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Fundação Adib Jatene desenvolve coração artificial

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A Divisão de Bioengenharia da Fundação Adib Jatene desenvolveu o primeiro coração artificial brasileiro. Trata-se de um dispositivo heterotópico (implantado para auxiliar o coração natural), do tamanho de uma bola de tênis, que pesa aproximadamente 500 gr. O protótipo foi criado com o corpo em alumínio, diafragma em poliuretano, capa em resina acrílica e conexões de silicone ou plástico, e funciona com um motor de corrente contínua alimentado por bateria. O engenheiro Dr. Aron Andrade, responsável pelo projeto, explica que o motor elétrico do coração artificial gira, impulsionando um parafuso para a esquerda, o que movimenta o diafragma esquerdo. Isso faz com que o sangue seja ejetado para fora da câmara ou ventrículo artificial esquerdo. Em seguida, o motor inverte o sentido de rotação e o mesmo processo se repete no lado direito. Isso na mesma freqüência do coração natural.
O projeto para desenvolvimento do coração artificial foi iniciado em 1997 pelo Dr. Andrade como parte de seu doutorado. ?Tive contato com uma pesquisa similar nos Estados Unidos, onde fiz meu doutorado, no Baylor College of Medicine, em Houston, Texas. Quando voltei para o Brasil, iniciei o projeto em cooperação com o Instituto Dante Pazzanese?, conta Andrade. Segundo ele, o projeto brasileiro utiliza o mesmo princípio de funcionamento que o americano, com a diferença de que atua como auxiliar ao coração natural, enquanto o outro o substitui.
?O modelo que substitui o coração chama-se ortotópico, e o nosso projeto é de um coração artificial heterotópico, uma idéia nova no mundo inteiro. Trata-se de um coração total, com duas câmaras de bombeamento e quatro válvulas cardíacas artificiais, conectado em série com o coração do paciente?, especifica Andrade. O engenheiro explica que em relação ao transplante heterotópico (quando o paciente recebe um coração natural sem substituir o próprio), a vantagem está no fato de não necessitar de doador, uma das maiores dificuldades. Em relação ao coração artificial ortópico, a cirurgia para implante do modelo brasileiro é muito mais simples por não retirar o coração natural. Além disso, existe maior segurança, pois se o coração artificial falhar, o órgão natural continua funcionando e o paciente tem mais chance de seguir com vida. Outro ponto importante é que o controle da pressão sanguínea e a freqüência cardíaca são orientados pelo coração natural, que fornece a referência ao dispositivo implantado.
Atualmente, o projeto já concluiu o protótipo em relação a controle, baterias e especificações técnicas. ?Já fizemos os testes in vitro e com simuladores. Também iniciamos os testes com animais, e o dispositivo já foi implantado em carneiros. Agora estamos testando o coração artificial em bezerros, que têm o mesmo peso de um homem adulto?, afirma Andrade. Os implantes em animais são acompanhados pelos doutores Jarbas Dinkuynsen e Paulo Paulista. Andrade afirma que esses procedimentos levam a uma série de correções e soluções para detalhes técnicos e cirúrgicos. ?Só então, quando o dispositivo apresentar total segurança, poderá ser implantado em pacientes. Mas ainda dependerá da aprovação de um comitê de ética?, detalha o idealizador do projeto.
Andrade estima um prazo de dois anos para que o coração artificial possa chegar a ser utilizado em pacientes, mas não descarta complicações e atrasos, normais neste tipo de pesquisa. Até agora o projeto já consumiu cerca de R$ 200 mil reais, financiados pela Fundação Adib Jatene, o CNpQ e a Fapesp. O engenheiro estima que ainda será necessário por volta de R$ 300 mil para prosseguir com o trabalho. ?Estamos abertos a empresas que se interessem e queiram investir no dispositivo?, ressalta. Andrade enfatiza que trata-se do único projeto implantável heterotópico artificial no mundo. E tudo isso com um custo que chega a um décimo dos equipamentos parecidos desenvolvidos nos Estados Unidos, já que é feito com tecnologia nacional.
Para que o resultado da pesquisa seja apresentado mais rapidamente, a primeira aplicação do coração artificial funcionará somente para o ventrículo esquerdo. Posteriormente os estudos permitirão conectar os dois ventrículos. ?A maioria dos pacientes sofrem moléstia apenas nesse lado ou nos dois. Quase não existem casos de problemas só no lado direito?, informa Andrade. Na primeira fase o coração artificial funcionará como uma bomba de assistência ventricular. No Brasil já se utiliza este tipo de dispositivo, com funcionamento pneumático. ?Mas o paciente precisa ficar internado e passa o tempo todo deitado. Com o coração artificial implantado, a pessoa pode realizar atividades normais?, comenta o pesquisador.
Na verdade, o resultado melhora a qualidade de vida de pacientes com problemas cardíacos sérios e não reversíveis com tratamento clínico, que geralmente são indicados para transplante. Como muitas pessoas nesta situação não suportam muito tempo na fila de espera, o coração artificial ajuda a sobrevivência no período. Assim, o coração artificial destina-se ao uso denominado ?ponte para transplante?, pois, como explica Andrade, a solução definitiva é o transplante.

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