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Distrações comprometem satisfação profissional e podem gerar riscos ao paciente

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Em meu hospital, já atuo em múltiplas funções, muitas vezes em paralelo. Nestes últimos dias tenho incorporado outra, na linha de frente do Time de Resposta Rápida, por férias de um dos colegas. Isto ocorre em meu programa, e em outros mundo afora.

A partir de experiência pessoal, quero abordar a problemática das interrupções e distrações no dia-a-dia do trabalho médico dentro do hospital. Os leitores que tiverem experiências para compartilhar poderão ajudar a desmembrar o assunto – que é bastante mais amplo e rico. 

No mundo ideal, atividades não devem concorrer. Deve existir reserva de tempo adequada para cada uma elas. Na vida real, devemos minimizar a dimensão do problema e trabalhar soluções sempre que necessário. 

Interrupções e distrações constantes no fluxo de trabalho dos médicos no hospital determinam comprometimento em satisfação profissional e riscos ao paciente. Gestores costumam admirar cegamente o profissional que é “pau para toda obra”, negligenciando riscos. Por outro lado, excelência em determinadas áreas de atuação só atinge-se com foco total. 

A maior disponibilidade do médico no hospital é ótima, mas traz desdobramentos com potencial negativo também. Hospitalistas no mundo inteiro frustam-se enormemente por interrupções excessivas. É o pessoal da Emergência/PS, da UTI, enfermeiras, farmacêuticas, nutricionistas, do laboratório, da radiologia, da gestão de risco – quem quisermos nominar e que trabalhe no hospital -, todos “querem sua fatia na hora em que vem a fome”. Na minha experiência desta semana, houve um momento em que estava atendendo paciente complexo, pensando no que fazer na frente do computador, com muitas dúvidas e aflições. Praticamente junto, tocou meu celular pessoal com ligação de colega do hospital querendo discutir um caso, o celular do plantão para mais um atendimento do Time de Resposta Rápida, aproximou-se uma enfermeira com demanda para o plantão – mas fora do escopo do plantão (“um favorzinho, já que o Sr está aí”), entrou um e-mail importante do gerente de risco, um familiar pedia à secretária do posto para conversar com o médico (eu, no caso) – parecia ansioso. Eu precisava concluir tudo para comparecer a uma reunião horas mais tarde e partir em seguida para plantão noturno em outro hospital. Houve um momento que pensei em fugir do hospital para qualquer outro lugar… A soma disto aparece na literatura como causa de burnout de hospitalistas e menor satisfação com o trabalho. 

Há ainda evidências consistentes demonstrando que interrupções e distrações podem comprometer o resultado do trabalho assistencial e a segurança do paciente. Emblemático é um estudo mostrando que, quando o profissional é interrompido, leva, em média, 25 minutos para retornar a atividade original. Usando como exemplo erros de medicação, vejamos o que pode acontecer com o hospitalista envolvido na etapa da prescrição medicamentosa, e seu paciente: experimentos já escancararam que distrações e interrupções aumentam a probabilidade de erros neste tipo de tarefa. Evidências emergentes têm sugerido que reduzir ou eliminar as distrações e as interrupções pode melhorar a segurança de medicamentos.

Soluções?

Não há fórmula mágica!

Mas é indispensável que as lideranças hospitalares entendam o cenário e suas potencial consequências. Deve ser claro e transparente quais as prioridades do hospitalista. Adiante disto, algumas soluções são descritas ou intuitivas: 

– Atividades de alto risco devem estar protegidas de trabalhos concorrentes (por exemplo, a atuação em um Time de Resposta Rápida de alto volume);

– Identificação de outros momentos de alto risco atrelada à políticas que proíbam ou ao menos protejam de interrupções ou distrações;

Rounds interdisciplinares e/ou unidades geográficas

– Diferenciação entre comunicação urgente e não urgente e pactuação de posturas e prioridades. 

Certa vez anotei de uma apresentação: interrupções aparecem sempre em surveys como causa de comprometimento da satisfação de hospitalistas no trabalho. Sabemos que quase tudo que promove descontentamento no trabalho corrói segurança do paciente. Talvez se prestarmos mais atenção em interrupções, “matemos dois coelhos com uma cajadada só”. 

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