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Crédito e juros: de vento em popa

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Em outubro, pelo quarto mês consecutivo, as operações de repasse do BNDES, intermediadas pelos bancos (que atuam como agentes financeiros), cresceram num ritmo surpreendente (em torno de 40% a.a. em termos reais frente ao mesmo mês do ano anterior, especificamente 39% em julho, 44% em agosto, 40,6% setembro e 40,4% em outubro), de acordo com os dados divulgados hoje pelo Banco Central do Brasil. Em contrapartida, a taxa real de expansão das operações diretas, concedidas diretamente por essa instituição, desacelerou fortemente, de 38% em junho para um patamar de 14% entre julho e outubro. O efeito líquido sobre o desempenho dos empréstimos totais do BNDES foi também uma perda de ritmo, mas bem mais tênue (sempre em termos reais, de 35,6% em junho para o patamar de 25% entre julho e outubro).
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Essa inversão no dinamismo das duas modalidades de crédito do BNDES constitui mais uma evidência do papel anticíclico desse banco de fomento após o efeito-contágio da crise global sobre a economia brasileira, que exigiu a expansão dos desembolsos diretos num contexto de elevada aversão ao risco dos bancos privados nacionais e estrangeiros. Isto porque, as instituições privadas, que atuam como intermediários de algumas linhas de crédito do BNDES, contraíram não somente o crédito com recursos livres (concedido voluntariamente, a taxas de juros livremente pactuadas), mas também os repasses, já que assumem o risco de crédito dessas operações. Em 2010, com a aceleração do crescimento doméstico, esses bancos, que agem de maneira pró-cíclica, aumentaram a oferta das duas modalidades de crédito para as empresas (recursos livres e repasses).
De junho a outubro, as operações com recursos livres para pessoas jurídicas também ganharam impulso (passando de uma taxa de 4,9% para 8,7%), mas chama atenção seu patamar bem menor de crescimento em relação às operações de repasse (40,4% em outubro). O maior dinamismo dessas operações está associado a vários fatores, dentre os quais a recuperação do investimento (e, assim, da demanda por recursos de médio e longo prazo), suas condições de prazo e custo mais favoráveis, bem como o seu menor grau de inadimplência (seja porque somente devedores com boa classificação de risco de crédito tem acesso aos recursos do BNDES, seja porque as empresas fazem o que for possível para honrar suas dívidas com essa instituição e, assim, manter seu acesso à virtualmente única, até o momento, fonte doméstica de financiamento de longo prazo).
Consequentemente, a taxa de crescimento das operações de crédito para pessoas jurídicas (incluindo recursos livres e direcionados, nos quais predomina os empréstimos do BNDES), acelerou nos últimos meses, passando de 12,6% em julho para 14,9% em outubro. Com isso, nessa base de comparação, essas operações voltaram a ser mais dinâmicas do que aquelas concedidas para pessoas físicas a partir de setembro (+13,6% em outubro). Considerando o total das operações de crédito, o crescimento real foi de 14,3%, a maior taxa desde agosto de 2009.
Do ponto de vista setorial, o crédito às empresas continuou expandindo num ritmo mais intenso nos setores terciários (Comércio e Outros serviços – percentuais de, respectivamente, 19,4% e 15,4%, respectivamente). Contudo, enquanto nesses setores esse ritmo se manteve estável desde julho, na indústria ele registrou forte e sucessiva aceleração (de 3,3% a.a em junho para 12,6% em outubro), o que evidencia a retomada do crédito para o setor, tanto para investimento como para capital de giro.
Finalmente, é importante destacar o recuo, mesmo que pequeno, da taxa de juros do crédito para pessoas jurídicas (de 29% a.a. para 28,7%), após cinco altas sucessivas (que resultaram num aumento de 2,7 p.p. de abril até setembro), associado à redução do spread (de 18,4 p.p. para 18,1 p.p), já que a taxa de captação ficou estável em 10,6%. Em contrapartida, nas operações contratadas pelas famílias, o custo médio dos empréstimos elevou-se 1 p.p., atingindo 40,4%., movimento explicado pela redução da participação relativa do crédito consignado no segmento. Já a taxa de juros média das modalidades que compõem o crédito referencial situou-se em 35,4% a.a., um acréscimo de 0,3 p.p. no mês.
Resultados Gerais. O crédito bancário manteve tendência de expansão em outubro, crescimento impulsionado pelo aquecimento sazonal dos negócios associados às vendas de fim de ano. O crescimento permaneceu mais intenso no crédito direcionado, que segue impulsionado pelas operações vinculadas ao BNDES e à habitação. O saldo total das operações de crédito do sistema financeiro alcançou R$1.644 bilhões, ao avançar 1,9% no mês e 20,3% em doze meses. A relação crédito/PIB subiu para 47,2%, comparativamente a 46,7% no mês anterior e a 44,6% em outubro de 2009. A distribuição do crédito segundo o controle de capital das instituições financeiras permaneceu relativamente estável em relação ao mês anterior (a participação dos bancos públicos ficou em 40,6%, dos bancos privados nacionais em 41,9% e das instituições estrangeiras em 17,5%).
As operações com recursos direcionados totalizaram R$565,9 bilhões, com expansões de 2,8% no mês e de 30% em relação a outubro do ano passado. Esse desempenho continua vinculado à evolução acelerada dos financiamentos habitacionais e do BNDES, cujos saldos situaram-se, respectivamente, em R$122,5 bilhões e em R$347 bilhões. O crédito habitacional atingiu R$122,5 bilhões, com evolução mensal de 3,1%.
Entre as modalidades do crédito referencial para taxas de juros, os financiamentos para aquisição de veículos sustentaram seu crescimento acelerado, com evolução de 3,7% no mês e de 44,4% em doze meses, alcançando saldo de R$130,1 bilhões. O crédito pessoal expandiu 1,6% no mês e 23,7% em doze meses. Já as operações destinadas a pessoas jurídicas avançaram 1,7% no mês e 23,6% em doze meses. Por sua vez, os empréstimos lastreados em recursos externos elevaram-se 1,2% no mês, desempenho associado aos efeitos contábeis da apreciação cambial no período e a liquidações de operações de repasses externos.
Inadimplência. A inadimplência do crédito referencial, considerados os atrasos superiores a noventa dias, manteve-se estável, situando-se em 4,7%, evidenciando, entretanto, recuo de 1,1 p.p. na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Os níveis de atraso nos segmentos de pessoas físicas e jurídicas permaneceram também estáveis em 6% e 3,5%, respectivamente.
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