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A Luta pela Saúde e Contra o Câncer é de Todos Nós: Saúde, Dadá!

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Neste mês celebramos duas datas importantes: o dia mundial da Saúde e o dia da Luta contra o Câncer. Na primeira reflexão sobre o que representam, me pergunto o que temos a comemorar? E, de imediato, penso em duas grandes amigas que foram vítimas do câncer de mama. Uma delas tem a sorte de poder recorrer aos melhores médicos e hospitais, inclusive os internacionais, e estar praticamente curada. A outra, Dadá, descobriu a doença, aos 37 anos, por acaso, depois que o motorista do ônibus em que estava freiou bruscamente e ela bateu o seio. O posto de saúde ao qual recorreu, a encaminhou para um dos maiores hospitais públicos de São Paulo, onde foi diagnosticado o câncer. A médica da instituição disse à ela que a doença já estava lá e que o trauma da batida provocou a inflamação que a tornou visível. A profissional entendeu, então, que ela deveria fazer a retirada de um quadrante da mama e colocar um expansor para uma possível cirurgia estética-reparadora.

De lá pra cá, ela fez todos os exames de rotina e tomou o medicamento indicado, tamoxifeno. Dadá ficou um tempo sem quimioterapia, sua situação se agravou e, quatro anos depois da cirurgia, num dos exames recentes, Dadá descobriu que o câncer se alastrou e tomou também a outra mama. Só agora foi encaminhada para tratamento, porque conseguiu um atendimento gratuito oferecido por um médico particular que a encaminhou para a quimio. Ou seja, olhou a paciente com atenção. Depois de algumas sessões e outro tratamento a que terá de submeter, ela se sente debilitada, sofre as dores e o desconforto do linfedema (braço inchado), está afastada do seu  trabalho de babá e se sente lesada física e psicologicamente.

Acha, ainda, que foi mal atendida na rede pública, que não teve a atenção necessária do profissional que cuidou dela e que, se tivesse sido adequadamente tratada logo no início, talvez com uma quimioterapia e radioterapia, teria vencido a luta. Seu câncer, muito precoce, parece desvinculado de alguma história familiar, as teses médicas mostram que esse tipo é bastante agressivo. Então, por que não adotar medidas mais radicais para combatê-lo? Descaso médico, falta ou economia de recursos do sistema público?

A revolta de Dadá com as propagandas governamentais que prometem o que não cumprem (ela teve de pagar pela primeira mamografia) faz todo sentido quando vemos milhões sendo desperdiçados e jogados no ralo com a corrupção, má gestão de recursos públicos e tantos outros cânceres que acometem o Brasil. Acabamos de saber que as redes credenciadas pela Prefeitura de São Paulo receberam por consultas que não realizaram. Estamos falando de São Paulo, o Estado mais rico da República. O que dizer das regiões Norte e Nordeste, onde o câncer de útero engrossa o caldo das estatísticas? As últimas projeções do INCA, Instituto Nacional do Câncer, aponta 71480 novos casos em  mulheres e 69960 em homens em 2012. Essas mesmas mulheres que, em geral, administram casas, cuidam de filhos e idosos e ainda trabalham fora, são as maiores vítimas do câncer, para não falar do aumento de casos de doenças degenerativas e cardíacas que as acometem. Cada pessoa doente representa um enorme ônus social e familiar.

O Governo pretende ampliar os direitos dos pacientes com câncer, estão em votação uma lei que obriga os planos de saúde a cobrir o tratamento de quimioterapia domiciliar de uso oral e outra que torna obrigatória, pelo serviço público, a cirurgia plástica de reconstrução mamária, depois da retirada do câncer. Avanços como estes dão um pouco de alento à luta, mas ainda falta muito.

Quem tem planos de saúde também não está livre dos problemas, pois as recusas de tratamentos para o câncer e os processos judiciais só crescem a cada dia.

Estaria em apuros se tivesse escolhido ser médica e não advogada porque creio que os profissionais médicos da rede pública hoje têm de lutar com duas armas: a da ética do coração e a da habilidade pra vencer a burocracia e ineficiência do Estado.

Temos visto exemplos incríveis de pessoas, administradores, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas que, com recursos ínfimos, fazem milagres para salvar vidas e promover tratamentos dignos,  mesmo quando nos resta pouco de humanidade. Estes, merecem nosso respeito e a eles seremos eternamente gratos.

Àqueles para quem Dadá – que tantas crianças e sonhos embalou com dedicação e carinho ? é só mais uma que pode esperar e adoecer na fila, desejo saúde. Parece batido desejar saúde quando isto vem sendo dito de forma mecânica, não é mesmo? Será que a sociedade precisará ficar cada dia mais doente pra que saibamos dar valor à vida, na sua forma plena?

Renata Vilhena Silva

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