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Estudo: antirretroviral é eficaz na prevenção do HIV

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O estudo iPrEX – sigla para Iniciativa Profilaxia Pré-Exposição – avaliou a segurança e a eficácia do uso de um comprimido composto de duas drogas antirretrovirais na prevenção da infecção por HIV. Os resultados indicam que a Profilaxia Pré-exposição (PrEP) fornece proteção adicional significativa contra a infecção pelo HIV entre homens que fazem sexo com homens. A quimioprofilaxia pré-exposição (PrEP) consiste em utilizar o mesmo medicamento indicado no tratamento para a prevenção da infecção. O iPrEx é o primeiro grande estudo de eficácia da PrEP a ser realizado nessa população. É também o primeiro estudo clínico do HIV em larga escala a ser realizado em diferentes continentes.
Os voluntários eram todos adultos, com idade média de 24 anos, nasceram homens (1,2% são transgêneros) e apresentavam alto risco para a infecção pelo HIV (Foto: Cufa LGBT)
Trata-se de um estudo clínico de Fase 3 (um estudo multicêntrico, aleatório, em larga escala) criado para determinar se o uso diário de um comprimido combinado de duas drogas usadas para o tratamento do HIV – fumarato de tenofovir desoproxila 300 mg e emtricitabina 200 mg (FTC/TDF) – poderia prevenir de modo seguro e eficaz a infecção pelo HIV entre homens e mulheres trangêneras que fazem sexo com homens (HSH), os quais também recebem aconselhamento intensivo para sexo seguro, preservativos e o tratamento ou gerenciamento de infecções sexualmente transmissíveis (IST).
Os resultados do estudo, publicados nesta terça-feira (23) em artigo na revista New England Journal of Medicine, com o título Pre-Exposure Chemoprophylaxis for HIV Prevention in Men who Have Sex with Men, indicaram que a Profilaxia Pré-exposição (PrEP) com FTC/TDF, uma junção, em um único comprimido, de dois medicamentos: emtricitabina 200mg e Tenofovir 300mg, de nome comercial Truvada, forneceu proteção adicional de 43.8% aos participantes. Estes resultados são baseados em uma análise da intenção de tratamento modificada de todos os participantes – até mesmo se eles não tomaram o comprimido. O estudo envolveu ao todo cerca de 30 pesquisadores, além de 2.499 participantes voluntários, em seis países: Brasil, Equador, Peru, EUA, Tailândia e África do Sul.
O Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Ipec/Fiocruz) é um dos 11 centros no mundo onde o estudo intitulado iPrEX foi desenvolvido. No Brasil, além do Ipec, o Projeto Praça Onze da UFRJ e a Faculdade de Medicina da USP também participaram da pesquisa. Os voluntários eram todos adultos, com idade média de 24 anos, nasceram homens (1,2% são transgêneros) e apresentavam alto risco para a infecção pelo HIV. Eles eram orientados a tomar diariamente um comprimido contendo a medicação ou apenas placebo. Os participantes que relataram usar o comprimido em 50% ou mais dos dias tiveram 50,2% menos infecções pelo HIV. Aqueles que relataram usar a PrEP em 90% ou mais dos dias tiveram eficácia de 72,8%.
Esta análise de segurança e eficácia incluiu visitas dos participantes aos centros de pesquisa de 18 de junho de 2007 a 1º de maio de 2010. Ao todo, cem infecções pelo HIV foram registradas nesse período – 36 entre participantes que receberam a PrEP com FTC/TDF e 64 entre aqueles que receberam o placebo.
O estudo mostrou também que os níveis da droga estão fortemente relacionados com o efeito protetor: cada uma das infecções pelo HIV que ocorreram entre os participantes do estudo que receberam a PrEP com FTC/TDF ocorreram entre pessoas que tinham nenhuma droga ou níveis muito baixos da droga nos seus organismos quando a infecção foi descoberta. Isso indica que as pessoas que se tornaram HIV-positivas, apesar de estarem no braço da droga ativa do estudo, não estavam usando a PrEP regularmente. O uso do comprimido autorrelatado foi significantemente mais alto do que o uso do comprimido conforme medido por meio de exames de sangue.
O estudo iPrEX foi financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos através de uma subvenção aos Institutos J. David Gladstone, uma instituição de pesquisa independente sem fins lucrativos, filiada à Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF). Financiamento adicional foi fornecido pela Fundação Bill & Melinda Gates. A Gilead Sciences, a empresa que produz o Truvada (FTC/TDF) doou a droga e o placebo para o estudo, mas não participou do desenho nem da condução do estudo. O estudo conclui que a PrEP tem o potencial de ser um método de prevenção altamente eficaz quando combinado com intervenções padrão (aconselhamento para sexo seguro, acesso a preservativos e o tratamento ou gerenciamento de infecções sexualmente transmissíveis).
O resultado do estudo iPrEx tem potencial para repercutir fortemente na comunidade científica, que vive uma época de otimismo em relação à prevenção do HIV. Este é o terceiro estudo com resultado positivo de prevenção do HIV em 14 meses, e o primeiro com homossexuais, grupo mais fortemente afetado pela epidemia na América Latina.
Dados sobre segurança

