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Juan March – o lado negro do empreendedor mais importante da Espanha do Séc. XX

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Todos os empreendedores têm suas virtudes e defeitos. Mas, o empreendedor Juan March, o empresário espanhol, mais importante do século XX, nos relembra a importância dos valores e da ética na conduta dos negócios. Tendo realizado inúmeros negócios ilegais, com destaque para o contrabando de tabaco e utilizando a lei, conforme lhe convinha, Juan March alcançou uma fortuna sem precedentes, chegando a ser o sétimo homem mais rico do mundo após a 2 Guerra Mundial.

Iniciando sua carreira emprestando dinheiro para fazendeiros, acabou crescendo seu patrimônio ao executar as terras destes fazendeiros e vendê-las em pequenas propriedades. Tomando a fazenda de sua irmã com a promessa de devolvê-la posteriormente, teve grande lucro com esta operação imobiliária e nunca devolveu a propriedade à sua irmã. Se há um preço para atingir tamanho sucesso, Juan March decidiu pagá-lo peso por peso. Artigo de leitura obrigatória para quem se interessa por comportamento empreendedor e quer saber o que é necessário para chegar lá!

Atenciosamente,

Fernando Cembranelli

Equipe EmpreenderSaúde

Biografia: Feitos e malfeitos do mais importante empresário espanhol do século XX.

Nenhum cuidado moral e muito sucesso vida afora

“Juan March (1880-1962)”

A revista americana “Time” disse que o empresário espanhol Juan March Ordinas foi talvez o bilionário mais misterioso e poderoso do mundo. A apreciação é certamente exagerada. Mas é provável que, se tivesse nascido nos Estados Unidos, ele seria considerado um dos mais famosos “robber barons”, ao lado de Andrew Carnegie, Cornelius Vanderbilt, John D. Rockefeller, J. P. Morgan. Como eles, March teve capacidade, intuição, visão, energia e determinação para construir do nada um enorme império econômico. Como eles, deixou de lado as considerações éticas. Com a diferença de que foi, segundo John Brooks escreveu na revista “The New Yorker“, mais ousado, mais sorrateiro e menos inibido por questões de prudência e consciência do que os “barões” americanos. Também como eles, deixou grande parte de sua fortuna para criar uma fundação, que leva seu nome.

March foi, sem dúvida, o empresário mais importante da Espanha no século XX. Participou de bancos e de empresas de navegação, teve negócios imobiliários e controlou grandes extensões rurais, investiu em operações de comércio internacional, na geração de energia, na indústria química e em petróleo. Conseguiu ascender economicamente num país pobre, pouco industrializado, onde a dedicação aos negócios era vista com certo desprezo pela elite, mediante uma combinação de paciência, nervo, sutileza na negociação, cuidado para não se endividar – “os bancos precisam de mim, não eu deles”, dizia – habilidade na arte de corromper e uma prodigiosa capacidade de adaptação ao ambiente político, de acordo com Brooks. Seu negócio mais conhecido foi o contrabando de tabaco, pelo que era chamado “o último pirata do Mediterrâneo” – título de sua biografia publicada em 1934 por Manuel Domingo Benavides.

Não economizava dinheiro para subornar policiais, militares, políticos, juízes ou jornalistas, nem para contratar advogados ou comprar votos. Não tinha ideologia definida. Associou-se a partidos e movimentos políticos da direita, centro e esquerda. Sua obsessão era ganhar dinheiro. Politicamente, estava ao lado do governo, para extrair concessões, mas também mantinha contatos com a oposição. Montou uma ampla rede de contatos em todas as esferas da sociedade e controlou diversos jornais, não como negócio, mas como instrumento de pressão. Financiou a sublevação militar que deu início à Guerra Civil Espanhola e colocou Francisco Franco no poder, no que foi amplamente retribuído.

