Referências da Saúde Quem foram os premiados da edição 2016? Confira agora

A Eficiência da Medicina Laboratorial no Contexto Assistencial

Publicidade

Sabemos que a Medicina Diagnóstica é responsável por cerca de 70% das decisões médicas e absorve em torno de 10% dos custos em saúde; e está presente virtualmente em todos os protocolos e guidelines clínicos e em praticamente todas as especialidades médicas.
A boa utilização da Medicina Laboratorial, isto é, o uso racional da informação gerada das análises realizadas pelos diversos laboratórios disponíveis no mercado, é ponto chave para racionalização dos custos e também para a busca por resultados na cadeia de saúde. Segundo Porter1, essa busca por resultados deve ter como direcionadores a prevenção; o diagnóstico precoce e correto; o tratamento precoce, correto, menos invasivo e na causa da doença; foco no paciente certo; maior velocidade entre diagnóstico e tratamento; menor número de erros, complicações e repetições; um número menor de eventos agudos, seqüelas e reincidências; recuperações mais rápidas e menor necessidade de tratamentos em longo prazo.
Em termos de utilização de exames laboratoriais no processo assistencial de saúde, Walraven et al.2 estudaram um número significativo de exames e demonstraram que 73,5% destes encontravam-se dentro do valor de referência proposto e que de pacientes admitidos em um pronto-atendimento hospitalar e submetidos à dosagens laboratoriais, 21,7% haviam realizado a mesma dosagem em âmbito ambulatorial na semana anterior à hospitalização e 40% e 62,7% em 3 meses e 1 ano, respectivamente. Neste mesmo artigo, fontes citadas como Branger et al. demonstraram que 38% dos exames laboratoriais são repetidos dentro de um prazo de 8 meses e segundo Bates et al., 28,2% dos testes de rotina repetidos foram repetidos sem necessidade.
Ainda no ambiente hospitalar, excetuando as Unidades de Terapia Intensiva (UTI), 27% dos testes bioquímicos solicitados haviam sido realizados no dia anterior.
Dados da Associação Nacional dos Hospitais Privados 3 (ANAHP) demonstram uma média de 26 exames por internação hospitalar. Para a  Agência Nacional de Saúde Suplementar4 (ANS), no ano de 2008, os gastos com exames representaram 20,9% dos gastos totais das operadoras da saúde com frequência média de utilização entre os anos de 2002 e 2007 variando entre 8,9% e 12,6%.
Poley et al.5 estudaram 27 laboratórios europeus e demonstraram redução de 3% nos custos com exames laboratoriais por meio de utilização de sistemas de suporte à decisão baseado em protocolos previamente definidos.
Certamente conhecemos alguém que teve seu período de internação prolongado devido à espera de um resultado de exame. Com foco na velocidade entre o diagnóstico e o tratamento, Holland et al.6 demonstrou a relação entre o tempo total de liberação de resultados (TAT – Turn Around Time) e o impacto na diminuição do tempo médio de atendimento em pronto-socorro. Segundo os autores, uma baixa performance do laboratório que acarreta atrasos nos resultados dos exames é um impedimento para a otimização dos cuidados assistenciais.Para Howanitz et al.7 o indicador de tempo de liberação de resultados (TAT – Turn Around Time) é um atributo estratégico do laboratório e tempos de reporte de resultados longos resultam em duplicação de solicitações de exames e aumento dos custos.
Na busca por resultados em saúde, referente à diminuição de erros, complicações e repetições citados por Porter, destacamos a fase pré-analítica, por ser dentro dos processos laboratoriais a etapa de maior contribuição para os erros laboratoriais. Segundo Akan et al.8 o erro mais comum desta fase, em ambientes hospitalares, é a informação incorreta do paciente presente nos sistemas de solicitação de exames, responsável por até 23,5% destas ocorrências, seguido de incongruência entre os testes solicitados e a informação introduzida manualmente no sistema, até 10,1%,  e volume insuficiente das amostras em 3,2% dos casos. Bonini, PA e Plebani, M.9, em artigo de revisão de erros em laboratórios, destacam que 75% dos resultados laboratoriais com erros estão dentro dos valores de referência propostos, 12,5% destes são erros absurdos e não considerados clinicamente e os 12,5% restantes afetam a saúde do paciente. Nos artigos revistos, a fase pré-analítica mostrou-se responsável por 31,6% a 75% dos erros, a fase analítica por 13,3% a 31,6% e a etapa pós-analítica 9% a 30,8%. Como fase pós-analítica, está considerada as respostas ou reações frente aos resultados laboratoriais e a interpretação clínica destes.
O estudo de custo-efetividade dos ensaios laboratoriais, no contexto assistencial como provedor de benefícios ao paciente tende a ser cada vez mais abordado. Hernandez, JS.10 revisando o tema destaca seis diferentes níveis necessários para o estudo da custo-efetividade: qualidade técnica; sensibilidade, especificidade e acurácia; potencialidade de modificação do pensamento clínico pelo resultado reportado; efeito no manejo do paciente; efeito nos resultado sobre o paciente e impacto sobre os custos. Citando Pfister et al., o autor sugere três diferentes âmbitos para análise da custo-efetividade.

  • A Performance do Teste: analisada por sua sensibilidade, especificidade, reprodutibilidade, capacidade de produção dos equipamentos disponíveis, tempo de liberação de resultados, necessidades especificas no momento da coleta e tipo de amostra;
  • O Custo do Teste: custos diretos e indiretos do teste (fase analítica), necessidade de pessoal, equipamentos e instalações; e
  • Fatores Epidemiológicos: prevalência da doença em questão, possibilidade de realização de testes de triagem populacional ou utilização de terapia empírica, variáveis e interferentes.

A medicina laboratorial contribui de forma significativa para o desfecho assistencial focado no paciente. A possibilidade de redução de dias de internação, diagnósticos cada vez mais precoces, um número menor de repetições e, conseqüentemente, de gastos desnecessários, faz desta especialidade uma ferramenta importante na assistência à saúde.
A correlação clínico-laboratorial e a utilização racional dos diversos tipos de exames disponíveis, bem como a gestão da informação alinhada ao uso da medicina laboratorial baseada em evidências, trazem benefícios a toda a cadeia de saúde, em termos de resultados operacionais e financeiros e também são fontes geradoras de maior segurança ao paciente.
Referências:
1) Porter, M. – Harvard Business Review, 2004
2) Walraven et al. Clinical Chemistry, 2003
3) ANAHP – www.anahp.com.br
4) ANS – www.ans.org.br
5) Poley et al. Clinical Chemistry, 2007
6) Holland et al. American Journal of Clinical Pathology, 2005
7) Howanitz et al. American Journal of Clinical Pathology, 2001
8) Akan et al. Labmedicine, 2006
9) Bonini et al. Clinical Chemistry, 2002
10) Hernandez JS. Archives of Pathology and Laboratory Medicine, 2003
*Carmen Paz Oplustil e Gustavo A. Campana são sócios da Formato Clínico, empresa que desenvolve projetos em medicina diagnóstica
As opiniões dos artigos/colunistas aqui publicadas refletem unicamente a posição de seu autor, não caracterizando endosso, recomendação ou favorecimento por parte da IT Mídia ou quaisquer outros envolvidos nesta publicação.
Você tem Twitter? Então, siga http://twitter.com/SB_Web e fique por dentro das principais notícias do setor.

Publicidade

Notícias como essa no seu e-mail

Faça como mais de 20.000 profissionais do setor de saúde e receba as últimas matérias no seu email.

Deixe uma resposta