Referências da Saúde Quem foram os premiados da edição 2016? Confira agora

A cabeça do bacalhau

Publicidade

Alguém já viu um bacalhau inteiro, antes de ser servido? E uma cabeça de bacalhau? Alguém aí sabe como é que é a cara de um bacalhau?

Algumas coisas na vida a gente usa, experimenta, comenta a respeito, e até mesmo se arrisca a definir sem termos certeza se não estamos falando bobagem. Minha sensação a respeito do conceito que as pessoas têm de Gestão do Corpo Clínico é mais ou menos essa: todo mundo fala a respeito, e cada um a seu jeito. Muitos falam sem ter a mínima noção do que seja, e a falta de uma definição clara por parte de quem estuda o tema ajuda a esse tipo de comportamento.

Comemos o peixe, sabemos que é bom, mas não sabemos muito bem como é a cara dele.

Esse ano de 2012 foi particularmente importante para consolidar algumas tendências em gerenciamento de unidades de saúde, e uma delas, sem dúvida alguma, foi o reconhecimento de que algo relacionado ao comportamento e atitudes do profissional médico dentro das organizações, particularmente os hospitais, deveria ser estudado mais de perto. Mais ainda, hoje já há um certo consenso de que o papel deste ente chamado Corpo Clínico tem realmente alguma coisa a ver com o desempenho organizacional perante governos, fontes pagadoras e comunidade. Já vem tarde esse reconhecimento.

Gradativamente as organizações estão incorporando atitudes que privilegiam a opinião e a expertise daqueles que efetivamente são os responsáveis pela condução do negócio chamado saúde, ou seja, os médicos. É um processo lento de reconfiguração nas atividades deste profissional, que passa necessariamente por uma aquisição de valências um pouco fora do seu cotidiano. Mas antes assim que ver como ficou feio e ultrapassado essa história de achar que um hospital é igual a um hipermercado: vende-se de tudo um pouco, com ótimas margens de lucro, fornecedores nem sempre idôneos, funcionários em regimes de trabalho duro, normas de segurança ignoradas, e tudo isso num ambiente climatizado, cheiroso e agradável. Um bom comércio geralmente tem um bom administrador por trás do negócio. Um bom provedor de saúde costuma ter um médico sensível e carismático por trás.

Um bom início de conversa seria definirmos, ou tentarmos definir, o que é e o que não é relacionado à Gestão do Corpo Clínico.

Muitos dos exemplos inspiradores a respeito dessa nova tendência se espelham no sistema de saúde público inglês. De fato, se existe um lugar que avançou na implantação de um sistema de saúde público com qualidade, hierarquizado, bem dimensionado, com profissionais bem treinados e bem pagos, e tudo isso com enorme transparência, esse lugar é o Reino Unido. Existem críticas pesadas acerca de vários aspectos na cadeia assistencial não só lá como em outros países em que sistemas públicos de saúde sobrepujam os privados. Mas não nos esqueçamos de que a premissa básica é que não existe sistema de saúde perfeito (a diferença é que em alguns sistemas há amadurecimento que se transforma em benefício ao usuário, e em outros não).

Para esses, é muito difícil encontrar alguém que não defina Gestão do Corpo Clínico como sendo um conjunto de atividades que estabelecem de forma prioritária critérios e metas relacionadas à segurança do paciente e do colaborador interno, visando antes de qualquer coisa à prevenção e identificação/tratamento precoce de quaisquer eventos adversos no ambiente das organizações de saúde. Há muito se sabe do potencial lesivo às pessoas e aos orçamentos, quando não se estabelecem políticas claras a respeito dos eventos adversos. Outras dimensões nos pressupostos básicos do sistema de saúde inglês incluem:

  • Desempenho profissional (qualidade técnica);
  • Utilização racional dos recursos disponíveis (eficiência);
  • Promoção da satisfação do usuário com o serviço prestado.

