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COCA-COLA, HAVAIANAS E OPME

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    Na semana passada, uma interessante reportagem produzida por Klinger Portella e Olívia Alonso do portal iG descreveu as diferenças de preços entre produtos similares comercializados em diversos países do mundo.       Um infográfico muito bem construído nos revelou algumas discrepâncias curiosas, como, por exemplo, o fato de uma lata de Coca-Cola ser vendida a R$ 2,50 no Brasil, contra R$ 1,70 nos EUA e R$ R$ 1,00 na Índia.         Ou que o custo pago pelos brasileiros por um litro de leite seria suficiente para que um norte-americano comprasse quase o triplo disso. Leiam mais acessando o link abaixo.http://economia.ig.com.br/sabao+a+r+26+e+havaianas+a+r+176+voce+pagaria/n1237609318746.html      Sabemos que, além da oferta de mercado, há uma série de potenciais razões para a constatação destas diferenças, desde a carga de tributos de cada região até um específico posicionamento de marketing para o produto (como é o caso das sandálias Havaianas, também citadas na matéria).      Entretanto, sempre somos acometidos por um sentimento de perplexidade (ou indignação) quando os números são postos de forma gritante sob nossos narizes. E, a partir daí, começamos a reavaliar se o recurso que em algum momento revertemos para compra de uma mercadoria foi compatível com uma formação justa de preço de venda versus o valor agregado que obtivemos.      E para Órteses, Prótese e Materiais Especiais? Seria possível realizar um comparativo da relação de custo X valor que nos ajudasse concluir que cada centavo investido em um material é compatível com o benefício que ele trouxe a nossos clientes diretos ou indiretos?       Estabelecer esta relação tem sido um grande desafio para os envolvidos em suprimentos hospitalares, principalmente quando falamos de OPME?s. Se por um lado as instituições não podem abdicar do dever de buscar e oferecer aos seus provedores a melhor relação custo X benefício, por outro, chegar a um denominador comum no comparativo de itens é uma tarefa, individualmente, quase inalcançável.         Se uma lata de Coca-Cola é a mesma em qualquer parte do mundo, procedimentos cirúrgicos podem ser feitos considerando uma série de características implícitas que interferem na escolha da empresa fornecedora ou do material, tais como técnicas cirúrgicas distintas, relação de confiança entre médico e fornecedor, autorizações de fontes pagadoras, critérios de legislação, preferências pela origem do produto, soberania do profissional médico na ação de definir o que é melhor para seu paciente, etc. Para complicar ainda mais, a identificação do resultado é objetivamente imensurável. Afinal, cada paciente é único em seu processo de recuperação, resistência ou rejeição, de forma, que o produto final de um procedimento ou técnica não passa somente pela qualidade do material aplicado. Apesar de sua contribuição óbvia.        Em hospitais, já presenciei situações tão assustadoras quanto as da reportagem do iG, tais como enxertos ósseos de mesma marca, modelo e apresentação sendo comercializados em fornecedores distintos com diferenças de até 1.000% entre seus preços de compra. Mas aqui, vencida a primeira etapa de consolidação de um bom banco de dados, foi relativamente simples comparar produtos que eram idênticos. O mesmo não posso dizer quando tentei comparar as diversas opções de próteses de joelho, por exemplo.          O certo é que atualmente há muitas dúvidas sobre a adequação dos preços de OPME?s, parte por um processo que privilegia e sustenta interesses individuais em detrimento do comum e parte porque faltam trabalhos oficiais voltados à quantificação real do valor agregado oferecido pelos produtos e suas respectivas paridades técnicas.            Por vezes, para que percebamos que as coisas não vão bem, devemos adotar uma visão leiga sobre um assunto, nos exorcizando das inconsistências que aprendemos a entender como comuns. Você deve ter achado um absurdo que um par de sandálias Havaianas custe R$ 176,00 no Japão, não é? É muito provável que os comerciantes japoneses tenham uma série de explicações lógicas para isto. Mas, alguma delas o convenceria a pagar este preço?           Que tal agora explicar a um paciente que não convive com o ambiente da saúde que um reles parafuso de 5 cm custa R$ 2.000,00? Você pode até dizer a ele que o produto não deforma, não solta as tiras e não tem cheiro. Mas é a ignorância sobre o tema e o receio quanto ao futuro de sua saúde que o fará aceitar o preço.             Vejam que não estou questionando o custo do parafuso em si, mas sim a escassez de informações sem as quais nunca saberemos se nessa história somos consumidores de Coca-Cola na Índia ou de sandálias de dedo no Japão.  

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