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Manual de Autodestruição do Mercado da Saúde

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O ano é 2024. Em um grande contingente, pacientes invadem um dos últimos hospitais privados de São Paulo, derrubando portas automáticas, balcões de recepção e os guichês de atendimento que antes eram responsáveis pela admissão de segurados de planos de saúde.
O caos se instala nos corredores da instituição, cujo anúncio do encerramento das atividades por incapacidade financeira de sustentar o negócio, foi feito no início da tarde, deixando sem assistência médica mais de 3.000 pessoas, muitas com consultas ou cirurgias agendadas há 02 anos. 
Protegido em sua sala, o diretor do hospital tenta acionar sua equipe de segurança, enquanto seus subordinados, estarrecidos com a situação, clamam por alguma orientação.
– Eu não disse que um dia médicos, fornecedores e operadoras quebrariam nosso sistema de saúde?

Do outro lado da cidade, o prédio de uma importante operadora de saúde é cercado por manifestantes que exigem o cumprimento de seus contratos, mesmo sabendo da improvável solução diante de uma rede verticalizada insuficiente para dar vazão aos seus clientes.
A Polícia Militar faz um cordão de isolamento impedindo a invasão do prédio e também a saída dos colaboradores que, até tarde da noite, permanecem em suas mesas, eventualmente desviando de pedras que entram pelas janelas de vidro.
Em um pronunciamento aos jornalistas, o CEO da operadora afirma:
– A situação atual é um reflexo da incapacidade operacional dos hospitais privados, aliada à ganância desastrosa de médicos e dos fornecedores que os sustentam.

Enquanto isso, em um escritório nos Jardins, um cirurgião faz contas tentando encontrar números mágicos que o permitam pagar o aluguel de sua clínica, a prestação da moto importada e o salário de seus funcionários. Entre suspiros e tapas na mesa, ele cogita mudar de profissão, tendo em vista que seu volume de atendimentos, com a crise de operadoras e hospitais, caiu drasticamente nos últimos 05 anos. 
– O que estes malucos fizeram? Hospitais e operadoras, com seus controles e restrições sucatearam um setor inteiro!!

No extremo norte da região metropolitana, por sua vez, o ex- proprietário de uma distribuidora de OPME’s entrega, com tristeza, a chave das antigas instalações de sua empresa ao novo dono. Na próxima semana o local abrigará uma loja de ferragens e com certa ironia rancorosa ele comenta com sua esposa:
– Muda o negócio, mas continua-se vendendo parafusos!! Como conseguimos estragar tudo?
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O ano é 2014, em uma sexta-feira à noite. Um senhor dá entrada no Pronto Socorro de um hospital privado e “apenas” 02 horas depois é atendido por um plantonista, cuja atividade principal é ser cirurgião ortopedista.
Ele examina o joelho do paciente por 03 minutos para depois lhe indicar uma internação emergencial.
– Mas, doutor, eu torci jogando bola há uma semana! Realmente é tão sério?
– Ah sim! Com certeza é cirúrgico! E urgente!

Poucas horas depois, um fornecedor procura a CME do hospital entregando a caixa de materiais não estéreis para o procedimento do paciente.
– Mas por que você está me trazendo isso? Temos o material em consignação da mesma marca “na casa”, já com os preços negociados com a operadora! Aliás, como você soube tão rápido do procedimento?
– Sabe como é…o doutor nos ligou antes mesmo de agendar a cirurgia. Aí, você sabe, ele “gosta” de usar nossos produtos! Por que você não liga para o Diretor Clínico e pergunta o que deve fazer?

No dia seguinte, o paciente está no quarto com o joelho enfaixado. Sua alta fica pronta algum tempo depois, finalizada com uma conta hospitalar que traz, entre outras excentricidades, a cobrança de medicamentos de laboratórios de referência, que ele não se lembra de ter usado. 
– Devem ser aquelas caixinhas com uma faixa amarela e uma letra grande que não me lembro qual era. – pensa

Semanas depois, a auditora do hospital discute com a atendente da operadora:
– Veja, a cirurgia realmente não foi autorizada, mas o cirurgião indicou urgência. Não podíamos negar a internação! Perceba, inclusive, que reduzimos o preço dos OPME’s para se encaixar no nosso acordo. Você não pagará nada além do que combinamos e nem terá o segurado reclamando em seu SAC.
– Eu sei, mas regras são regras. Estou glosando todos os materiais especiais. Se quiser receber, é isso aí.

Apesar das dificuldades, ao final daquele mês, todos pareciam animados: o proprietário da distribuidora de OPME assinou o contrato de um luxuoso espaço novo na zona norte, o cirurgião desfilou com sua Harley cheirando à tinta pela Av. Paulista, a operadora fechou o mês comemorando a prorrogação de seus débitos do período em mais 30 dias e o hospital parabenizou o Faturamento pela margem recorde na venda de mat/med.

Perdidos em sua satisfação individual, todos murmuram:

– Não poderia estar melhor!!


Disponível também em www.condutasaude.com.br

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