comparada a concorrência perfeita.

Agora vamos sair um pouco do campo teórico para identificarmos os principais movimentos corporativos que sinalizam uma tendência já consolidada. Fusões e Aquisições ou simplesmente M&A (abreviação para Merger and Acquisition) tem sido cada vez mais comuns em diversos setores da economia ao redor do globo. São diversas razões que explicam tais movimentos entre as companhias, mas sobressaem o aumento da participação no mercado e o ganho de escala, que proporciona a racionalização da produção através da redução de custos, uma vez que possibilita maior poder de barganha junto aos fornecedores e consumidores, sem contar que é possível eliminar a duplicidade de atividades e redundâncias operacionais.

O número de transações deste tipo tem crescido significativamente no Brasil graças as boas perspectivas econômicas (não as mais recentes, sobretudo no curto prazo), que tem impulsionado o mercado de Private Equity. De acordo com Ocroma, gestora de investimentos especializada em private equity, hoje existem aproximadamente 150 gestores de private equity operando no país, com US$ 40 bilhões em ativos. O número de M&A no Brasil registrou recorde em 2010 e a tendência é de continuidade nos próximos anos. Ao analisar os setores mais prospectados e transacionados, destacou a saúde, justificado pela tendência de envelhecimento da população, que somado ao aumento da renda proporcionaram uma demanda crescente por serviços e o sistema público ainda ser muito ineficiente. Um mercado em franco crescimento com potencialidade de consolidação, nos parece ser u prato cheio para ampliar cada vez mais os processos de M&A no setor de saúde.

Certamente, o setor de saúde no Brasil está longe da estrutura de monopólio. Talvez ainda estejamos nem perto de uma estrutura de oligopólio. Ainda assim, faz parte da agenda dos estudos econômicos acompanhar de perto as principais tendências e se posicionar diante dos fatos.

Os hospitais nos EUA passaram por um processo intenso de fusões no final dos anos 90. Após mais de uma década nos resta uma pergunta: Elas criaram ganhos econômicos ou perdas de bem-estar-social? E em relação ao mesmo movimento que vem ocorrendo no setor de saúde no Brasil?

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