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Do Beco dos Sapos ao futuro pós-capitalismo

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Em 1844, a jornada de trabalho nas fábricas inglesas, animadas pelo espírito da revolução industrial, não raro chegava a 15 horas. A expectativa média de vida mal superava os 20 anos naquela época. É neste contexto, que reflete o capitalismo rude e selvagem dos primórdios da industrialização, que 28 tecelões de Rochdale, Inglaterra, decidiram unir suas forças, em busca de um cenário diferente de vida.

Eram chamados, ironicamente, de “loucos do Beco dos Sapos”. O que eles começaram, contudo, tinha uma base tão forte, que, semelhante às pirâmides, enfrentaram o calor, o vento, o frio e a chuva, sem perder seu foco e suas esperanças iniciais.

Como disse o escritor Monteiro Lobato, em ?Mundo da Lua”, “tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira – mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum”.

O cooperativismo cresceu em ritmos diferentes pelo mundo afora. Mais em países europeus, menos na América Latina. Mas, do Brasil, legou ao mundo a maior e mais bem-sucedida cooperativa médica de trabalho.

Não recebeu apoio especial; ao contrário, as boas colheitas do cooperativismo vêm de suas qualidades intrínsecas, que superam as dificuldades, os óbices que lhe atrapalham o caminho. São seus fundamentos: humanismo, liberdade, igualdade, solidariedade, racionalidade.

Esses fundamentos promovem a intercooperação, a resposta às angústias do período pós-capitalista em que vivemos.

Não tenham dúvida de que a grande crise dos últimos meses, global e intensa, é mais do que um sacolejo no capitalismo. Cevada pela falta de regulação dos mercados financeiros, e por inesgotável apetite pelo lucro fácil e imediato, provoca perplexidade, medo e muitas reflexões.

Grandes choques têm o poder de estancar um processo que se julga intermitente, e de abrir janelas para, no mínimo, reavaliações. Isso já ocorreu com o capitalismo nascente da Revolução Industrial. E com o mundo após a Primeira Guerra Mundial, devastado pelo crack da Bolsa de Nova York, em 1929.

Coincidentemente, já passamos pela frustração da bolha da Internet, e, 80 anos depois do começo da grande depressão norte-americana, estamos às voltas com nova crise sistêmica que foi fomentada pela ciranda financeira mundial.

Há desafios, contudo, que já ocorriam antes desta crise mais recente, e que permanecem: como gerar empregos para os que ingressam no mercado? Como partilhar as conquistas da medicina com todos, em todo o mundo? Como fomentar o desenvolvimento sustentável, reduzindo o impacto da devastação ambiental?

Nestes pontos de inflexão, voltamos, de imediato, à inovação dos tecelões de Rochdale. Aos valores do cooperativismo, que têm sido experimentados, testados, há 165 anos. À difícil, mas possível e desejável, conciliação da repartição dos resultados, com a liberdade de expressão e de associação. Que só se verifica, plenamente, na vida cooperativa.

Chegamos, como diz o professor e escritor Ladislau Dowbor, ao paradigma da colaboração, que pode substituir o individualismo e a competição, bases do capitalismo.  Uma tarefa que, para nós, cooperativistas, é um compromisso, uma missão, em nada facilitados pelo tratamento tributário e fiscal, nem pela judicialização da medicina, no caso das cooperativas de trabalho médico. Muito menos pelas excessivas regulamentações e intervenções em nossas atividades, que demonstram o desconhecimento de nossa natureza precípua.

Neste mês de julho, em que se comemora o Dia Mundial do Cooperativismo, lembremo-nos de que, em 2008, as cooperativas brasileiras responderam por cerca de 7% do Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB). Exportaram US$ 4 bilhões, e geraram 254 mil empregos. Segundo a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), havia, no ano passado, 7.682 cooperativas, com 7,8 milhões de associados, e 32 milhões de brasileiros dependentes da cooperação como instrumento de inserção e ressocialização.

Números expressivos que podem, com ambiente propício, ser amplamente multiplicados. Basta confiar que nada, absolutamente nada, resiste ao cooperativismo e ao trabalho. Ou, como disse Lobato, “a coisa que menos me mete medo é o futuro”.

*Eudes de Freitas Aquino é presidente da Unimed Brasil

As opiniões dos artigos/colunistas aqui publicadas refletem unicamente a posição de seu autor, não caracterizando endosso, recomendação ou favorecimento por parte da IT Mídia ou quaisquer outros envolvidos nesta publicação.

 

 

 

 

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