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Análise reflexiva do momento da Medicina Hospitalar no Brasil

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Se pudéssemos definir nosso momento em apenas uma palavra, seria CURIOSIDADE. Mas apenas uma palavra não basta. Intensa curiosidade talvez conseguisse retratar um pouco melhor um cenário onde nunca esteve tão grande o acesso aos sites nacionais que tratam do assunto, nunca os termos Medicina Hospitalar e médico hospitalista estiveram tão fortes na web e nas redes sociais, nunca os contatos profissionais foram tantos, é grande e crescente o número de grupos buscando aproximação com o modelo do norte ao sul do país. No entanto, intensa curiosidade já não mais serve para definir o momento de alguns programas brasileiros, já bastante avançados.

Como era de se esperar, o movimento aqui está correndo ainda mais rápido do que o norte-americano – certamente ajudado por ele. A sub-especialização da MH lá demorou anos, aqui já temos o grupo de Mauricio Friedrich, neurologista gaúcho, em discussões avançadas sobre neurohospitalists.

Já sou capaz de identificar um fator prognóstico local bastante relacionado a bons programas de MH: onde hospitalistas (e não somente a alta direção ou os gestores) fazem propaganda do seu programa, funciona melhor. Hospitais que têm nos seus hospitalistas os porta-vozes maiores do modelo coincidentemente são aqueles onde o alinhamento entre gestão e linha de frente é melhor, onde a satisfação profissional se traduz em melhor desempenho e capacidade de inovação, e onde, em síntese, já é possível ver a MH que conheci lá fora.

Terça-feira, dia 13, estive em Caxias do Sul, na serra gaúcha, proferindo a conferência magna da XIX Semana Científica do Hospital Pompéia e o tema central do evento foi “A Medicina Hospitalar como ferramenta de segurança do paciente”. Neste hospital, Tiago Daltoé e Luciano Bauer Gröhs estão liderando a implantação de um programa de MH (onde atuam como hospitalistas, inclusive).

Em Roubadas de carreira como hospitalistas, tentei ilustrar como não deve ser a MH. Jamie Newman, editor do ACP Hospitalist, vai pelo mesmo caminho neste vídeo que fiz durante o I Congress of the Pan American Society of Hospitalists. Em Caxias, procurei exemplificar o que havia escrito aqui no Saúde Web usando de edital para concurso na região aonde procuravam por hospitalistas para:

     1. Evolução médica diária de pacientes selecionados;

     2. Atendimento e registro de todas as intercorrências clínicas que ocorram durante o período de trabalho;

     3. A prescrição médica de pacientes, em caráter excepcional, caso necessária, deverá sempre ser consensuada e comunicada ao médico assistente do paciente, salvo emergências, ocasião quando a comunicação poderá ser realizada posteriormente ao atendimento prestado;

     4. Realizar procedimentos médicos invasivos ou não que se façam necessários, desde que sob exclusiva e expressa solicitação do médico assistente do paciente, salvo emergências;

     5. Gerenciamento do fluxo de altas e baixas da unidade;

     6. Participar do round multidisciplinar e acatar as resoluções desse.

Não tenho nenhum pudor em dizer que isto não é Medicina Hospitalar e pior: trata-se de roubada de carreira como… plantonista clínico. O moderno movimento de segurança do paciente não aceita a defesa deste grau de autonomia e este tipo de hierarquia!

Após minha palestra, uma colega me justificou o edital para “suprir a necessidade de quem fizesse os bundles pegar”. Conheci dois hospitais da Mayo Clinic: um com e outro sem hospitalistas. Posso garantir que ambos aplicam práticas assistenciais de elevada qualidade e atingem as principais metas administrativas. Não é aceitável terceirizar certas coisas e aqueles que se mantiverem independentes da MH precisam se organizar para fazer dentro de padrões mínimos. E não é impossível… por mais que eu quisesse que a MH fosse uma solução única para o sistema.

Certa vez, David Klocke – Chair, Division of Hospital Medicine, Mayo Clinic me escreveu (opto por manter o texto original e, portanto, em inglês): “Dedicated full time hospitalists improve the care of hospitalized patients. This has been clearly demonstrated in the United States. Administrators must also measure quality indicators, mortality, length of stay, readmissions, infection rates, cost per case and other metrics and set minimum standards for physicians who practice in their hospital whether they are traditional internists or hospitalists. The standards should be the same for all. Perverse financial incentives will unfortunately promote care processes that are not necessarily in the best interest of the patients“.

Gente, em se falando de qualidade, gerenciamento do fluxo de altas e baixas da unidade, protocolos, bundles… isto é meio e não fim, não concordam?

De qualquer forma, é legal ver usarem o termo hospitalista, mesmo que indevidamente, quando querem caracterizar ações na tentativa de melhorar processos hospitalares através de recursos humanos.

Outro tópico interessante para ser debatido é recrutamento. No referido edital, consta: “a seleção será realizada mediante análise curricular e, caso a comissão de seleção julgar necessário, entrevista”. Pude aprender um pouco sobre a importância desta etapa em minhas passagens pelos EUA enquanto conhecia a Hospital Medicine. Talvez seja uma das mais importantes para um programa dar certo, e, na Mayo Clinic, as entrevistas são múltiplas e por várias pessoas na avaliação de cada um dos candidatos, contando muito capacidade de bom relacionamento e comunicação, além, é claro, dos aspectos puramente técnicos. Na nossa realidade, contratamos pessoas muitas vezes sem avaliar, contrariando prática comum a boas empresas de outros setores e explicando, pelo menos parcialmente, a fragilidade de nossas “equipes”.

Bom, já é demais por hoje.

Despeço-me com dica de leitura: Artigo publicado no Journal of Hospital Medicine deste mês conta um pouco da história do movimento de MH fora dos EUA, onde somos destacados por resultados locais e de integração entre países.

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