Financiou a sublevação militar que deu início à Guerra Civil e colocou Francisco Franco no poder, no que foi amplamente retribuído

March nasceu em 1880 na ilha de Maiorca, numa família de pequenos proprietários rurais dedicados também ao comércio. Foi expulso da escola, onde se destacou pela habilidade com os números. Começou nos negócios da família comprando porcos e, depois, produtos agrícolas, para revenda. Emprestava dinheiro, cobrando juros de usura e com garantia hipotecária. Adquiriu assim grandes propriedades de terras de latifundiários falidos, para dividi-las em parcelas e vendê-las a pequenos agricultores. Conseguiu os recursos para alavancar seus negócios convencendo a família a colocar em seu nome uma propriedade que corresponderia, por herança, a sua irmã, e a deu como garantia para levantar empréstimos, mas depois se recusou a devolvê-la.

Percebeu o grande lucro proporcionado pelo fluxo do contrabando de tabaco do norte da África para a Espanha, desafiando o monopólio imposto pelo Estado, que existia desde 1637. Com um sócio, José Girau, controlou fábricas de cigarros na Argélia, na época colônia francesa, e organizou uma numerosa frota de pequenas embarcações para transportar a mercadoria à Espanha, onde mantinha uma rede de distribuição. A polícia marítima e os fiscais da alfândega causavam poucos problemas. Conseguiu das autoridades francesas e espanholas o monopólio do comércio de cigarros na região do então Marrocos espanhol. Aproveitou para abrir armazéns e negociar legalmente com produtos alimentícios e, menos legalmente, a comprar e vender armas.

Em 1912, foi assassinado em Valência Rafael Girau, filho de seu sócio. March tornou-se suspeito de ser o mandante. Descobriu-se que o jovem morto era amante de sua mulher e que pretendia abrir um negócio de contrabando para competir com March. Mas o juiz de instrução encarregado do caso, que reclamou da falta de cooperação da polícia, foi transferido e substituído por outro, menos rigoroso. Quando o caso foi julgado, anos mais tarde, ninguém foi condenado. March aproveitou o evento para desfazer, à sua maneira, a sociedade com José Girau, o pai do jovem morto, em termos que levaram este aos tribunais. Nessa briga, Girau quase foi fuzilado pelas autoridades francesas da Argélia por alta traição, com base em documentos falsificados por March.

Já muito próspero, March multiplicou sua fortuna durante a Primeira Guerra Mundial, na qual a Espanha permaneceu neutra. Ele simpatizava com a Grã-Bretanha, e ajudou os aliados durante o conflito, mas não deixou de fazer bons negócios com os alemães. Fez um acordo com os serviços secretos britânicos, aos quais fornecia informações, captadas por sua frota de pequenos barcos, sobre os submarinos alemães no Mediterrâneo. Em troca, recebia proteção para suas operações de contrabando. Com os alemães, negociou o livre trânsito de suas embarcações em troca de combustíveis e alimentos, vendidos por bom preço.

Assumiu o controle da Transmediterránea, talvez a maior empresa espanhola de navegação, e das fornecedoras de energia elétrica nas ilhas Canárias e nas Baleares. Construiu um porto, uma fábrica de fertilizantes e fundou a Banca March. Passou a ser hostilizado pelas famílias tradicionais de Maiorca, que o consideravam um arrivista. Em tom de desafio, aproximou-se dos movimentos de esquerda, alegava ser um “filho do povo” e deu dinheiro para obras sociais. Atraiu parte do partido socialista e ganhou elogios até dos anarquistas.

Quando decidiu ampliar sua escala de operações e precisou de apoios políticos, hábil na compra de votos, foi eleito deputado pelo Partido Liberal, embora tivesse começado a vida política ao lado dos conservadores. Seus negócios ficaram conhecidos em toda a Espanha e passou a ser atacado no Parlamento. Um pequeno jornal ganhou dele 28 processos por difamação, além de outros 11 de um seu associado. Para melhorar sua imagem, lançou em Maiorca o jornal “El Día”.

