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Como idiotizar o movimento de segurança do paciente

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Para o bem do movimento, evitemos a imbecilização das recomendações e das práticas. O ato ou efeito de idiotizar ou imbecilizar aspectos importantes da segurança do paciente tem sido mais contraproducente que a própria histórica inércia ao lidarmos com as reconhecidas falhas e erros assistenciais.

Porque desejo salientar uma grande mensagem, buscarei ser conciso e contundente, usarei de um único exemplo: a meta internacional de segurança #1identificação do paciente.

Tenho o privilégio de visitar muitos hospitais e não canso de ver o mau uso desta importante abordagem de segurança. Em um deles presenciei técnico de enfermagem brincando com um colega: – “Seu Renato (nome fictício) internou de novo, deve ser a décima vez este ano. Mas já chequei a pulseira de identificação e seu Renato é mesmo o seu Renato. Incrível, né? Não mudou! 🙊”.

Lhe é solicitado ainda que registre em prontuário algo como “avaliada a pulseira, identificado o paciente”. Tudo isto deve ainda ser avaliado no contexto do trabalho diário destes profissionais – onde há excesso de trabalho, de pacientes, de redundâncias, de cobranças, até de reclamações – e, quando chega a Acreditação, o excesso virá nevasca (leitura complementar sobre tempestade de iniciativas aqui).

O maior culpado é a ainda comum falta de preparo de nossas lideranças em segurança do paciente. Certo que é tudo muito novo. Eu próprio, há menos de 15 anos, devia achar que análise de causa raiz era alguma disciplina de curso de botânica ou biologia. Mas precisamos urgentemente fazer da segurança dos pacientes uma prioridade nas organizações, profissionalizar a gestão, e capacitar os profissionais nos diversos níveis.

É claro que, para muitas pessoas, em diferentes situações, será necessário confirmar quem é o paciente em sua frente. Mas no dia-a-dia de um enfermaria, a importância do uso da pulseira de identificação é muito mais para outras coisas, como identificar se aquele medicamento endovenoso em mãos, pronto para administração, é mesmo para o paciente que tão bem conheces e sabes o nome, comparando os dados completos da etiqueta do medicamento com os dados completos do paciente, já que nada impede que o medicamento (ou o sangue, ou a dieta enteral) seja para outro paciente de mesmo primeiro nome. Estaríamos identificando o binômio medicamento-paciente, e não somente o paciente.

O HCPA trabalha muito bem estas questões e aqui ressalta os momentos obrigatórios de conferência da pulseira:

Uma orientação inadequada, banalizando a prática, faz com que profissionais da ponta não valorizem iniciativas de segurança – não somente a importância da pulseira e da correta identificação, mas passem a desconfiar das outras orientações também. Quando determinada prática já é motivo de piada nos corredores, não somente pelos profissionais boicotadores ou constipadores, é porque o trabalho em prol daquele nobre objetivo já é desserviço institucional.

As coisas, como premissa básica, precisam fazer sentido para quem na ponta executa. Ou que o processo seja todo automatizado!

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Comentários

    Bem, o preconizado não é a Identificação “mecânica”, mas assegurar que o paciente receberá o tratamento que lhe é devido, adequado, correto, cruzando e verificando as informações sobre sua identidade, prescrição, adequação da via, medicamento correto, enfim, o processo de identificação como um todo, e em todo o processo de cuidado, ou seja, antes de administrar medicamento, de transfundir, coletar e realizar exames, procedimentos, etc. Sendo recomendado,ainda, que se envolva o paciente, sempre que possível, no processo de identificação, uma vez que ele é agente no seu processo de cuidado e a informação contribui para a sua segurança.
    Assim recomenda a Meta Internacional de Segurança do Paciente, por isso é uma “solution”…
    Barreira para evitar incidentes.
    Deste modo ela deveria ser trabalhada e compreendida. Uma luta… Precisamos trabalhar a cultura de segurança, para que a atuação recomendada para atender as MISP não seja protocolar, apenas, mas consciente da responsabilidade de funcionar como barreira, para prevenção de incidentes e eventos adversos.
    E vamos em frente!
    Parabéns pelo texto!

    Foto de perfil de Felipe

    Ótimo texto, Guilherme! Estamos vivendo realmente esse momento em que todos falam da importância das iniciativas, mas pouco se discute sobre a razão de adotá-las, quando adotá-las, e talvez o mais importante de tudo: na minha instituição, estou medindo os resultados melhorando ao adotá-las? Ou estarão estáveis/piorando? Se todas as recomendações forem adotadas de forma impensada, teremos esse cenário que você descreveu: a banalização das práticas de segurança do paciente.

