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9 perdas de recursos em saúde

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Em saúde, pensar em esperar diante de uma urgência ou emergência chega a dar nervoso. O tempo não é único recurso que usamos em excesso ou desperdiçamos durante a prestação de serviços em saúde. Mais importante: ao compreender como agregar mais valor – ao fazer pacientes, médicos e todos os profissionais e envolvidos na saúde entenderem que valor é viver mais e melhor – podemos melhorar, muito.

Na literatura, encontrávamos 7 perdas. Atualmente é comum falamos em 8 ou 9, todas adaptadas para a realidade da Saúde, a partir das primeiras aplicações na Toyota até que fossem trazidas para o ocidente em meados da década de 80.

Na saúde, começaram a ser usadas com maior disseminação não tem nem 20 anos. No Brasil, são poucos os casos. Na Inglaterra, o NHS (National Health System) tem quase 500 profissionais dedicados a inovação e melhoria atuando em todos os hospitais do pais. Nos EUA, são muitos os exemplos e casos já documentados cientificamente, principalmente para reduzir os custos e aumentar a efetividade do cuidado. Lá já estivemos duas vezes em unidades do Virginia Mason Hospital, considerado o melhor do mundo em práticas de gestão. Em Portugal, temos casos e resultados como do Hospital do Porto, onde já tivemos a felicidade de ir mais de uma vez, em missão de benchmarking.

A compreensão das perdas em saúde podem gerar ações para aumentar o valor criado para profissionais e para todos nós, pacientes ou potenciais pacientes.

  1. Perdas por Esperas – Esta perda ocorre quando não usamos bem o recurso tempo. Pensem conosco: Não queremos que nem os pacientes nem os profissionais de saúde esperem, certo? Não queremos a fila do SUS. Nem Fila para Transplantes. Não agregam valor. Não queremos esperar para atender, se somos profissionais, donos ou gestores;  nem queremos esperar para sermos atendidos, se somos pacientes. Queremos girar os leitos, deshospitalizar, deixar o paciente ir bem e logo para casa. Queremos os serviços de saúde quando são necessários, nem antes, nem depois.
  2. Perdas por Defeito, por retrabalho, por não conformidades. Queremos receber e prestar o serviço direito. Simples assim. Certo. Queremos o serviço “just in time” ou JIT, no momento acordado, ou assim como acordado (prometido e aceito), que seria uma melhor tradução para o JIT, JAA (“just as agreed”). Queremos menos serviços de saúde fora da especificação da qualidade, e com menos riscos de segurança para profissionais e pacientes. Não queremos prescrever ou ministrar medicamentos por engano, nem na dose errada e muito menos ter que começar a trabalhar com materiais cirúrgicos incompletos ou ter altas taxas de glosas. Não podemos nem devemos dar garantias inequívocas dos serviços de saúde, dada sua complexidade, mas podemos acreditar, passar por uma acreditação, que os serviços foram feitos conforme as boas práticas e protocolos e que o melhor empenho foi dado na oferta de saúde.
  3. Perdas por fazer mais do que é necessário. Prestar ou Receber Serviços de Saúde Desnecessários. Conhecida como  Superprodução. Queremos trabalhar somente o necessário. Queremos seguir o protocolo cientifico, mas devemos avaliar se todos os procedimentos são requeridos e só aplicar os verdadeiramente necessários. Não queremos passar exames desnecessários para o paciente, muito menos ele quer ter que passar por procedimentos que implicam riscos ou custos, sem real necessidade. Não queremos ministrar a droga em maior quantidade ou por mais tempo. Não queremos ou não deveríamos querer ter uma programação de equipe maior que a necessária.
  4. Perdas por excesso de Transporte.  Queremos que materiais, informações, medicamentos e, em especial, os pacientes sejam transportados o menos o possível dentro das ou entre as unidades de saúde. Não queremos fazer com que os pacientes ou profissionais ou gestores andem, sem necessidade, entre unidades de saúde sejam, elas dentro ou fora de onde foram atendidos pela primeira vez, ou onde começaram a prestar os seus serviços. Uma enfermeira comumente anda mais de 5 quilômetros dentro de um hospital. Ativem seu contador de passos no smartphone e poderão verificar.
  5. Perdas por Estoques, a mais ou a menos. Desperdício por ter mais ou menos recursos estocados sem uso ou faltando. Queremos ter estocados somente o que vamos usar em uma do período de tempo. Não queremos recursos, sem uso, e disponíveis, a mais do que o necessário, nem a menos. Queremos ter estoques para não colocarmos ninguém em risco de falta de medicamentos ou de qualquer material, mas só queremos o suficiente. Não mais. Não queremos descartar por validade expirada. Nem queremos ficar com os estoques ocupando todo nosso espaço e mantendo nosso dinheiro “empatado” e encarecendo o sistema de saúde. Não queremos também que falte, e que um paciente fique sem seu medicamento, ou que um cirurgião não tenha os recursos que precisa para o sucesso de seu trabalho. Não queremos ter 2 hemodinâmicas, quando a taxa de ocupação das 2 somadas está abaixo de 20%. Não queremos ter 9 salas em um centro cirúrgico, ativadas e de prontidão, se já sabemos que 4 seriam suficientes para aquele dia e horário. Queremos sim, que estejam prontas para serem ativadas rapidamente se a demanda aumentar diante de uma emergência.
  6. Perdas por Movimentação dos Profissionais para executar suas tarefas. Queremos que os profissionais façam menos movimentos em seus postos de trabalho, que tenham menos tempos de preparação para iniciar o trabalho pois está tudo que é necessário pré-organizado (e idealmente intrinsecamente organizado – quando só posso trabalhar de forma organizada se não não tenho como trabalhar)  e disponível onde e quando será necessário. Queremos nos movimentar menos para fazer uma cirurgia, para preencher um formulário ou para diagnosticar um paciente. Queremos que nossa movimentação seja a mais ergonômica e produtiva possível .
  7. Perdas por Trabalho a mais que o necessário ou Sobreprocessamento. Queremos um trabalho seguro e confiável, mas não queremos fazer mais procedimentos do que o necessário em saúde. Não queremos ter que fazer dois exames, ou ter que dar a mesma explicação várias vezes. Não queremos várias conferências e verificações porque não confiamos que o trabalho que nos precedeu foi realizado de forma adequada. Não queremos preencher 20 campos, se for possível preencher só 10, nem alternar entre 10 telas do Tasy ou do MV para concluir uma digitação no sistema se poderia estar tudo em uma só tela ou pré-preenchido ou mesmo se poderia ser coletado automaticamente. Não queremos trabalhar mais do que o necessário.
  8. Perdas de Ideias e Perdas por sub-competência. Não queremos desperdiçar o Potencial Humano: nem perder Ideias e nem alocar profissionais sem as competências necessárias. Também não queremos que profissionais superqualificados, especializados, façam tarefas muito simples que poderiam ser transferidas para outro profissional menos raro. Por exemplo, se pergunte: o que o cirurgião chefe faz que uma boa técnica poderia fazer? Um Enfermeiro é necessário para ir buscar um medicamento, quando poderia estar focado na assistência e não em tarefas de baixo valor agregado. Queremos ouvir as ideias de nossos profissionais, não queremos perder oportunidades de melhorar e nem de dar soluções para problemas, com humildade. Não queremos alocar profissionais não adequadamente preparados para prestar serviços em saúde. Jamais queremos, mas sabemos que infelizmente acontece, ter que atuar com competências abaixo das requeridas. Jamais queremos, mas também sabemos, que convivemos com problemas que, depois de um bom diálogo, poderiam ser reduzidos ou mesmo eliminados.
  9. Perdas e Desperdícios de Recursos naturais e de infraestrutura. Queremos um mundo e um serviço de saúde mais sustentável. Não queremos usar mais espaço, mais energia elétrica, mais área, mais equipamentos e mais recursos em geral . Queremos usar menos recursos para prestar e receber o melhor serviço de saúde, o possível. Uma sala cirúrgica precisa ficar com todos os equipamentos ligados se não está em uso? Precisamos ter áreas de espera tão grandes? Podemos limpar o hospital, bem, mas com menor consumo de água?