Fornecia informações sobre submarinos alemães aos serviços secretos britânicos e em troca era livre para fazer contrabando

Em 1923, o general Miguel Primo de Rivera deu um golpe e instalou um diretório para governar a Espanha. Na verdade, era uma ditadura não excessivamente rigorosa, que prometia severidade contra a corrupção. March, alvo óbvio, foi acusado de vários crimes, inclusive contrabando. Foram achadas evidências, mas, como em ocasiões anteriores, o juiz foi substituído e o processo encerrado. Meses depois, em outro processo, quando um juiz decretou sua prisão, March fugiu para a França. O juiz foi substituído por outro, que o deixou em liberdade e encerrou o caso.

Em pouco tempo, prestava serviços ao novo governo, que ampliou o alcance de seu monopólio do tabaco na África. Comprou dois importantes jornais em Madri: “La Libertad”, crítico do governo e orientado para a esquerda, e “Informaciones”, de tendência conservadora, que dava apoio à ditadura. Ao mesmo tempo em que colaborava com a ditadura, prevendo o fim do regime, dava ajuda aos conspiradores, que queriam derrubá-la.

Com a implantação da República, em abril de 1931, March foi detido na fronteira com a França. Não foi preso inicialmente, mas, processado, perdeu parte do monopólio do tabaco na África. Nas eleições para deputado, foi um dos candidatos mais votados. No entanto, as Cortes (Parlamento espanhol) autorizaram sua prisão. Preso, mas não processado, conseguiu fugir depois de 17 meses, com ajuda do diretor e de seu carcereiro, que foi embora com ele e recebeu uma pensão pelo resto de sua vida. Refugiou-se em Gibraltar, acobertado pelas autoridades britânicas.

March declarou uma guerra pessoal à República. Comprou três importantes diários favoráveis ao governo e mudou sua opinião. Financiou vários movimentos para acabar com o regime. Participou do complô de civis e militares que levou ao golpe de julho de 1936, encabeçado pelo general Francisco Franco. Durante a Guerra Civil (1936-39), foi March quem deu o suporte financeiro inicial à insurreição militar, pagou despesas, comprou aviões, canhões e munições para os rebeldes, na Alemanha e na Itália. Os navios da Transmediterránea e sua frota de barcos para o contrabando transportaram as tropas de Franco da África para o continente. Chegou a depositar 178 toneladas de ouro na Banca d’Italia. Foi avalista de várias operações de crédito em Londres.

Durante a Segunda Guerra Mundial, na qual a Espanha permaneceu neutra, mas com simpatias para a Alemanha, March apoiou os aliados.

Tinha residência oficial em Lisboa e depois em Genebra, que manteve até o fim da vida. Financiou conspirações, e delas participou, sem resultados, para afastar Franco do poder e colocar no trono Juan Carlos de Borbón, filho de Alfonso XIII.

Terminada a guerra, March deu o maior golpe financeiro de sua heterodoxa carreira de empresário: o controle da maior empresa de energia elétrica da Espanha, a Barcelona Traction, Light and Power – fundada em 1911 por Frederick Spark Pearson, o mesmo empresário americano que criara no Brasil a São Paulo Tramway, Light and Power, a Rio de Janeiro Tramway, Light and Power e a Brazilian Traction, Light and Power, junto com seu associado Percival Farquahrt.

Como, por causa da escassez de divisas na Espanha durante a guerra civil e a guerra mundial, o governo não lhe vendera as libras necessárias, a Barcelona Traction não tinha conseguido fazer anualmente os pagamentos nessa moeda devidos aos portadores de bônus no exterior. March, que vinha comprando os desvalorizados bônus da Barcelona Traction há anos e tinha tentado adquirir a empresa em 1940 e 1944, aproveitou essa circunstância. Na ocasião, o maior acionista era a Sofina, uma holding belga que preparara um plano para comprar os bônus dos investidores e pagar os dividendos atrasados. A operação foi vetada pelo governo espanhol, a pedido de March.

Em 10 de fevereiro de 1948, três pequenos investidores espanhóis associados a March pediram a falência da empresa em Reus, pequena cidade catalã a mais de 100 quilômetros de Barcelona. Tinham comprado alguns bônus da empresa cinco dias antes. Alegaram ante o juiz que a Barcelona Traction não tinha pago dividendos nos últimos 11 anos. No dia seguinte, a petição foi ouvida no tribunal e no outro o juiz decretou a falência. Com essa medida, o controle saía da mão dos acionistas e passava à dos portadores dos bônus.

