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Como evitar erros nas trocas de informações entre pessoas falando idiomas diferentes? Pergunto porque eu não sei…

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Fiquei lisonjeado por ter sido incluído em lista de experts a colaborar em projeto organizado pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz): um livro sobre segurança do paciente, capítulo sobre erros de comunicação.

Ocorre que a Fiocruz, inegavelmente uma das mais destacadas instituições de ciência e tecnologia em saúde da América Latina, é vinculada ao Ministério da Saúde. Não, isto não é, por si só, um defeito ou um problema!

Mas seu Conselho Deliberativo publicou nota de apoio ao Programa Mais Médicos onde optaram por ignorar princípio científico elementar, a partir do qual desafiar as próprias teses é o que se espera. Aparentemente, prevaleceu o ?princípio da solidariedade política?. E isto configura um grave problema! Preservar a aparência da ciência, a meu ver, é tão importante quanto esforços para garantir sua máxima independência. E, neste contexto, instituições que a representam devem sempre procurar reproduzir o que da ciência se espera.

Em relação ao Mais Médicos, não fazem uma única crítica. Aceitam alguns problemas inocultáveis do SUS, mas ao Programa não fazem um mísero contraponto. Poderiam ter optado pela decomposição do problema em pequenas partes e, então, fazer ao menos  uma (01) pequena ressalva, sugerindo melhorias. Mas não… Aqui esta a nota.

Casa bem com um texto político, mas é incompatível com um texto acadêmico, dos quais sempre se espera mínima análise de riscos e limitações. E antes que me acusem de representar justamente o perfil de médico criticado na nota, quero registrar que, houvesse isto, gerenciamento de conflitos de interesse ideológicos e algumas poucas recomendações, provavelmente assinaria embaixo. Não vejo nenhum problema em incentivarmos a vinda de médicos estrangeiros.

Mas não é incongruente querer promover nacionalmente os temas segurança do paciente e erros de comunicação sem fazer uma única observação na nota de que, para trabalhar em equipe de brasileiros, e atender pacientes brasileiros, estrangeiros devem ter proficiência em língua portuguesa????

O governo britânico acaba de se aliar ao seu órgão de registros, o GMC (General Medical Council), para ampliar o cerco a médicos que não falam bem o inglês. Atualmente, segundo a Folha de São Paulo, 36% dos 260 mil médicos registrados lá são estrangeiros. Precisam comprovar conhecimento linguístico, além de uma série de documentos, como validação do diploma e experiência na área. Desde 2011, o GMC recebeu 66 relatos de pacientes que tiveram problemas com médicos por barreiras linguísticas.

“A segurança dos pacientes deve vir em primeiro lugar. Os médicos aqui devem falar inglês claramente para poder se comunicar. Caso contrário, temos que impedi-lo de atuar no Reino Unido”, diz o presidente do órgão, Niall Dickson.

Em recente declaração, o ministro britânico da Saúde, Dan Poulter, elogiou a presença de estrangeiros, mas disse que são mesmo necessárias avaliações rígidas. Enquanto isto, em Terra Brasilis

Percebo dois importantes males na atualidade. A parcialidade sem nenhuma autocrítica, e a falsa neutralidade. Em relação a questão da neutralidade, frequentemente acompanhada de retóricas enaltecendo democracia e humanismo, vou direto ao ponto: não existem humanos que se mantêm todo tempo, permanentemente, no ponto zero, no ponto de absoluta neutralidade. Não é dada ao ser humano a capacidade de ser impermeável às influencias do mundo e, principalmente, às suas próprias ideologias. A aceitação da inexistência da neutralidade, por sua vez, pode ser poderosa arma contra a parcialidade, sempre no extremo oposto de qualquer debate acadêmico ou científico.

Em outros casos, a parcialidade pode ser até esperada ou pretendida. Acompanhada de autocrítica, ainda assim conseguirá transmitir informação com propriedade, favorecendo, inclusive, a melhor aceitação externa das próprias teses. Sem, gera desconfiança automática.

E em meio a tudo isto, estão os conflitos de interesse, que jamais devem ser vistos como intrinsicamente negativos, mas que precisam sim de dois tipos de “tratamento”, não havendo condição de evitá-los: para que se iniba resultados negativos deles decorrentes, e para que, mesmo quando oferecem risco desprezível aos envolvidos diretamente, seja transmitido, a quem não vive diretamente a organização, o sentimento de que se preocupa em parecer independente, mesmo fazendo um trabalho interno exemplar. É um detalhe que parece menor, mas não é.

Pude ler a história da Fiocruz, sobre o complicado período após o golpe de 64 e sua fantástica evolução a partir do momento em que redescobrimos a democracia. No entanto, já escreveram dois pensadores do direito, Rodolfo Pamplona Filho e Charles Barbosa: “é mais difícil manter independência em tempos de liberdade do que de tirania. Num regime tirânico, se estiver disposto a se dobrar, a escolha é simples, entre o servilismo e a consciência. Mas em tempos de liberdade, quando as correntes políticas sopram de todos os lados, se o tronco não for bem sólido…”.

Chamar os médicos de insensíveis e a falta de uma análise mais completa e profunda do problema, deixou a triste impressão (verdadeira ou ilusória, tanto faz) de que trata-se de uma nota para que alguém, além do ministro Padilha e seus companheiros, também comprasse o discurso.

Minha desilusão com este país anda intensa e comprometedora. Característica que já percebi ser forte em mim é a quase incapacidade de produzir bem sob uma atmosfera onde perceba interesses secundários pesando mais do que deveriam (realidade fatídica ou simples efeito de ilusão) e pouca ou nenhuma autocrítica. Espero que o capítulo do livro tenha ficado bom! Em vários momentos, mais recentemente ao som de médicos estrangeiros dando entrevistas em péssimo português, tive vontade de resumir tudo em

Não entendeu? Então espero ter explicado!

Sei que, pela simples crítica, serei estigmatizado por alguns como tradicional médico corporativista ou conservador, mas sinto-me preparado para o debate. Estou entre os que torceram para o Ministro Celso Mello votar a favor dos embargos infringentes. Não porque queria, mas porque era algo que ele já havia defendido muito previamente, e um voto coerente com isto representaria aparente busca por neutralidade, tão rara nos dias de hoje (se neutralidade não existe, a busca pode e deve existir). Foi simplesmente desmoralizante para o país sentir que o evento encerrou-se praticamente sem juízes no sentido literal da palavra, com uma disputa entre pessoas que já não podiam ser diferenciadas de advogados (defensores) ou promotores (acusadores). Gostaria de ter visto a Fiocruz apoiando a vinda de médicos estrangeiros, mas transparecendo independência e foco na segurança do paciente.

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