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Alta do dólar mexe com as operadoras de saúde

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A alta do dólar vai mexer com as operadoras de planos de saúde e, consequentemente, com o consumidor. É que os insumos para laboratórios e para as cirurgias são importados. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), Arlindo de Almeida, a crise também pode diminuir a quantidade de usuários das operadoras. “Se houver demissões, haverá redução do número de usuários nas carteiras das empresas e receita, com certeza será afetada. Isso não é nada bom para as operadoras.
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Para o presidente da Abramge, a saúde pública no Brasil sofre, cronicamente, com a falta de investimentos. “E a crise veio agravar ainda mais o segmento com alguns cortes nesses recursos”. Segundo Almeida, é raro encontrar alguém que tenha realizado cirurgias de alta complexidade, transplantes ou neurocirurgias pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e que tenha ficado insatisfeito. “São procedimentos feitos no Instituto do Coração (InCor) e Hospital das Clínicas, por exemplo, e pelos melhores profissionais possíveis”. Mas o problema, segundo Almeida, está na dificuldade de a pessoa chegar lá. O usuário passa por um longo e difícil caminho até conseguir uma oportunidade.
Sobre a portabilidade das carências nos planos de saúde, Almeida conta que a nova regra facilitará a vida do usuário. “Os novos planos já têm uma cobertura definida. Existe uma padronização. Será fácil a pessoa entender seus direitos. Nos contratos antigos, o tempo de internação, exames complexos e neurocirurgias eram limitados, e isso hoje é proibido.
Investnews – Quais são os principais problemas dos planos de saúde no Brasil?
Arlindo de Almeida – As operadoras de planos de saúde, na área de medicina de grupo, principalmente, eram prestadoras de serviços. Empresas com hospitais, laboratórios e prontos-socorros próprios. O lucro era aplicado na melhoria dos serviços de internação e atendimento ao cliente. Com a regulamentação, as empresas tiveram de fazer reservas técnicas e financeiras, mexendo com a atividade. Por outro lado, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) fez várias exigências, complicando ainda mais a situação.
Outro problema, mas em relação ao consumidor, são os planos antigos. As empresas podiam fazer contratos com liberdade de cobertura. Após a regulamentação, houve uma padronização da parte de atendimento. O consumidor agora tem dificuldade de entender os planos antigos. Ele quer os benefícios dos contratos novos, das novas regras. Muitos, no entanto, não quiseram migrar para os planos novos, porque mesmo pagando menos, há restrições. Isso causa problemas junto ao poder judiciário, que muitas vezes é instigado a se manifestar e acaba obrigando as operadoras a cumprir determinadas coberturas que não estavam previstas naqueles contratos antigos.
Investnews – As novas regras são mais fáceis para o consumidor?
Arlindo de Almeida – Sim. Os novos planos possuem cobertura definida. Existe uma padronização. O consumidor tem facilidade para entender os procedimentos a que tem direito. Já nos contratos antigos, o tempo de internação, exames complexos e neurocirurgias eram limitados, o que agora é proibido.
Investnews – Como é a situação no Exterior?
Arlindo de Almeida – No Exterior há um pouco mais de liberdade. O grande exemplo são os Estados Unidos, mas lá também há limitação. Eles não são obrigados a atender qualquer pessoa com determinado tipo de patologia. No Brasil não se pode discriminar.
Mas nos Estados Unidos cada estado tem uma lei. Na Europa, os sistemas públicos são sempre predominantes, então os planos de saúde atendem pessoas com situação financeira mais alta ao contrário do Brasil. Aqui, os planos surgiram para atender o trabalhador e seus familiares. Quando as multinacionais e montadoras vieram para cá na década de 60, havia uma necessidade de atender esses trabalhadores para que eles mantivessem a produtividade necessária para a indústria.
Para se ter uma idéia, quase 80% dos planos que existem são coletivos, e atendem o trabalhador e seus familiares. O restante são planos individuais e familiares para pessoas com poder aquisitivo mais elevado.
Investnews – A crise vai afetar ou já afetou esse setor?
Arlindo de Almeida – Isso depende muito do número de demissões. Como os planos coletivos têm grande influência, se houver demissões o número de usuários do sistema deverá cair. Outro problema está nos insumos importados. Como os laboratórios e cirurgias se utilizam de produtos pagos em dólar, a alta da moeda, com certeza, afetará os custos dos planos de saúde.
Investnews- As operadoras terão prejuízo com a Resolução nº 186, da ANS, que trata da portabilidade de carência dos planos de saúde?
Arlindo de Almeida – O nome correto seria migração com portabilidade, já que uma pessoa pode migrar para outro plano levando as carências que já cumpriu. Essa é uma equação complicada de ser resolvida. Não se pode admitir que a pessoa “pague pedágio” em uma operadora, que seria a parte de carências, e, de repente, vá para outra operadora levando somente a patologia. Para o beneficiário é muito bom, mas a recíproca não é verdadeira.
