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A vulgarização de uma palavra

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Desafio é um termo utilizado ao longo da história do homem para designar momentos em que algo muito importante, difícil ou que envolvesse riscos precisava ser feito, seja para uma finalidade boa ou ruim. Os desafios poderiam lograr êxito, sendo aí listados diversos fatores que poderiam contribuir para isso, tais quais estratégias adequadas e no momento certo, vontade de fazer acontecer, estímulos através de princípios morais, éticos e religiosos, dentre outros. O fato é que a humanidade sempre esteve diante de desafios das mais diversas naturezas, em grande parte das vezes na busca de um ambiente melhor para ser vivido.

Num mundo com tantas transformações instantâneas, globalizado e com os modernos sistemas de comunicação e interoperabilidade alcançando num espaço de horas inovações tecnológicas que levariam séculos pelos nossos ancestrais, o termo vem assumindo proporções quase que banais quando se trata de expressar certos avanços, ou a falta deles, no bojo dos direitos fundamentais dos indivíduos.

No universo das conquistas mais básicas da cidadania entre os habitantes dos diversos países, tais como os serviços essenciais, na maioria dos regimes democráticos providos pelo Estado, falta-nos a coerência, o planejamento, a ética e a vontade política para que as condições sociais mínimas da maioria de nossa população sejam dignamente alcançadas.

Nessa linha estão os discursos proferidos em tom de aparente indignação a respeito das políticas de saúde e do mercado da saúde em si, para ficar apenas nesse exemplo.

Nossa forma de condução dos assuntos relacionados à saúde, tanto coletiva quanto suplementar, é esquizofrênica: implantamos um modelo de saúde pública altamente socializante, inspirada em modelos europeus tradicionalmente amadurecidos em seus respectivos sistemas; ao mesmo tempo em que seguimos na prática cotidiana a cartilha neo-liberal ditada pelo poder econômico do Grande Irmão do norte, os Estados Unidos da América, de transferência de responsabilidades para a iniciativa privada e um Estado mínimo.

Duvida? Então faça um pequeno exercício de observação. De uma forma muito resumida, existem seis pilares de sustentação do nosso sistema de saúde, em geral:

                    – Usuários (incluindo aí aqueles que se utilizam do SUS ? todos nós- e aqueles que dispõem de algum plano de saúde para mitigar suas dificuldades de acesso);

         – Prestadores (hospitais, clínicas, consultórios, laboratórios, centros de reabilitação, entes públicos);

                    – Operadoras de Planos de Saúde (cooperativas de serviço médico, autogestões, seguros-saúde e medicina de grupo);

                – Governos em geral, nas suas esferas federais, estaduais e municipais;

                – Profissionais de saúde em seus mais diversos níveis (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, etc..);

                – Complexo médico-industrial da saúde (empreiteiras, indústrias de insumos, drogas, tecnologias e equipamentos para a saúde).

Pergunto a você, leitor, qual desses segmentos pode se mostrar para nós exibindo alguma pujança? Qual deles você pode identificar como satisfeito nesse emaranhado de interesses, na atual conjuntura? Alguns podem arriscar que o último elemento, o complexo médico-industrial da saúde, pode ser, talvez, o único a se beneficiar dessa aparente lambança em que nosso sistema está assentado.

O que me incomoda profundamente é a repetição a cada evento, a cada discurso de posse de alguma coisa, a cada ata de reunião, a cada reportagem veiculada por alguma mídia, que o desafio é isso, que o desafio é fazer aquilo, que o desafio tem que ser vencido e por aí vai, numa combinação de frases totalmente sem sentido para aqueles que, pragmáticos como eu e você, aguardamos propostas concretas que nos mostrem caminhos, e não se restrinjam a limitar suas observações a obviedades históricas. Nosso sistema está ruim? Todos sabem. O SUS precisa de financiamento ou de gestão? Horas de discussão asséptica e nenhuma conclusão. O mercado de saúde suplementar encontrará saídas que possam vencer a falácia do crescimento econômico que não estamos experimentando, a despeito da propaganda oficial?

Fugindo um pouco à proposta dos temas que habitualmente escrevo, conclamo a todos a refletirem a respeito desse enigma: por que somos tão brilhantes em apontar problemas e fazer diagnósticos, e tão ineptos em oferecer soluções?

Por favor, parem de dizer que existem desafios. Cansou. 

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