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Congressos, Jornadas, Simpósios…

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Uma das postagens em Saúde Web que mais me marcou em 2011 foi de Ildo Meyer: Congressos, Jornadas, Simpósios…

Meyer sugeriu que a educação médica precisa ser repensada: “O importante é não repetir mais o ultrapassado ritual do retorno para casa com um certificado na mão, valido para a revalidação do diploma, e a dolorosa sensação de não ter se atualizado”. Leia mais.

Trata-se de um assunto que adoro. Meyer trouxe questões passíveis de serem desdobradas em outras tantas, mas a central foi: para que servem nossos Congressos, Jornadas, Simpósios…?

Já participei da organização de iniciativas de quase todos os tipos: eventos pequenos ou muito grandes, com conteúdos apresentados no formato tradicional ou a partir de educação à distância, com ou sem a indústria farmacêutica e de tecnologias, com poucos recursos ou com recursos sobrando. Hoje sou um defensor ferrenho de educação médica o mais livre possível da influência da indústria.

Eu não aceito a indústria como 100% vilã. Ideológicos limitados gostam de dividir esta questão entre céu e inferno, ou entre pessoas boas ou más / realistas ou utópicas, quando representam um ou outro ponto de vista. Bobagem! A indústria é fundamental! Gera descobertas, renda, empregos, aumenta a capacidade produtiva… Mas não seria possível e estratégico separar melhor os seus interesses da educação médica continuada?

No início da década passada, participei da organização de algumas atividades em parceria com a indústria onde promovemos, direta ou indiretamente, drogas que mais tarde viriam a ser retiradas do mercado ou ter seu uso restringido por efeitos colaterais. Minha desconfiança em relação ao que estávamos fazendo iniciou bem antes das atividades encerrarem, na medida em que surgiam evidências científicas que, mês após mês, “arranhavam” a imagem daqueles produtos. Como era um encontro mensal onde junto da palestra proferida pelo speaker da indústria fazíamos uma discussão de caso clínico envolvendo vários serviços de Medicina Interna da minha região, e como esta segunda atividade era a “menina de meus olhos”, passei a adotar tom questionador após cada aula de conteúdo questionável, mas jamais questionei na instância certa se deveriam ser mantidas ou não. Aquilo tudo acabou por outros motivos, e junto deixaram de existir as instigantes discussões de casos clínicos. Por vezes, até percebemos o conflito de interesse em si, mas reconhecendo (corretamente) que se expor não significa por si só sucumbir ou cometer ato antiético ou imoral, criamos justificativas para aceitá-lo e aumentamos os riscos. A relativização poderia se dar por acreditarmos em um benefício maior para o movimento ou grupo que representamos, por exemplo. Na prática das grandes associações médicas, ocorrem pressões para relativização variadas e por todos os lados.

Mais tarde, me vi envolvido em situação que serviu de combustível maior para minha postura atual, e confesso que, tomado pelo calor do momento e sem a experiência que tenho hoje, cheguei a me comportar como um ideológico burro. “Não precisamos da indústria em hipótese nenhuma”, externei.

De lá para cá, tenho procurado conhecer cada vez mais o complexo assunto, fortalecendo meu arcabouço teórico, mas principalmente pelo aprendizado prático após diversas tentativas de viabilizar educação médica o mais independente possível.

Atuei como colaborador da Campanha Alerta, uma iniciativa do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul, até final de 2010. Envolvidos com a Campanha estiveram pessoas que nem sempre pensavam igual, o que dificultava a busca por soluções. No entanto, valeu muito o espírito reflexivo e construtivo a partir de uma premissa comum: o problema existe!

Concretizei duas experiências marcantes: congressos de grande porte, em hotéis de luxo e com muitos palestrantes internacionais, sem aceitar nenhum tipo de financiamento da indústria de medicamentos. Solução encontrada? Se foi possível perceber que os eventos médicos podem custar muito menos e sem grandes prejuízos, que é possível trazer palestrantes renomados do exterior que não venham através de laboratórios e que a indústria não é tão indispensável para a educação médica assim como dizem, tenho total tranqüilidade de reconhecer: Não, a solução não foi encontrada! Serviram para aprender que não receber diretamente dinheiro da indústria não impede a participação na grade de profissionais fortemente vinculados a ela, e que a qualidade da informação pode, da mesma forma, ser comprometida. Houve também, embora não advindos da indústria de medicamentos, patrocínios condicionados a participação na programação oficial e palestras que pareceram, em minha opinião, mais promoção do que qualquer outra coisa. E eu era o principal organizador dos eventos! Passei a perceber que conflitos de interesse com outros vários stakeholders também são importantes. E que, se não é possível fazer congressos grandes sem nada disto, talvez ainda estejamos atrás do melhor formato para bem regular todas estas relações.

Tive ainda uma experiência recente com portal de educação médica à distância. Anunciávamos que era independente da indústria, mas o fato é que gravávamos terceiros e que não existiam garantias de que eles não possuíam o tipo de vínculo que optamos não ter. A questão é complexa…

Tenho convicção de uma coisa apenas: simplesmente evocar a ética para o bom funcionamento das organizações não basta. Que a política sirva de exemplo. Como proceder então?

