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Luta contra o câncer: Por que mudar este termo?

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Recentemente, a atriz Marília Pêra faleceu de câncer de pulmão e, poucos dias após, foi noticiado que o ex-dirigente de futebol do São Paulo, Juvenal Juvêncio, havia morrido de câncer de próstata. São doenças frequentes e, conforme apontam todas as estatísticas, assumirão uma posição epidemiológica ainda maior nos próximos anos.

O ponto que chama a atenção é que várias manchetes assinalaram que eles “perderam a luta contra o câncer”. Essa visão belicosa foi inaugurada há décadas quando se passou a remeter recursos importantes para prevenção, investigação e tratamento da doença.

O problema é que a adoção de uma linguagem de “perder” a guerra traz nas entrelinhas que poderia ter sido uma vitória se a pessoa tivesse lutado mais. É injusto. Grande parte dos pacientes que tem câncer encontram coragem onde nem imaginavam que existia. As batalhas passam a ser diárias, que vão desde acesso aos tratamentos mais adequados – nem todos disponíveis na rede pública – até controle dos sintomas da doença.

Mesmo que tenha encurtado o tempo de vida de muitas pessoas, o conceito de perder/ganhar simplifica muito a complexidade do que é viver com câncer. A doença não ganha da solidariedade, tampouco dos legados afetivos e exemplos que o paciente deixa. Neste sentido, existe compromisso dos que ficam em tentar melhorar o sistema para que as próximas batalhas sejam menos dolorosas.

A correlação entre desenvolvimento social e chances de cura é inequívoca. Para cada 100.000 pessoas temos 163 casos de câncer na América Latina, são 264 na Europa e 300 nos Estados Unidos. Por outro lado, temos 13 mortes para 22 casos na America Latina, para 30 casos na Europa e para 37 casos nos Estados Unidos, com nítida relação incidência/mortalidade inversa.

Temos que construir soluções responsáveis e investir de forma correta para que possamos mudar as estatísticas. Vamos seguir lutando para corrigir essas distorções, mas vamos parar de usar a expressão “perdeu a luta contra o câncer”. Não vamos dar ao câncer esse tipo de vitória.

*Artigo original publicado no jornal Zero Hora de 11/12/15.

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Comentários

    Excelente observação, Stephen. De acordo com tudo. Além do mais, como ressalta em seu último livro, Michael Marmot (atual presidente da associação médica mundial), “The Gap of Health” os determinantes sociais (que envolvem renda, educação, segurança, poluição, emprego) estão muito relacionados ás doenças crônicas, inclusive câncer. Assim, não por que falar em “luta contra o câncer”.

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