Os resultados sobre segurança e resistência à droga também foram promissores. A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) foi considerada segura. Não houve diferença nos eventos adversos moderados e sérios ou nos exames laboratoriais entre aqueles que receberam a droga ativa ou o placebo (164 participantes desenvolveram um evento adverso moderado ou sério no braço do placebo, comparados aos 151 participantes, no braço de FTC/TDF). Efeitos colaterais, como náusea, perda de peso, aumento na creatinina sérica foram considerados leves e pouco frequentes.
Resistência
Os autores observaram a resistência à droga desenvolvida durante estudo foi pequena. Ninguém desenvolveu resistência ao TDF. Três participantes desenvolveram resistência ao FTC: um no braço do placebo, dois no braço da PrEP. Todos os três eram infectados pelo HIV no momento da inclusão.
Comportamento

O comportamento de risco para o HIV autorrelatado (o número de parceiros sexuais e a quantidade de relações sexuais sem o uso de preservativos que os participantes disseram ter) diminuiu em ambos os braços do estudo. Os autores do estudo consideram que é importante avaliar como o comportamento de risco pode ser alterado no futuro, a partir do conhecimento de que essa forma de prevenção fornece efetivamente alguma proteção.
Ingestão do comprimido

Os participantes do estudo iPrEx receberam extensivo apoio à adesão. O uso do comprimido auto-relatado foi alto em ambos os braços do estudo, mas o uso real do comprimido foi substancialmente mais baixo, conforme demonstrado pelo fato de que a metade do grupo de FTC/TDF não tinha traços da droga detectados em seu sangue.
Participação do Ipec/Fiocruz no estudo iPrEX
No Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Ipec/Fiocruz) foram incluídos 200 voluntários no protocolo de pesquisa entre outubro de 2008 até novembro de 2009. O acompanhamento dos participantes se estendeu até novembro de 2010.
Apesar do cenário promissor trazido pelos resultados da pesquisa, a investigadora principal do estudo no Ipec, a infectologista Valdiléia Veloso, faz questão de ressaltar que os resultados da pesquisa não implicam de maneira nenhuma no abandono do uso da “camisinha”. “O preservativo ainda é a estratégia mais eficaz de prevenção da transmissão do HIV. É provável que no futuro nós tenhamos uma cesta com diferentes opções de ferramentas de prevenção complementares. As pessoas, a exemplo do que acontece com o uso dos anticoncepcionais, poderão escolher a forma de prevenção pesando vantagens e desvantagens para sua situação particular”, afirma a pesquisadora.
A coordenadora clínica do protocolo iPrEX no Ipec, Brenda Hoagland, considera o estudo um avanço importante: “O estudo foi realizado com o grupo mais vulnerável da pandemia – os homens que fazem sexo com homens”, afirma a médica. No Ipec estão em andamento atualmente outros sete estudos em HIV/Aids que fazem parte de diferentes redes internacionais. As pesquisas abordam segurança e eficácia dos esquemas antirretrovirais, definição de melhores esquemas de tratamento, testes diagnósticos mais sensíveis para co-infecções como a de tuberculose e prevalência de DST, entre outros temas.
Próximas etapas

Os autores do iPrEX declaram que resultados do estudo atual não podem ser extrapolados para além dos HSH. Outros estudos de PrEP estão sendo realizados com diferentes comunidades em risco e devem continuar.
O grupo de pesquisadores deixa claro também que a PrEP por via oral não previne doenças sexualmente transmissíveis como a gonorréia, clamídia, hepatite B, verrugas genitais e sífilis. Homens que fazem sexo com homens e devem ter atenção médica regular, usar preservativos e ser vacinados contra o HBV. Relata, ainda que a vacina contar outro vírus, o HPV, pode ajudar a proteger os homens do desenvolvimento das verrugas genitais e do câncer anal.
Outros estudos clínicos da PrEP estão acontecendo em todo o mundo entre diferentes grupos de pessoas com risco de infecção pelo HIV, incluindo homens e mulheres heterossexuais, casais sorodiscordantes (nos quais um parceiro é HIV-positivo e o outro, não), usuários de drogas injetáveis e HSH. Estudos de PrEP atuais ou planejados envolvem quase 20 mil participantes.
Publicado em 23/11/2010.
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