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Artigo: O que a matéria de capa da EXAME não falou

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Causou grande repercussão a matéria de capa da revista Exame de 25 de maio de 2015, com o título “A doença do custo”, assinada por Daniel Barros. A matéria inicia com uma apresentação didática da elevação dos custos em assistência médica no Brasil que, de acordo com estimativa da AON, pode atingir 18% no Brasil, ou seja, o dobro da projeção que apavora todos os analistas nos Estados Unidos (com uma previsão inflacionária bem menor). Além disso, lembra que o orçamento da saúde em nosso país (ao contrário de grande parte dos outros países) tem uma proporção superior bancada pelo setor privado.  O artigo apresenta alguns exemplos de empresas onde o custo da assistência médica afeta significativamente o negócio e os resultados financeiros da companhia.

Em seguida, a matéria apresenta alguns fatores relacionados ao sistema de saúde privado brasileiro que, apesar de se constituírem em “mantras” dos profissionais que atuam no setor, provavelmente são desconhecidos dos gestores de outras áreas e, principalmente dos CEOs. Dentre estes fatores a matéria destaca a fragmentação na atenção, o pagamento por “fee for service”, o uso e abuso das OPMEs, a (i)lógica relação entre a prestação dos serviços e a cobrança, principalmente pelos hospitais.  Neste campo, o jornalista mostra como um dos “remédios” a entrada de capital estrangeiro como sócio de hospitais e a verticalização pelas operadoras de saúde.

Finalmente, a matéria sugere “quatro passos para melhorar a saúde do sistema”. A primeira seria mensurar e divulgar os resultados dos tratamentos. Na verdade, no sistema de saúde é importante mensurar muito mais elementos que somente os tratamentos. Que tal mensurar e avaliar a efetividade dos atendimentos nos consultórios médicos, nos centros diagnósticos, nas emergências e nos sistemas próprios das operadoras de saúde? O segundo passo citado na matéria é mudar o modelo de remuneração nos hospitais. Sem dúvida, esta mudança é importante, mas não somente nos hospitais, mas em toda a cadeia. O terceiro passo sugerido é pagar mais aos médicos. Realmente, seria interessante conhecer as fontes para esta sugestão e analisar quais evidências há que sugiram uma maior efetividade no sistema com uma maior remuneração aos médicos. Desconheço estudos com esta relação causa-efeito. Finalmente, a matéria sugere o quarto passo que seria reverter a cultura do especialista. O artigo cita os modelos do Reino Unido, Holanda e Canadá, mas associa os resultados somente à presença de um médico de família. Sabemos atualmente, este é apenas um elemento da atenção primária à saúde que envolve vários outras necessidades como o empoderamento do paciente (que seria “ativado” para cuidar da sua saúde de maneira proativa), a integração das  informações, o cuidado multidisciplinar e a integração com a rede assistencial.

Mas, acho que o fundamental a ser discutido quando se analisa a “doença do custo” é verificar quais são os seus determinantes. Buscar melhorar os resultados para as empresas e para o sistema de saúde exige que se controlem os fatores de risco para as doenças crônicas não transmissíveis mais comuns (DCNTs) (doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e doença pulmonar crônica). De acordo com a OMS, teríamos quatro armas principais, a saber, promover alimentação saudável, atividade física, controlar o tabagismo e o uso abusivo do álcool. Com o controle destes fatores poderíamos reduzir de 70 a 80% na ocorrência das DCNTs em adultos. Observamos que o excesso de peso em nosso país somente tem aumentado e há uma perspectiva de aumento alarmante na prevalência do diabetes.  Os gastos com tratamentos oncológicos somente aumentam, mas de nada adianta gerenciar os postos de administração dos medicamentos ou as cirurgias se a prevalência do câncer somente aumenta e, controlando os fatores de risco, podemos reduzir sua prevalência em até 40%. Caso contrário é somente atuar de maneira reativa e “olhando no retrovisor”.

Finalmente, a matéria é bastante feliz ao afirmar que, “como principais clientes, são as empresas que têm poder de mudar a lógica da saúde suplementar no Brasil”.
As empresas precisam entender que cuidar da saúde dos seus empregados e familiares é algo muito além do que negociar a sinistralidade ao final do ano e isso não pode ser delegado à corretora, mas ser encarado como um elemento estratégico que pode afetar definitivamente os resultados financeiros e a competitividade da companhia.

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Comentários

    Excelente matéria que destaca alguns elementos ainda não tradicionais ou correntes na gestão da saúde de forma a causar maior impacto nos indicadores de saúde do país: prevenção, visão sistêmica da saúde, assistência não-hospitalocêntrica, mensuração da efetividade e não somente do número de atendimentos ou exames realizados, envolvimento dos CEOs com estas questões além do resultado financeiro das empresas, cuidado efetivo da saúde dos empregados e seus familiares… Ideias bonitas e que tem sido ventiladas como necessárias, mas de fato, no momento só “ventiladas”… Qual é a lógica e a cultura que está por trás do contrário a estas boas ideias? Como está a formação dos profissionais de saúde e a dos administradores de saúde que os permitam questionar este “status quo” e realmente “virarem a mesa”, implantarem uma nova cultura em que: profissionais assistenciais entendem um mínimo de gestão para aderirem sem resistências às boas práticas de gestão da instituição, a definição de saúde da OMS como bem estar biopsicossocial passe a ser verdade na ótica dos especialistas (embora especialistas) e dos gestores, e por aí vai. Em minha opinião, tudo começa na educação dos profissionais que estão à frente das instituições e junto aos pacientes. São eles que podem influenciar as leis, os sistemas e implantarem novos métodos, novas métricas. Se eles não acreditarem, não havrá um salavador da pátria, um excelente gestor público ou privado que vai conseguir implantar nada que cause uma ruptura no status quo. A quem interessa manter as coisas como estão? Uma coisa é certa: os resultados em saúde estão sendo prejudicados.

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