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Albert Einstein e Vila Nova Cachoeirinha: ambos vitais para o sistema

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No mês de setembro, o colunista do Saúde Web Enio Salu lançou seu primeiro livro: Administração Hospitalar no Brasil, pela editora Manole. Na obra, o autor retrata o que viu no setor durante aproximadamente 20 anos enquanto trabalhou em hospitais públicos e privados. Ele explicou detalhes sobre o livro e chama atenção para o fato de que se um hospital não for bom financeiramente vai falhar no aspecto assistencial.
Saúde Web: Um dos principais erros que os administradores hospitalares cometem é praticar o que é feito no mercado sem analisar o contexto em que a instituição se encontra. No livro, é possível encontrar diretrizes para que os profissionais que atuam nestas atividades identifiquem e solucionem os equívocos de desempenho?
Enio Salu: Nos primeiros capítulos do livro, definimos os atores do sistema de saúde: governo, saúde suplementar, serviços e operadoras. E discutimos a necessidade de diferenciar as empresas de acordo com o seu papel, organização e fonte de recursos. Além disso, é importante estar bem situado em relação à organização em que se trabalha e o contexto em que se situa no sistema, para não cometer os erros clássicos que sempre comentamos no Blog.
Saúde Web: Na obra você afirma que os textos são direcionados tanto para médicos e enfermeiros quanto os colaboradores que atuam no administrativo, higiene e engenheiros. Como você adequou a linguagem para esses diferentes públicos? Você acha que, por meio do livro, essas áreas podem começar a ter mais interação profissional?
Enio Salu: Faz aproximadamente 20 anos que estou discutindo processos e práticas hospitalares. Durante muito tempo fui gestor de TI do Sírio, e era interlocutor entre todas as áreas de negócios e os fornecedores de sistemas. Aprendi na prática como a maioria das áreas vê e fala sobre o hospital. O livro nada mais é do que a evolução das apostilas dos cursos que dei para os mais diversos profissionais que atuam em ambiente hospitalar. Antes de ter este formato era fornecido nos cursos e até vendido por quem navegava nos sites de administração e auditoria hospitalar da minha empresa.
Saúde Web: A interação entre as diferentes áreas de um hospital é um tema que constantemente é discutido em debates relacionados ao setor. Em seus textos, você já comentou que a receita hospitalar está em todas as atividades que envolvam a assistência ao paciente. Como acha que esse problema pode ser solucionado?

Enio Salu:
Justamente ensinando e relembrando para as pessoas o quanto a integração é importante. No livro existe um capítulo que lista os principais processos mais comuns na maioria dos hospitais.
Por experiência: a pessoa toma contato uma vez, duas, três vezes e de repente acaba dominando os controles e integrações básicas . E quando percebe acabou de assumir a gestão de uma área de negócios do hospital em consequência disso. O gestor hospitalar é aquele que consegue identificar seu papel no contexto, e não as entranhas da área que supervisiona.
Saúde Web: O livro tem o intuito de mostrar que um hospital também deve ser compreendido como uma empresa. Mas as instituições estão preparadas para vender saúde? É possível adotar essa visão quando se trabalha com a vida e o bem-estar das pessoas?
Enio Salu: Não só é possível como é absolutamente necessário. O hospital é uma empresa como outra qualquer: precisa comprar, pagar os fornecedores, pagar os funcionários. Se não for saudável financeiramente não vai cumprir seu papel social de curar cada vez mais pacientes, salvar cada vez mais vidas, desenvolver cada vez mais a medicina.
Saúde Web: Quais são os aspectos motivacionais abordados no livro? Em sua opinião, os hospitais estão dando a devida atenção a esse fator?

