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Artigo: A Tecnologia, o Médico e o Medo

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Tradicionalmente olhamos para os médicos como cientistas que têm uma consideração alta por fatos e dados. Certamente que isso é uma verdade. Todavia por trás dessa evidência existe uma rejeição natural de grande parte dos médicos por qualquer ?informação? que rivalize com sua ?visão? da realidade. Quando isso ocorre, normalmente adicionam algum nível de
racionalização ou contextualização no problema de forma a neutralizar o poder da tecnologia.
Muitos são os motivos para isso, mas o principal sem duvida é o medo. Jeff Miller, um dos mais importantes Managers da Hewlett-Packard (HP) na área de Saúde, avaliou recentemente que a redundância e a ineficiência respondem por 25% a 40% dos 3,3 trilhões de dólares que o mundo gasta em saúde, e que isso poderia ser eliminado com a intensa utilização das tecnologias de informação médica.
A publicação americana Health Affairs, junto com o Centre for Information Technology Leadership, em Boston, publicou pesquisa mostrando que a interoperabilidade do prontuário digital do paciente, bem como a sua intensa utilização pelos médicos, resultaria numa redução superior a 77 bilhões de dólares por ano nos custos dos EUA com a Saúde. Ótimo, se por outro lado a mesma pesquisa não mostrasse que 95% da rede de médicos públicos e privados do país continua a utilizar o papel como forma de registro clínico.
Como se pode ver, o coro uníssono de que “a medicina não é um livro de receitas” não é exclusividade de brasileiros. Esse é um problema mundial, mas… datado.
Existem sensíveis avanços ocorrendo em muitos países. Na Inglaterra, 98% dos clínicos gerais, também chamados de médicos de família (general practitioners), têm computadores em algum lugar de seu ambiente pessoal de trabalho. Mais que isso, segundo a NHS, 30% reivindica um ambiente de trabalho hospitalar ?paperless?, onde as tecnologias de informação médica substituam o papel.
A conclusão é dupla: (1) em pouco tempo não haverá espaço para qualquer profissional de Saúde que renegue a utilização do computador como ferramenta pessoal de trabalho, e (2) as novas gerações, totalmente afinadas com o ?tal do mouse?, vão utilizar essas ferramentas tanto quanto o estetoscópio. Se o motivo não for para auxiliar sobremaneira o seu trabalho, será porque os custos mostram que a medicina queimou as pontes ao optar pela intensa utilização da tecnologia de informação.
E onde ?moram? as resistências? Qual o topologia do medo?
Segundo o Dr. Marcus Lira Brandão, professor de Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto, ?o medo é uma reação adaptativa do meio, na medida em que faz com que o animal se proteja das ameaças do ambiente?.
O medo mais comum na utilização da informática pelos médicos, segundo Alan P. Marco, Master of Medical Management da Carnegie Mellon University, é aquele inerente a todo o ser humano: o medo de errar, ou, em outras palavras, o medo de ?descobrir que descobriram o erro?.
Os dados, as informações e os fatos gerados pelo controle apurado das informações clínicas é um espelho revelando constantemente que os médicos, como todos nós, também erram. E erram muito. Recentemente o jornal The Economist fez uma comparação atrevida, baseada em dados, informando que nos EUA o número de vitimas de erros médicos pode ser comparado ao numero de vitimas da ?colisão de dois 747s por dia?.
O problema não pára na visão do erro. Outro medo comum está ligado à vaidade e ao confronto de que a tecnologia de informação possa ameaçar a sua capacidade de gerar suposições e percepções. Isso o leva a um sentimento obscuro, que na melhor das versões desafia o seu papel de líder.
