Referências da Saúde Quem foram os premiados da edição 2016? Confira agora

Custo Brasil é Muito Maior na Saúde

Publicidade

Quando criticamos os programas de governo muita
gente fica horrorizada, demonizando os comentários como se estivéssemos contra
o partido A ou o partido B, e não se trata disso. O ‘pano de fundo’ das
críticas é a direção que todos adotam em crescer ainda mais uma máquina
ineficiente, criando novos serviços ineficientes ao invés de dotar o sistema de
saúde pública da eficiência necessária.

Isso vale também na saúde suplementar, que durante
muito tempo conseguiu sobreviver porque o sistema de remuneração é mais ‘generoso’
que o SUS, mas de alguns anos para cá começou a ficar ‘dolorido’ a ponto de agora
estar chegando aos níveis de ‘dor insuportável’ que começa a levar instituições
privadas de grande tradição à ‘insolvência’.

O que parece que as pessoas não entendem é que o ‘Custo
Brasil’ é muito maior na área da saúde do que nos demais ‘segmentos de negócios’.
Só de citar saúde como negócio já é suficiente para que os ‘puritanos de plantão’
se incomodem … mas vamos lá !

Se analisarmos a média de custos dos hospitais
divulgadas por instituições de ilibada reputação no mercado de saúde veremos
que quase 50 % do custo hospitalar é devido à mão de obra. Classificado em
grandes grupos, o restante das despesas são 35 % de insumos, e 15 % para o
resto.

Ao hospital sobra 15 % para investir em tecnologia,
dar manutenção em uma das mais complexas estruturas físicas que uma empresa
pode ter, desenvolver processos, dotar os processos de qualidade, desenvolver
programas de educação continuada, ensino e pesquisa, etc.

E ao hospital cumpre gastar metade do que tem
disponível para pagar funcionários. Seria louvável se este custo com pessoal
fosse alocado para pagamento de profissionais assistenciais (médicos,
enfermagem, fisioterapia, odontologia, etc.) mas quem é do ramo sabe que isso
está longe de ser verdade. O ‘Custo Brasil’ faz com que os hospitais gastem
mais com pessoal de apoio e administrativo do que com aqueles que estão diretamente
alocados na assistência ao paciente.

Ou seja, em uma empresa onde a mão de obra direta é
‘o equipamento necessário’ para a produção, o custo com ela é menor do que o custo
com a mão de obra que existe independentemente do número de pacientes tratados
!!!

Isso existe raramente em uma indústria, por
exemplo. A indústria que manufatura seus produtos manualmente tem muito mais
funcionários na linha de produção do que os de apoio e administrativos.

Esta ‘sinuca’ em que os hospitais brasileiros foram
colocados é explicável pelo Custo Brasil da Saúde.

O sistema de remuneração da saúde suplementar é tão
insano que exige uma estrutura de auditoria de contas, especializada de cara.
Médicos, enfermagem e toda a gama de profissionais administrativos estão direta
ou indiretamente envolvidos:

  • Quando envolvidos diretamente, deixam de atuar
    naquilo para que foram formados (atenção ao paciente) para atuar exclusivamente
    em atividades de auditoria;
  • Quando não envolvidos diretamente, são convocados a
    atuar em atividades de apontamento e registro de consumos, desviando parte da
    sua carga de trabalho assistencial para tarefas relacionadas à formação e auditoria
    de contas hospitalares;

Quem eventualmente pode pensar que isso não ocorre
em hospitais públicos não tem ideia de que mesmo nos hospitais onde não existe
porta 2, o faturamento SUS está exigindo grande envolvimento dos profissionais
assistenciais, e quando isso não ocorre o hospital tem dificuldade para obter
receita, como no caso das Santas Casas que acabam requerendo cada vez mais
recursos, ao invés de realizar a receita devida da sua produção.