Certamente falar sobre as perdas por espera é uma das formas mais fáceis para começar. Mas pensem bem: Se você como profissional de saúde está fazendo muito transporte de prontuários, também acaba não fazendo também sobreprocessamento de informações? E se há incerteza ou mesmo o medo de errar ou de faltar algo em seu plantão, os profissionais não acabam fazendo com que haja excesso de estoques de medicamentos? E o medo de dar uma ideia que pode resolver um problema que está ali a muitos anos não gera a manutenção de serviços defeituosos e retrabalho? Reflitam e achem relações entre as perdas. Será um ótimo caminho para criar mais valor nos serviços de saúde. Trabalhem juntos, integrados, como uma equipe. Será bom, muito bom.

Há muitas outras ferramentas de Gestão em Saúde baseadas ou rotuladas como Lean Healthcare. Esta se chamava 7 perdas de Taguchi. Em saúde, teremos que criar um novo nome. Quem sabe vocês sugerem.

Saibam mais em:

  1. Lean Healthcare: Um Estudo Sobre A Aplicação Do Pensamento Enxuto Em Serviços Da Saúde. Dissertação de Mestrado. Puc-RJ, 2013.

Autora: Paula Faria

http://www.enjourney.com.br/Publicacoes/Publicacoes—A-dissertacao-de-Paula-Faria-apresenta-Lean-Healthcare-Um-estudo-sobre-a-aplicacao-do-pensamento-enxuto-em-servicos-da-saude/d

  1. Engenharia de Produção Aplicada à Saúde: a Filosofia Lean em um Hospital Potencial Gerador de Morte Encefálica visando Contribuir para o Aumento da Oferta de Órgãos e Tecidos do Estado do Rio de Janeiro, 2013.
       
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Comentários

    Cada ponto desta interessante lista que o gestor da organização de saúde resolve abordar implica num certo número de processos, quando não também em políticas (ou falta delas) e cultura da mesma, que nem sempre é simples de ser resolvido, se é que já se tem o diagnóstico claro da situação. Este diagnóstico nem sempre existe porque o processo defeituoso não está mapeado e ou não está mensurado e ou sua mensuração não tem a devida análise crítica e tomada de decisão para mudá-lo.

    Em outras palavras, quando se começa a mexer em uma coisa, o gestor se vê a braços com uma série de coisas que nem sempre está em seu poder modificar e aí começa uma luta, às vezes inglória, de sensibilizar instâncias superiores ou seus pares, visto que, modificações deste porte geralmente ultrapassam as fronteiras de seu departamento.

    Por outro lado, se este gestor é o alto mandatário da instituição, nem sempre basta ordenar “publique-se e cumpra-se” para muar alguma coisa, mesmo tendo os recursos para fazer as melhorias dos processos defeituosos – há que se coordenar este processo de mudança, que é multidepartamental e, no mínimo, de médio prazo, a fim de que os planos de mudança não sejam engolidos pelos “incêndios do dia a dia” com os quais se debatem os gestores dos departamentos. Desta forma, utilizar um escritório de projetos ou o setor da qualidade para gerenciar os planos de ação de melhoria e ter deles o reporte do andamento das mudanças para as inúmeras tomadas de decisão é fundamental para o sucesso desta empreitada de enfrentar as perdas nas organizações de saúde.

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