Aqui no nosso país podemos ver a preocupação dos institutos de avaliação e certificação de acreditação a respeito desses aspectos, principalmente aqueles relacionados à segurança dos pacientes nas organizações de saúde (quase nunca seguidos à risca, mas outra hora abordaremos isso).

Para outros tantos, Gestão do Corpo Clínico diz respeito à elaboração de diretrizes e protocolos clínicos e sua implantação principalmente no ambiente hospitalar. Mais que isso, a criação de indicadores de qualidade e de desempenho que daí derivam, trazendo informações preciosas aos gestores, médicos ou não, na consolidação de seus planos estratégicos. A participação do Corpo Clínico, comandado por uma liderança reconhecida, poderia sem sombra de dúvida agregar um diferencial para a organização, na medida em que os impactos na assistência são rapidamente sentidos. Aqui, é esperada uma certa padronização nas atividades clínicas (não engessamento), estas, por sua vez, lastreadas por literatura e experiências que dão forma à melhor evidência clínica, para aquela organização. Esse fenômeno é sobejamente conhecido no mundo inteiro (infelizmente, temos muito que caminhar nesse sentido. Nos Estados Unidos da América, segundo Richard Bohmer no seu maravilhoso livro ?Arquitetura e Planejamento na Gestão em Saúde?, Bookman, 1ª edição; apenas 30% das organizações hospitalares do país mais rico do mundo aderem a protocolos e diretrizes clínicas!).

Alguns sugerem que Gestão do Corpo Clínico se resume a criar mecanismos de ordenamento regimental dentro das organizações, instituindo normas para incorporação de novos profissionais ao corpo clínico, criação de comissões de apoio à direção clínica ou técnica, incentivo à atuação dos comitês de ética, estabelecimento de espaços para discussão e atividades científicas, dentre outros.

E existem aqueles que acreditam que Gestão do Corpo Clínico é um processo no qual os médicos são chamados a assumirem papéis de liderança nos diversos nichos da organização, passando a ser interlocutores com os demais profissionais de sua área de influência na consolidação de mudanças emanadas pela alta direção, com a participação deste líder nas discussões ou não. Como contrapartida, as organizações elaboram uma lista de privilégios progressivos, alguns de cunho monetário, para estimular e premiar a adesão a essas políticas, procurando assim estabelecer laços sólidos de fidelização e seguimento a comportamentos considerados adequados e não lesivos às mesmas.

O fato é que por ser um conceito relativamente novo, mais importante do que definir qual é a melhor forma de expressar o que significa, devemos ter em mente que uma enorme parcela de pessoas com poder de decisão nas políticas de saúde em geral não fazem a menor idéia do que vem a ser isso, apesar de ultimamente serem bombardeadas com a informação de que isso é muito importante em quase todos os eventos na área.

Não tenho a pretensão de dizer qual a melhor definição do termo. Aliás, o termo ?gestão? em si já está um pouco gasto. Prefiro chamar de Governança Clínica, preferência compartilhada por outros estudiosos do assunto, pois remete à imagem de transparência e assertividade. Mas, sendo um ou outro, creio que não existem definições certas ou erradas. Talvez um mix de tudo que foi dito acima expresse melhor o termo.

Assim sendo, talvez não seja mesmo importante saber como é que é uma cabeça de bacalhau.  O que não significa inércia diante das muitas ações possíveis.

Para aqueles que, como eu, estão tentando se fazer compreender nas organizações hospitalares, principalmente ao tentar demonstrar a simplicidade quase singela da relação linear que existe entre as aplicações destes conceitos e o melhor desempenho organizacional, espero que o ano de 2013 seja pródigo na disseminação desses pontos e, principalmente, na absorção dos mesmos.

Se o mundo não acabar antes…..

Bom Natal e Feliz Ano Novo a todos.

Publicidade

Notícias como essa no seu e-mail

Faça como mais de 20.000 profissionais do setor de saúde e receba as últimas matérias no seu email.

Deixe uma resposta