O juiz nomeou dois homens de March para administrar a falência. Os principais executivos da empresa foram demitidos sumariamente e expulsos. Só nesse momento souberam da falência e avisaram a principal acionista, a Sofina. O síndico convocou uma assembleia de acionistas, na qual só ele esteve presente, demitiu todos os membros do conselho de administração e escolheu novos conselheiros, todos ligados a March. Altos executivos foram processados por evasão de divisas.

No dia posterior à decretação da falência, outro portador de bônus entrou em Reus com uma “declinatória”, que negava ao tribunal jurisdição para decretar a falência. Depois que os administradores da falência assumiram o controle de todas as propriedades da Barcelona Traction, a declinatória foi retirada – seu autor, obviamente, era homem de March – e, antes que os advogados da empresa pudessem reagir, o juiz decretou a falência final.

March tinha a posse da Barcelona Traction, mas não o controle acionário. As ações das subsidiárias da empresa estavam nos cofres da National Trust Company, em Toronto. Os novos administradores da falência anularam essas ações, emitiram outras na Espanha e as colocaram em leilão. O preço mínimo foi de dez milhões de pesetas – US$ 280 mil na época -, ínfima parte do real valor da empresa, que tinha um lucro anual de US$ 5 milhões. O vencedor do leilão também deveria pagar em libras, aos portadores de bônus, todos os dividendos. Essa condição tirava outros eventuais investidores espanhóis do leilão, pois somente March tinha recursos no exterior, além de ser o maior proprietário de bônus. March, único participante, saiu vencedor, pagando o preço mínimo, através de uma nova empresa, Fuerzas Eléctricas de Cataluña S.A. – Fecsa. O dinheiro não foi entregue aos acionistas, mas usado para pagar os gastos com a falência.

March morreu em 1962, num acidente de automóvel, pouco antes de completar 82 anos. Antes de morrer, tinha estabelecido a Fundação Juan March, de finalidades educacionais, científicas e culturais. Fez um aporte de um bilhão de pesetas, que dobrou para dois bilhões no hospital, poucos dias antes de morrer. Cedeu, para sede da fundação, seu palácio de Madri.

Em 1964, dois anos depois da morte de March, um tribunal espanhol declarou que a Barcelona Traction tinha provocado sua própria “falência fraudulenta” e processou criminalmente os diretores de 1948.

A Bélgica reabriu o processo no Tribunal Internacional de Justiça, em 1962. Em fevereiro de 1970 saiu o veredito, que recusava o pedido da Bélgica. O único voto contrário foi do representante belga. O tribunal não entrara no mérito da questão. Afirmou que a Bélgica não podia apresentar a reivindicação de uma companhia como a Barcelona Traction, que tinha sede no Canadá.

Até hoje o nome de March permanece envolvido num mito. Quando estava vivo, era perigoso escrever sobre ele. Processou jornais e jornalistas. O autor de “El Último Pirata del Mediterráneo” foi para a cadeia e teve seu livro apreendido. Depois da morte de March, foram escritas várias obras sobre ele. A última, da deputada e ex-ministra de Educação do governo socialista espanhol Mercedes Cabrera Calvo Sotello, publicada neste ano, tenta separar o homem do mito. Com acesso a fontes novas, a autora reúne impressionante volume de informações. O livro, porém, fica demasiado preso à reprodução de dados e exagera em sua preocupação de mostrar o contexto, deixando de lado, com frequência, o personagem principal. Passa com rapidez sobre os negócios de March com a Alemanha nas duas guerras mundiais e não é muito clara em sua narrativa sobre a Barcelona Traction. No entanto, é leitura indispensável para se conhecer o homem que foi apontado como o único “robber baron” da Europa.

Fonte: Matias Molina, Valor Econômico, 21/06/2011

Foto1: Juan March, Foto 2: Fundação Juan March

Artigo na Wikipedia sobre Juan March

Fundação Juan March

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