Uma infinidade de normas e práticas de mercado foram
incorporadas à atividade hospitalar, e exigem estruturas organizacionais especializadas
e caras, que não têm lastro de remuneração, ou seja, é um custo adicional que o
sistema de remuneração SUS ou Saúde Suplementar não paga. Não se discute aqui
se é necessário ou não (‘todo mundo’ sabe que são importantes), mas sim que não
existe diferencial de pagamento pelo atendimento se o hospital pratica ou não.
Alguns exemplos:

  • Programas de certificação em qualidade (ONA, JC,
    ISO, etc.). Se somar o custo da estrutura organizacional dedicada, mais as
    consultorias e, principalmente, mais as horas de todas as áreas hospitalares
    gastas nos programas, é um valor imenso. Mas se o hospital é certificado ou
    não, o preço pago pelos procedimentos pelo SUS ou pela Saúde Suplementar é o
    mesmo;
  • Atividades de vigilância de infecção.
    Independentemente do índice de infecção hospitalar do hospital, o valor pago é
    o mesmo;
  • Controle de validade e rastreamento de insumos. Não
    temos notícia de nenhum hospital fechado pela falta de controle efetivo no
    Brasil, mas é sabido que nem todos fazem e alguns gastam muito para fazer – nos
    dois casos a remuneração é a mesma.

O que chamamos de Custo Brasil na Saúde pode ser
classificada em 4 grupos:

  • A tradicional carga de impostos que os produtos
    têm. Mesmo em hospitais que gozam de algum tipo de isenção por benemerência, a
    maior parte dos insumos já estão carregados de tributos nas operações anteriores
    à aquisição por parte do hospital. Nisso os hospitais são iguais às outras
    empresas;
  • O tradicional custo com logística. É sabido que o transporte
    no Brasil, feito quase 100 % sobre rodas e não sobre trilhos, é caro. Quando se
    compara o gasto com insumos em países desenvolvidos com o que se gasta no
    Brasil costuma-se esquecer este fator, o que pode levar alguém inadvertidamente
    a afirmar que o Brasil está melhor estruturado na saúde porque gasta mais com
    insumos hospitalares que os demais … um grande erro a que análise feitas nas
    empresas dos outros segmentos de mercado estão igualmente expostas;
  • O custo a que o hospital se obriga pela constante
    publicação de leis e normas que regulam o segmento para dotar os atendimentos
    de maior qualidade. Não existe outro segmento que tenha tantas novas regras de
    regulação do que a saúde, sem lastro de remuneração que compense os novos
    processos. Nos demais segmentos de mercado as ‘organizações patronais’ são
    atuantes e ajustam, de uma forma ou de outra, o sistema de remuneração para
    compensar os novos custos. Em última instância acrescem o valor do produto ao
    cliente, coisa que os hospitais não podem fazer em relação ao SUS, e não
    conseguem fazer em relação à saúde suplementar;
  • O custo a que se obriga devido ao sistema de
    remuneração. Operar um hospital no sistema SUS, ou na Saúde Suplementar, ou
    pior, nos 2 sistemas ao mesmo tempo, é muito elevado. Não só o processo de
    auditoria como também os próprios processos comerciais, de formação de contas
    e, principalmente, os próprios processos assistenciais. Os que acham que basta
    mudar o pagamento por produção para o plano operativo (ou ‘contratualização’)
    no SUS ainda não se depararam com a dificuldade que os hospitais que já
    migraram estão tendo depois que a receita deixou de ser apurada pela produção e
    passou a ser discutida politicamente – sugiro que procurem estudar o que está
    acontecendo com ‘os pobres dos hospitais que caíram nessa’. E na Saúde
    Suplementar a ANS teima em produzir cada vez mais normas para aumentar o custo
    dos hospitais – nos últimos meses você viu alguma ação que resulte em melhoria
    ou só ouviu falar da ANS em relação à TISS 3.0 ?

Então, voltando aos comentários sobre programas de
governo, quando escutamos algum candidato dizer que existem 100 hospitais e ele
vai inaugurar mais 100, só temos a lamentar porque sabemos que os 100 atuais
são ineficientes, e os próximos 100 que serão inaugurados, além de serem
igualmente ineficientes, vão dividir uma verba insuficiente tornando o sistema ‘ineficiente
ao quadrado’.

Por isso gostaríamos muito de ver programas de
governo que estivessem com foco em reduzir o Custo Brasil da Saúde, e dotar de
eficiência o que existe.

Publicidade

Notícias como essa no seu e-mail

Faça como mais de 20.000 profissionais do setor de saúde e receba as últimas matérias no seu email.

Deixe uma resposta