Há necessidade de evitar o oportunismo dos usuários. Muitas pessoas podem comprar um plano barato e, quando tiverem uma patologia grave, migrar para um plano com hospitais de primeira linha com custos muito mais altos, como o Albert Einstein e o Sírio Libanês, eretornando depois para planos mais baratos. Por isso, a ANS determinou que o usuário tem que permanecer por dois anos em um plano para poder alterá-lo. Ou três anos, em caso de doenças preexistentes.
Investnews – Qual foi o principal objetivo da resolução?
Arlindo de Almeida – A resolução pretende trazer benefícios para o consumidor, no que diz respeito à sua movimentação dentro do sistema. As pessoas mais idosas, por exemplo, insatisfeitas com seus planos de saúde podem, agora, dentro das novas regras da ANS, migrar para outra empresa sem cumprir todas as carências, evitando ficar reféns das empresas. Principalmente aquelas pessoas que não podem parar o trratamento.
Investnews- A ANS tem poder de criar essa resolução ou isso cabe ao governo?
Arlindo de Almeida – Há uma discordância a esse respeito. A ANS julga que sim. É um problema mais técnico do que operacional. Mas a portabilidade faz parte do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), portanto, não seria difícil para o governo emitir uma Medida Provisória, que tem valor de lei e resolveria o problema. Isso não tem muita importância já que o mérito da questão é o atendimento ao cliente.
Investnews – A portabilidade vai ser boa para o usuário?
Arlindo de Almeida – Sem dúvida. Apesar de o número de pessoas descontentes com os planos de saúde ser pequeno. Alguns usuários têm relação de confiança com hospitais e médicos e, quando esses profissionais se descredenciam, os usuários querem migrar para continuar o tratamento com determinado profissional.
Investnews- As operadoras de plano de saúde têm conflitos com hospitais e clínicas?
Arlindo de Almeida – Um plano de saúde opera, essencialmente, com trabalhadores e seus dependentes. Há necessidade, portanto, o preço pago aos hospitais, médicos, laboratórios seja limitado a um valor inferior ao de uma consulta particular. Não como negar que há conflito entre os médicos e os hospitais que querem receber mais do que as operadoras podem pagar.
Mas a maioria das operadoras já têm seu corpo clínico definido e há um bom relacionamento. Se não fosse assim, o plano não poderia funcionar, já que há uma dependência direta da operadora com o médico e o hospital, dos quais o cliente se serve.
Investnews – As operadoras de plano de saúde investem cada vez mais em hospitais e clínicas próprias. Qual a vantagem disso para o consumidor?
Arlindo de Almeida – A principal vantagem é que os custos ficam mais previsíveis e é possível trabalhar com preços menores. Com hospitais próprios, as operadoras têm o prontuário do paciente, no qual consta toda a história do usuário. Isso é fundamental. O prontuário é acessível a todo corpo médico. O cliente prefere ter a livre escolha, mas aí ocorre a fragmentação do atendimento.
Com serviços próprios é possível mapear sua população da carteira e saber a quantidade de hipertensos, diabéticos, cardíacos etc. A partir daí, podem se programar ações preventivas. A medicina preventiva é uma das necessidades urgentes. Deve ser implantada rapidamente pois é muito mais fácil prevenir do que remediar.
Investnews – O que pode ser feito para resolver os problemas da saúde pública no Brasil?
Arlindo de Almeida – No ano passado, o Sistema Único de Saúde (SUS) completou 20 anos. Nesse período, o SUS teve vantagens evidentes, mas há uma dificuldade muito grande quanto à porta de entrada no sistema. É difícil encontrar alguém que fez no uma cirurgia de alta complexidade, transplante ou neurocirurgia no SUS e que não esteja satisfeito. Isso porque são procedimentos feitos no Instituto do Coração (InCor) e Hospital das Clínicas, por exemplo, e pelos melhores profissionais possíveis. O problema é a dificuldade de se chegar até lá passando pela porta de entrada. Para pessoa chegar a realizar procedimentos assim tem que percorrer um logo e difícil caminho.
Por outro lado, o SUS se interessou por temas de extrema importância, como saneamento básico, tratamento de vetores, que são os mosquitos que transmitem doenças, controle da qualidade de alimentos. Uma série de fatores que propiciou o aumento da expectativa de vida do brasileiro e a diminuição da mortalidade infantil. Digamos que no atacado o sistema público cumpre seu papel. Já para o acesso é complicado, porque foi um sistema feito para contar com recursos federais, estaduais e municipais. Há locais em que o SUS funciona muito bem, já em outros, deixa a desejar, porque depende da vontade política do prefeito ou da Câmara Municipal,
Investnews – Quais as expectativas para a saúde pública e privada em 2009?
Arlindo de Almeida – A saúde pública sofre, cronicamente, com a falta de investimentos. Com a crise, houve alguns cortes nesses recursos. A área privada também depende do desenvolvimento da crise. Se houver muitas demissões, o número de usuários cairá, reduzindo a receita e acarretando problemas para as operadoras de planos de saúde.

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