    Mais do que implantar um fluxo para dar “check” nas metas internacionais, ou em qualquer selo de acreditação, precisamos agir como seres pensantes, curiosos, e questionar: por que faço isso? Seria esta a melhor forma de fazer? Estou atingindo os resultados que salvarão meus pacientes dessa forma?

    A questão da lavagem das mãos, por exemplo, é de importância gigantesca! E no entanto sabemos que muitas pessoas não aderem às recomendações. Quando se lê a origem disso tudo, em obras que falam de Semmelweis e Lister, fico arrepiado em ver a importância desse tema e a importância que essa descoberta teve pra esses caras. Isso salva vidas, muitas vidas, e eles viram isso com os próprios olhos, porque antes matava em larga escala. Hoje, talvez por matar menos, não enxergamos tanto o efeito da higienização das mãos, e nos contentamos em fazer algumas palestras em auditório pedindo que a equipe assistencial lave as mãos. Não acho que essa medida seja efetiva e o assunto é muito sério para ser tratado assim… por que não lavar as mãos em dupla, com testemunhas? Ou qualquer outro mecanismo que obrigue a equipe a lavar as mãos? O verbo aqui deveria ser “obrigar”, e não “pedir”…

    Outro ponto fundamental é o envolvimento da equipe. Quanto mais você envolve a staff na criação e implantação dos novos processos, melhor será a adesão. Não fiz pesquisa muito aprofundada sobre isso, mas já vi algo na literatura e me parece bastante plausível. Se eu participo, concordo e dou ideias, eu estou convencido e motivado a levar aquilo adiante, diferente de algo imposto top-down, que muitas vezes é como acontece nos momentos de acreditação da instituição. Um consultor/gestor de qualidade se reúne com os diretores e coordenadores e diz como deve ser feito. Há pouco envolvimento da base do time, pouca escuta de ideias… mesmo quando há um processo conhecido de antemão que deve ser posto em prática, há espaço para ajustes locais e troca de ideias. Cada hospital tem suas particularidades e os fluxos podem ter suas diferenças.

    Sobre a questão da mensuração dos resultados, que comentei no início, acho que é o único caminho para onde os hospitais caminharão daqui a um tempo. Precisamos de indicadores de outcomes, resultados, urgentemente. Hoje falamos que o hospital A, B ou C é melhor porque conhecemos alguns médicos, porque sua hotelaria é bonita, porque tem os aparelhos mais modernos, cirurgia robótica, etc… será que de fato tenho mais chance de sair vivo da cirurgia nesse hospital? Será que sentirei menos dores no pós op? Enfim, indicadores que realmente importam para o paciente, para cada condição de saúde, precisam ser controlados. Algo como esse material, distribuído pela Cleveland Clinic… eu gostaria de ler isso para todos os hospitais: http://my.clevelandclinic.org/about-cleveland-clinic/quality-patient-safety/treatment-outcomes.

    Esse vídeo do ICHOM também é muito interessante – https://vimeo.com/141066658. Se um dia tivesse câncer de próstata, gostaria de poder me tratar na Martini Klinik que é citada aí – eles controlam e publicam seus resultados: https://www.martini-klinik.de/en/results/. Quando fui pra Índia, me perguntaram (com alguma ironia) se eu faria cirurgia no Aravind – eu faria, porque eles controlam seus resultados muito melhor do que muitos hospitais “bons” daqui do Brasil. Lá eu sei quais são as chances, e elas são muito boas… aqui eu não sei.

    Insisto muito nessa questão dos indicadores por resultado para o paciente porque se os processos não trouxerem melhoria de resultado em algum número relevante (desde indicadores mais amplos, como mortalidade, infecção, erro de reconciliação, etc, até outros específicos por condição de saúde tratada, vide os books da cleveland clinic, martini klink), então estamos mudando o processo por nada. Temos que ler mais e aprender com caras como Pronovost, que são, na minha opinião, a vanguarda em segurança do paciente.

    A matéria está muito boa. Pertinente e atual. Sugiro apenas uma pequena correção no texto. Onde está escrito: “Lhe é solicitado ainda que registre em prontuário…” no 3º parágrafo: nunca se inicia uma frase com pronome. No caso, o correto seria “É-lhe…” . No mais, parabéns.

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