Enio Salu: O principal é que o profissional da saúde existe para consertar o que boa parte das indústrias mais ricas do mundo fazem de errado.
Você vê propaganda de cerveja induzindo jovens a pensar que as pessoas que consomem bebida alcoólica são engraçados, bonitos, ?sarados?. Na verdade é uma droga que faz mal a saúde de quem consome, e ainda tem como efeito colateral o fato de que uma pessoa alcoolizada dirigindo pode prejudicar outras que não tem nada a ver com o consumo de bebidas alcoólicas.
Quem deveria aparecer sorrindo nas propagandas e ser admirado pelo que faz é o profissional da saúde, que vai cuidar do alcoolizado traumatizado no pronto socorro, centro cirúrgico e UTI.
Nossa motivação é saber que fazemos o bem para as pessoas, na maioria das vezes ganhando muito menos que os que fazem mal.
Saúde Web: Uma vez você mencionou no Saúde Web que o que influencia no momento de discutir contratos com a fonte pagadora é a forma como os colaboradores atendem os pacientes. Se tratarem os pacientes como clientes, têm tabela alta. Essa cultura tem sido colocada em prática nos hospitais? Você a defende no livro?

Enio Salu: Nos hospitais de São Paulo, cujos preços são maiores, os pacientes são tratados como clientes, desde a recepção que o chama pelo nome e não pelo número da senha, até pelo auxiliar de higiene que lhe pergunta se o perfume do desinfetante está incomodando.
O livro tem um capítulo que trata da importância do atendimento humanizado e das atitudes comportamentais adequadas.
Saúde Web: No livro você procura deixar claro as diferentes formas de enquadramento do hospital em atenção primária, secundária e terciária. E, no Saúde Web, você já mencionou que ?não é por que é hospital que é tudo igual?. Você acha que ocorre uma confusão sobre o tipo de atuação dos hospitais? Quem é o maior prejudicado nesta história?

Enio Salu: O financiamento da saúde suplementar no Brasil está errado, obrigando hospitais que deveriam se concentrar na atenção terciária a manter consultórios médicos. No que se refere a hierarquização da atenção à saúde o sistema público está anos-luz a frente da saúde suplementar (embora também tenha grandes e estruturais problemas).
Todos são prejudicados:
– A população, porque você acaba disputando vaga no pronto-socorro em caso de emergência com pessoas que não agendam consulta com o médico para fazer consulta no pronto socorro (muitas vezes para pegar um atestado para faltar ao serviço);
– O serviço de saúde que fica com equipamentos de alto-custo ociosos ou super demandados (8 ou 80);
– O plano de saúde que acaba pagando mais caro por um procedimento que poderia ser realizado em serviço de menor especialização (e menor custo).
A maior parte da população pensa, por exemplo (em São Paulo), que o Hospital Albert Einstein é igual ao Hospital Vila Nova Cachoeirinha, afinal são hospitais ? não entendem a diferença de estrutura entre eles, a missão deles, e o que representam para o sistema de saúde. Chegam a dizer que um é bom e outro ruim, mais ou menos. Comparando navio com avião, afinal são meios de transporte, não são ?
Não entendem que o sistema vai a falência se não tiver um ou outro.
Nós que atuamos no segmento da saúde não podemos cometer este erro ? no livro conceituamos estas diferenças.
Saúde Web: Você passou por alguma mudança na forma como pensava a saúde no Brasil depois de escrever o livro? Existe um novo Enio?

Enio Salu: Sem a menor dúvida ? todos deveriam escrever para se conhecer melhor. Preciso lembrar que é um livro acadêmico: minha intenção é passar aos mais jovens o que aprendi na prática no convívio com alguns dos melhores administradores hospitalares do Brasil.
Tive o privilégio de conviver com administradores do Complexo HC em São Paulo, do Hospital Sírio Libanês, da Faculdade de Saúde Pública e da Fundação Getúlio Vargas.
O livro está sendo um teste de coragem, porque continuo convivendo com eles ? só espero não decepcionar muito meus mestres: se a decepção for pequena valeu a pena.
Saúde Web: Esse é o primeiro livro que você escreve. Pretende se dedicar a outras obras?

Enio Salu: É o primeiro, mas pretendo escrever outro com algumas pessoas por quem tenho profunda admiração profissional, e que têm muito a ensinar aos jovens do segmento da saúde.
*Confira mais detalhes sobre a publicação na próxima revista FH

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