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Gosto amargo do cigarro

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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) proibiu a comercialização de cigarros com aditivos com sabor, no Brasil. Espera-se que, em 2 anos, não sejam mais produzidos cigarros com aromas no país. O intuito é reduzir o estímulo, especialmente de jovens, que iniciam o hábito do tabagismo sem clareza dos riscos e real impacto em sua saúde. Evidentemente a indústria do cigarro sofreu um golpe. Alegadamente, a proibição inviabilizaria economicamente uma série de negócios na cadeia produtiva e com desdobramentos sociais. Muito difícil de convencer pessoas ligadas a saúde ? que vivem de perto esta epidemia – que este impacto social seja maior do que o espantoso número de pessoas que está pagando um preço altíssimo pelo erro de terem iniciado o hábito. E não me refiro, evidente, ao preço da carteira de cigarro (que fui pesquisar e é realmente caro, considerando que o tabagista faz uso crônico do cigarro), mas o preço biológico. Milhões de pessoas superlotam o sistema de saúde. Doenças respiratórias, cardiovasculares e oncológicas poderiam ser evitadas se o primeiro cigarro não tivesse sido aceso. O mais cruel talvez seja que os fumantes passivos ? crianças e adultos que não fumam diretamente mas convivem com fumantes ? ocupem o mesmo lugar na fila.

No mundo, o tabagismo gera uma perda econômica estimada em 200 bilhões de dólares a cada ano, sendo que a metade ocorre nos países em desenvolvimento. Este valor, calculado pelo Banco Mundial, é o resultado da soma de fatores, como o tratamento das doenças relacionadas ao tabaco, mortes de cidadãos em idade produtiva, maior índice de aposentadorias precoces, aumento no índice de faltas ao trabalho e menor rendimento produtivo. Atuar no adolescente e adulto jovem tem todo sentido: 80% dos fumantes iniciaram o hábito antes dos 18 anos de idade.

Portanto, entendo que a medida da ANVISA foi um bom passo para o país. Cabe, entretanto, ainda pautar estratégias para combater o hábito instalado em pessoas que não tiveram instrução e apoio para abandonar o cigarro. Não temos estrutura adequada para oferecer tratamento interdisciplinar amplo o irrestrito, muitas vezes necessário, para o dependente. Medidas mais amplas, de cunho social, podem levar tempo para dar resultados. Estudos econométricos da década de 90 apontam que 10% de aumento nos impostos sobre o cigarro, por exemplo, além de aumentar arrecadação, estimule redução de 4 a 8% no consumo. Deve se chamar a atenção, também, para outro fator significativo: o mercado ilegal de cigarros no pais. Estatísticas apontam que até 1/3 do comércio do tabaco seja irregular!

Em resumo, o tema é ainda mais complexo do que se imagina. Tivemos um avanço já quando se trouxe para debate o número crescente de jovens que acreditam ? em pleno século 21 – que fumar pode, de alguma maneira, ser bom. Com açúcar ou não, com aditivos ou não, o gosto do cigarro será amargo para o fumante e para toda sociedade.

Artigo parcialmente publicado no Jornal do Comércio do Rio Grande do Sul dia 22/03/2012

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