Todas essas reações têm explicações históricas. Até o século XIX o médico era um ?cuidador?. Sua formação acadêmica estava voltada em moldá-lo como tal, de forma a tratar a doença com os meios possíveis e esperar que Deus processasse a cura. Dessa época vem a famosa frase de Ambroise Pare: “Eu o tratei, e Deus o curou”.
continua…
A partir do século XX, aos poucos, a sua formação veio sendo direcionada para as competências de um ?curador?, ou seja, caberia a ele ser o interventor capaz de curar as moléstias. Seguindo nessa mesma direção, a responsabilidade do médico perante a sociedade cresceu, o que mistificou o seu papel perante o paciente (e às vezes perante ele mesmo), tornando-o algo completo, isento de falhas, imune a erros e caracterizado como uma ?entidade salvadora?.
Erraram os dois lados, afinal o médico é um ser humano como todos nós e, portanto, susceptível aos erros, e a sociedade secularmente é uma exploradora tenaz de qualquer processo que a exima da culpa de não se prevenir das doenças.
Todavia, nos últimos 30 ou 40 anos, com a descoberta da penicilina e o avanço da terapêutica medicamentosa, foi ocorrendo à migração do papel divino de curar para o papel de médicoconsultor. Aquele que orienta, que acompanha, que estimula, que previne e que ?entende a dor?.
A sociedade por sua vez, também lentamente, vai percebendo que o salvador não existe e que o médico, as tecnologias, a sua própria conscientização e o poder público é que vão ajudá-la a vencer os desafios da Saúde.
Se pelo lado da capacidade de resolver a tudo e agradar a todos a prática médica perdeu, pelo lado humanístico o seu papel cresceu e vem sendo avaliado de forma positiva pela sociedade cientifica. Isso deveria ser um fator de alívio para o médico.
A medicina vai se tornando, antes de tudo, uma prática humanística e holística. A criação de uma consciência ética e humanista, enlaçada ao desenvolvimento das competências cognitivas e emocionais, está trazendo o médico para perto do ?suporte a cura?, e não para a cura em si. Como diz a Dra. Izabel Cristina Rios num recente artigo: … ?o médico atual não é mais o detentor de um saber guardado em si; é cada vez mais aquele que deve fazer a mediação desse saber junto à sociedade?.
Hoje, o conhecimento de um profissional de Saúde surge do seu grau de assimilação das informações disponíveis e da sua experiência acumulada ao longo dos anos. A tecnologia está no palco para turbinar esse conhecimento e aliviar as cobranças da sociedade. O poder desse conhecimento no trato com a doença é conhecido mais comumente como “medicina baseada em evidências (MBE)”, e vem sendo sistematizado pela comunidade médica mundial desde sua introdução em 1992.
A tecnologia avança a passos rápidos e, em geral, os profissionais acima de 45 anos têm dificuldade em usar os novos instrumentos de comunicação (como por exemplo, a WEB). A intimidação diante dos avanços tecnológicos cria barreiras cada vez mais difíceis para o próprio médico. Uma menina de 11 anos de idade que vai com os pais a um ginecologista, na véspera, já varreu a Internet de ponta a ponta atrás das informações sobre o ciclo menstrual. Sabe o que vai ouvir, sabe o que vai perguntar ao médico, sabe o que não vai ser dito na frente dos pais e saberá se o médico é ou não confiável.
A revista Business Week publicou uma matéria há dois anos atrás em que questionava de forma provocativa: …?até onde vamos precisar dos médicos?? A resposta é inequívoca: sempre. A importância da medicina cresceu nos últimos anos de forma exponencial, na mesma proporção em que cresceram as endemias, as epidemias, o perigo das pandemias e, principalmente, na mesma proporção em que cresceu a tecnologia e as modernas técnicas de diagnóstico e dos mecanismos terapêuticos.
Só é necessário avisar aos médicos, bem como aos demais profissionais de saúde, de que todos nós compreendemos os seus medos e ansiedades, que afinal não são diferentes dos nossos. O problema é que não podemos esperar que a discussão inócua sobre o uso ou não do computador se eternize. Temos pressa.
Um professor se irrita quando é contratado por uma escola que não possui um computador para apoiá-lo. Na outra ponta, de forma imperial, o médico se irrita quando o hospit

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