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Falta Planejamento Estratégico na Saúde

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Infelizmente entramos em mais um ano eleitoral e novamente somos ?bombardeados? com uma série de declarações que só desanimam quem trabalha em saúde.

Sempre brinco que minha geração se formou com a ideia de que plano ?é coisa do mal?. É fácil entender a razão: quando líamos a revista do Tio Patinhas, os Irmãos Metralha sempre tinham um plano para roubar a caixa forte. O Tio Patinhas não tinha plano para ficar rico, dizia que enriquecer era consequência de 10 % de inspiração e 90 % de transpiração, ou seja, quem se dava bem (o Tio Patinhas) era porque trabalhava muito, e quem se dava mal (os Metralhas) sempre tinham um novo plano !

Não me lembro de um super herói que ficou famoso fazendo planos para evitar que os bandidos fizessem o mal ? só me lembro de heróis que prendem os bandidos depois que eles já fizeram algum mal para a sociedade !

E não é exatamente isso que estamos vivenciando ?

A ANS ‘se vangloria’ em punir as operadoras. Não me lembro de alguma ação que impeça a operadora a fazer algo que se considera errado, muito pelo contrário: chegamos ao cúmulo de suspender a venda de planos ?bichados? por algum tempo para liberar depois. Se isso acontecesse na área de segurança publica seria algo mais ou menos assim: não prenderíamos o bandido, apenas diríamos a ele que durante alguns meses está proibido de delinquir, mas passado este período pode voltar a delinquir normalmente !!!!!

Se comparado com as operadoras, o SUS ‘comete mais delitos’ em um dia do que uma operadora comete em um ano, e não sofre punição alguma. Acho que ninguém pode discordar desta afirmação: multamos uma operadora se o segurado não conseguir agendar a consulta em 30 ou 60 dias, mas no SUS a população pode demorar anos para conseguir uma consulta, sem qualquer tipo de punição.

( … ?e quando comento que multar não adianta nada as pessoas reclamam ! ? … )

Nos cursos e consultorias sempre digo que ?pior do que não ter um plano, é ter planos demais? … e infelizmente isso é a realidade do cenário em que a saúde se insere.

O SUS não conversa com a Saúde Suplementar, então a Saúde Suplementar que deveria existir para complementar o SUS (como o próprio nome diz), tem o mesmo escopo, e naturalmente está ficando exatamente igual ao SUS: sem recurso suficiente para fazer o que se propõe, ou seja, SUS e Saúde Suplementar têm seus planos próprios, e por mais que alguém possa discursar ao contrário, não são integrados.

Governos federal, estaduais e municipais não se conversam porque são de partidos diferentes: cada um tem seu plano, de acordo com a sua situação política do momento, e cada um deles acha (ou pelo menos discursa) que o seu plano vai resolver todos os problemas. Como existe rodízio de partido político em cada eleição, o plano feito na gestão passada não presta em nada e se faz um novo plano, ou seja, além de do monte de planos, sabemos que não existe chance de um plano de longo prazo ser executado no âmbito do governo. Como a saúde não vai melhorar com ações de curto prazo, não temos perspectiva de melhoria geral do sistema de saúde.

Em uma empresa privada, investimos em um planejamento estratégico, que se chama estratégico porque vai de encontro com os objetivos institucionais, e não departamentais, e dele derivam os planos de ação ao nível tático e operacional.
É esta visão que falta no planejamento da saúde brasileira: um plano estratégico (uma constituição) que define as diretrizes dos planos menores (as leis).

Estamos vivenciando o contrário: um monte de ?feirantes fritando pastel?, e achando que se todos se unirem estará resolvido o problema da fome da população brasileira !

A visão de planejamento da saúde no Brasil é ?limitada? ao cenário que a autoridade conhece. Vamos lembrar alguns exemplos de declarações recentes.

?Não faltam leitos nos hospitais públicos ? que o que falta é gerenciamento dos leitos?. No contexto em que foi citado (uma grande metrópole) é verdade, mas se considerarmos a gigante capilaridade do sistema de saúde público não. Estou permanentemente dando aulas fora dos grandes centros, onde a realidade é muito diferente: não há gerenciamento de leito que consiga girar um mesmo leito para 10 ou 20 pacientes por dia !

?O problema do SUS se viabiliza se mudarmos a sistemática de remuneração ? não é necessário reajustar a tabela SUS?. Esta afirmação também é válida nas cidades de grande porte, mas a maioria das cidades brasileiras é de pequeno porte. Nelas, as que adotaram o plano operativo (ou ?contratualização?) estão passando muita dificuldade com o orçamento. Na semana passada sei aula onde estavam gestores hospitalares públicos de uma cooperativa ?chorando? a necessidade de ter que limitar o atendimento quando chegam ao teto, porque não ?existe milagre?: se ?o dinheiro? que chega é pouco, tanto faz se a remuneração é com base em apresentação de AIH/APAC ou cumprimento de meta … não dá pra pagar as contas do mesmo jeito !

?As operadoras vão equilibrar suas contas incrementando sua rede de recursos próprios?. Não estou vendo isso acontecer: os recursos próprios eliminam as grandes distorções em determinadas situações, mas o custo da atenção por paciente, no final da conta, não se mostra tão menor a ponto de se projetar como a ?salvação da lavoura?, até porque é muito difícil obter a mesma eficiência dos hospitais independentes, que se desenvolveram por décadas até chegar ao nível que estão.

Quando cito estes exemplos não critico as iniciativas (muito pelo contrário), apenas afirmo que como são ações que não fazem parte de um planejamento integrado e global, podem resolver problemas setoriais (os sintomas), mas não resolvem a essência (a doença) do sistema de saúde brasileiro. É necessário ter muita coragem para se posicionar sobre qualquer coisa relacionada a saúde e estas pessoas dizem isso com boa intenção, e segundo a realidade que conhecem. O que falta é planejamento estratégico nacional para que estas ações façam parte de um contexto integrado.

E gostaria de reafirmar que ?não tenho dó do SUS?, porque não rezo a mesma oração que prega que ele não tem dinheiro e por isso repassa pouco. ?Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa?: para o que o SUS se propõe a fazer nunca existirá recurso suficiente, porém (sempre tem um porém) para o dinheiro que o governo arrecada, o que o SUS entrega é muito pouco. Por absoluta falta de planejamento adequado, os recursos não chegam onde devem chegar. Não tenho conhecimento de que exista no mundo algo que arrecade mais do que a parcela de impostos destinada constitucionalmente à saúde no Brasil … por isso não tenho dó: o que se faz com ?esse dinheirão todo? é ?merreca?.

E já que vou ser crucificado mesmo, reafirmo que também não tenho dó da ANS, porque as ações punitivas que são o seu foco não têm trazido retorno prático algum para quem paga o plano de saúde. E não adianta mostrar alguns números para tentar me convencer do contrário: eu pago o plano de saúde e não tenho retorno algum. Ninguém me falou ? eu sinto na pele, no joelho, no coração, no pé …..

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