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Artigo: Interiorização de médicos requer competência, não fórmulas mágicas

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Há alguns dias, surgiu uma idéia de se implantar no Brasil uma espécie de serviço civil obrigatório. Na área da saúde, teria o objetivo de fazer com que os formados em instituições públicas passassem um período de sua vida profissional em regiões mais distantes. Segundo os mentores da idéia, seria uma forma de combater a falta de médicos em localidades carentes e isoladas. A idéia não tem consistência alguma e certamente não é o caminho para a interiorização dos médicos. Hoje, o que se deve discutir em primeiro lugar é como formar o médico, como educar, o que é mais importante do que apenas transmitir informação. O recém-formado precisa aprender a elaborar o próprio conhecimento, cultivar a relação médico-paciente e o humanismo, o que somente é possível pela testemunha da presença do professor à beira do leito e no ambulatório.
O ensino à distância, tão apregoado nos dias de hoje, não se aplica ao recém-formado, pois ele precisa desenvolver a ética, habilidades e atitudes, e isso somente é possível ao lado de quem sabe, no hospital e no ambulatório.
Há três anos a Comissão Nacional de Residência Médica criou a possibilidade de médicos residentes fazerem estágio optativo em regiões fronteiriças. Com supervisão constante, é bom registrar. O intuito é garantir para estes locais equipes disponíveis continuamente, com especialistas de várias áreas e renovadas periodicamente.
Além de técnica, esses residentes ganhariam experiência de vida e seriam sensibilizados aos problemas sociais do País, o que representaria importante diferencial na prática médica em qualquer lugar que ela venha a ser exercida. O problema é que a resolução ainda não foi contemplada na prática, como deveria, pois na época custaria R$ 3 por dia e por médico residente. É preciso que esta resolução torne-se uma política de governo.
A proposta que agora é colocada em discussão não se compara à da Comissão de Residência Médica. Na maioria, o recém-formado não tem capacidade para tratar pacientes sem orientação contínua. Em seis anos de curso médico regular, os estudantes infelizmente não recebem o treinamento necessário para o exercício da medicina.
Outra propositura equivocada, que aparece nesse momento, advoga que o recém-formado poderia ganhar bagagem, já que, com a tecnologia hoje existente, não ficaria desamparado. Jamais a tecnologia será eficiente sem uma boa formação médica, além do que, há falta da tecnologia nos locais mais afastados.
Ora, a tecnologia tem grande utilidade em outro estágio, não para ensinar o médico a clinicar, e em particular o recém- formado. A relação do médico com o paciente, o raciocínio clínico fundamental para o diagnóstico, a rapidez para perceber que um tratamento não surte o efeito adequado são adquiridas no dia-a-dia, na medicina à beira do leito e nos ambulatórios.
Aliás, medicina é vivência, é presencial. Tecnologia pode ser complemento, mas quem dita as normas da boa prática é a humanização, o contato com os pacientes. É assim que deve ser a medicina hoje e sempre.
Claro que os recursos tecnológicos são grandes aliados na assistência à saúde. Porém, volto a dizer, é mister colocar em primeiro plano, em toda e qualquer hipótese, a visão humanística. Nesse sentido é importante frisar que o computador ensina, mas não educa, o que é fundamental na medicina.
Temos de irradiar a cultura de que é essencial tratar o doente e não apenas a doença que o acomete. O médico que é bom médico tem de acompanhar o paciente sempre. Vivemos tempos de grande avanço tecnológico, mas nada é mais importante do que o médico que tem nome e rosto e que conhece o nome e o rosto do paciente. Não podemos aceitar que pessoas sejam tratadas como o doente do quarto 32, do quarto 48, do 112.
Podemos, tenha certeza, promover uma reviravolta muito positiva na saúde do Brasil. Podemos também tornar viável a interiorização e solucionar o problema da falta de assistência em regiões distantes, com competência. Contudo não será com fórmulas mágicas. É preciso investimento nos processos de fixação e qualificação permanente, além de incentivo para que os médicos atendam à essa demanda importante.

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