Se não há resposta definitiva, há ideias e iniciativas a serem valorizadas:

– Transparência é importante, mas não é suficiente (The Accreditation Council for Continuing Medical Education (ACCME) standards for commercial support);

– A própria indústria tem contribuído bastante nesta discussão. Conheça the Pharmaceutical Research and Manufacturers of America (PhRMA) and the Advanced Medical Technology Association (AdvaMed) voluntary codes, 2009.

– Andei compilando algumas coisas aqui.

Interessante o posicionamento da Sociedade Americana de Cirurgia Vascular (SVS) neste debate:

it is the our responsibility to recognize any threat, real or perceived, to the trust conferred upon it. Today, there is a heightened awareness of opportunities for inappropriate financial relationships between industry, pharma, physicians, universities, and medical societies. It is the responsibility of both the SVS?s leadership and membership to recognize when situations arise that may threaten the Society?s credibility, either real or perceived. Recognizing any threat, it is obligated to actively and transparently act to manage these threats. Our patients, our membership, and the public rightfully expect and demand this”.

Segundo Bernard Lo, MD, professor of medicine and director, Program in Medical Ethics, Division of General Internal Medicine, and Department of Medicine, University of California San Francisco, San Francisco, California, autor de Conflict of Interest Policies – An Opportunity for the Medical Profession to Take the Lead, “there are several reasons for leaders in academic medicine to take the lead in forging strong COI policies. Self-regulation may prevent external regulations that may impose heavy bureaucratic burdens. Physicians might develop better COI policies than legislators or regulatory agencies because they are sensitive to the potential unintended consequences of policies”.

Debato com pessoas que são absolutamente contra o financiamento público da educação médica no Brasil, adiante da graduação. Haveria duas formas de lidar com isto: os médicos assumirem uma parcela maior do investimento para sua própria educação. Ou incentivar o financiamento privado saudável. Parece-me óbvio que os defensores do financiamento privado devem ser os principais protagonistas na elaboração de políticas de controle e regulação dos conflitos de interesse com o setor, a exemplo da Sociedade Americana de Cirurgia Vascular, que aprovou este ano “the Society for Vascular Surgery Guidelines for Interaction with Companies. Não necessariamente concordo com todos os pontos, mas é um trabalho admirável. Eu teria orgulho de participar de uma entidade destas, de trabalhar para uma entidade assim. Conheça parte dela agora:

– Individuals with control over SVS CME content, including SVS staff, will comply with established SVS ACCME procedures to identify and resolve all conflicts of interest prior to the CME activity being delivered to learners.

Satellite Symposia are not part of the ACCME-accredited portion of the VAM, and SVS will take appropriate steps to make this known to VAM attendees; SVS officers and Board of Director members may attend but will not participate in Satellite Symposia as speakers, moderators, or other significant participants, as this gives the appearance that SVS is endorsing company product(s).

– Company logos will not be placed on items such as lanyards, tote bags, highlighters, flashdrives, or other company-branded items.

– Exhibits: SVS will have written policies governing the nature of exhibits and the conduct of exhibitors. SVS policies will require exhibitors to comply with applicable laws, regulations, and guidance. SVS policies can place limits on exhibits and exhibitor conduct to ensure that the tone of the exhibit hall is professional in nature.

Association for Academic Surgery e the Society of University Surgeons também desenvolveram recentemente algumas recomendações:

Branded items such as tote bags, lanyards, and pens should not be distributed to members at society meetings. This is consistent with current PhRMA and AdvaMed guidelines. Readily identifiable advertising in a purchased booth or defined meeting space is acceptable as long as it is clearly delineated that this represents vendor advertising and is not promoted or endorsed by the sponsoring society. These booths should be in an identified distinct vendor area to separate marketing activities from educational content at each meeting.

The AAS and SUS task force believed that the ASC should not advertise or provide member contact information to industry sponsoring satellite symposia under any circumstances. Although the ASC cannot prevent industry sponsors from hosting non-CME activities around the ASC meeting, the ASC should not support or advertise these activities. Provision of ASC attendee contact information to the sponsors of these non-CME satellite symposia suggests that the ASC is endorsing these events.

Estas sociedades médicas estão partindo da premissa de que é melhor prevenir do que remediar. A Sociedade Americana de Medicina Hospitalar recentemente sofreu intenso desgaste por ter que remediar (escândalo, resposta imediata) e tem dado, a partir da lição aprendida, passos interessantes na busca por melhorias. Pena que o conhecimento necessário para agir era o mesmo que o movimento de segurança do paciente já ensinara: “To err is human“…

Penso hoje que é possível buscar um equilíbrio: sociedades continuarem estabelecendo relações com entes variados, desde que amparadas em políticas de relacionamento verdadeiras e que vão além do “permitimos apenas apoio irrestrito. E confiem em nós”. Problemas irão ocorrer em qualquer formato, pois somos humanos. O importante é um sistema mais do que transparente, que critique, que corrija, que discrimine erro humano de corrupção intencional, e que nos casos dos erros humanos seja mais construtivo. Teríamos assim mais pessoas participando das sociedades médicas. Pessoas como eu, com grande capacidade de trabalho para movimentos em que acredito, mas que não se sentem atraídas a dedicar tempo e energia para projetos muito centrados na crença dos líderes infalíveis. Escrevi mais sobre isto em Por que defendi independência da indústria farmacêutica na minha gestão? Porque eu, Guilherme Barcellos, me considero influenciável.

Bom natal!

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